Aula 3 – 23/01/1995 – O Empírico e o Transcendental

Capa Grande Aventura

[Temas abordados nesta aula são aprofundados na Introdução e nos capítulos 1 (Implicar – Explicar); 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 10 (Estoicos e Platônicos); 11 (Conceitos); 12 (De Sade a Nietzsche) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 


O que eu vou falar – não importa o quê, eu ainda não sei nem mesmo o que vai ser… – tem como objetivo mostrar para vocês, nesta aula, por exemplo, o que é o transcendental.

Bom. Duas questões – ambas medievais. A primeira é a ideia de um Deus; o medieval pensava assim, São Tomás pensava assim – um Deus dotado de duas faculdades. (Atentem para isso: a palavra faculdade) Essas duas faculdades seriam o intelecto e a vontade. (É estranho que eu coloque a vontade como faculdade!) E o intelecto de Deus seria povoado pelo que se chama essência. Então, o que estaria no intelecto de Deus seriam as essências.

Mas – o que quer dizer exatamente essência ?

Essência é tudo aquilo que é possível de tornar-se real. Ou seja, a essência é tudo aquilo que não possui uma contradição interna que a impeça de se tornar real. Por exemplo: o que define o objeto lógico, o que define uma essência, é que ela tenha, seja regida, por dois princípios: o de identidade e o de não-contradição.

Então, tudo aquilo que puder/for regido pelo princípio de não-contradição chama-se possibilidade lógica. Ou seja: tudo o que não tiver contradição interna, tem a possibilidade de se tornar real. Por exemplo: no medieval, Deus tem seu intelecto povoado de possibilidades. Ou seja: é povoado de essências. E esses possíveis tornam-se reais; quer dizer, tornam-se existentes – desde que Deus tenha vontade de torná-los existentes. Então, a vontade de Deus, no medieval, se submete ao intelecto. No sentido de que o intelecto [divino] possuiria todos os possíveis. (Certo?)

Então, pelo que eu disse aqui, a realidade pressupõe – antes de ela se dar – o possível. Pressupõe o mundo das essências, que estaria no intelecto de Deus. Voltando: no intelecto de Deus nós encontraríamos os possíveis.

– O que é possível? Por exemplo: a mesa, a cadeira, a árvore – por que esses três elementos são possíveis?

Porque eles não trazem nenhuma contradição interna. Mas eles só se tornam reais se a vontade de Deus quiser transformá-los em reais. Então, digamos, a vontade de Deus tornou, esses possíveis, reais. Quando eles se tornam reais, eles se chamam individuais. Ou seja: tudo aquilo que é real, é individual. E tudo aquilo que está no intelecto de Deus chama-se universal.

Então, a diferença de universal para individual, é que o universal é do campo da possibilidade e o individual é do campo da existência. Por exemplo: eu – Claudio – sou um indivíduo existente. Mas o homem é uma possibilidade no intelecto de Deus. Logo, aquilo que eu estou chamando de universal não teria a mesma realidade que o individual – porque o individual teria uma realidade existencial. Ou de uma maneira mais clara: tudo aquilo que existe é – necessariamente – individual. Tudo o que existe é necessariamente um sistema individuado. Enquanto que o universal passa para o campo dos possíveis – no caso dessa explicação que eu dei para vocês. Ainda que a gente encontre determinadas teses que afirmem a realidade existencial tanto do universal quanto do individual. O grande mestre que tirou os universais do campo existencial foi Guilherme de Ockham. Ele tira os universais do campo existencial, [mantendo ali] apenas o individual. Mudando a linguagem: o indivíduo é o único ser ontológico– porque é o ser que existe – independente de qualquer coisa. Enquanto que o universal torna-se semiológico. Havendo aqui uma distinção entre a semiologia dos universais e a ontologia dos individuais. A filosofia, até o princípio do século XX, manteve essa distinção, embora muitos pensadores ainda admitissem que o universal pudesse ter realidade. Mas essa distinção foi praticamente mantida e o universal tornou-se signo – a cadeira, a mesa, o lápis, o cavalo, pouco importa o que, todos esses universais se tornaram signos. E os indivíduos – que nós costumamos nomear pelo dedo apontado, pelo nome próprio, pelo adjetivo demonstrativo – ganharam existência real. (Certo?)

Então, a realidade passou a ser constituída e habitada por indivíduos (tá?). Os indivíduos são aqueles que povoam o que se chama realidade.

Vamos dizer, da década de 40 para cá, determinadas linhas de pensamento – prestem atenção, hein? Agora as coisas vão ficar um pouco difíceis! Eu vou voltar antes de entrar! – Os universais não ganharam realidade ontológica. Mas têm uma espécie de realidade – uma realidade mental ou uma realidade de linguagem, uma realidade linguística: o universal existe na linguagem; existe na subjetividade. Mas não existe independente ou da linguagem ou da subjetividade. Enquanto que o individual, o indivíduo tem uma realidade autônoma – por isso, ontológica. Agora, a partir mais ou menos de 1940 aparece um termo – singularidade ou singular – que inicialmente é tomado como sinônimo de individual. Ou melhor, já no século XIV a palavra indivíduo e a palavra singular, a palavra individualidade e a palavra singularidade eram tomadas como sinônimos. Mais ou menos a partir de 1940 a singularidade se separa da individualidade. O singular aparece como outra realidade. Vamos dizer: o universal, que é Mental ou Linguístico; o individual, que é ontológico, que é real. E, agora, uma terceira realidade – chamada singularidade.

Antes de penetrar, eu vou colocar os territórios de cada uma:

Os universais são objetos mentais. Ou seja, se não houvesse isso que se chama mente, não existiriam os objetos chamados universais. Os individuais ou os indivíduos são aqueles que povoam a realidade empírica.

– O que é a realidade empírica? Tudo o que existe neste ou noutro planeta qualquer. Empírico é o vivo, o objeto técnico, o objeto físico, o objeto químico, a combinatória de duas moléculas, um átomo – tudo isso é um indivíduo porque tem uma realidade empírica. (Certo?) E o universal é uma realidade mental. O Singular, a singularidade – que seria o outro elemento, o terceiro elemento, sempre foi confundido com o individual. E neste momento de aula, nós não temos poderes para distinguir o singular do individual. Mas – esse singular – também vai ter o seu território. E o território do singular – ainda que rompendo com todas as tradições das filosofias clássicas, sobretudo a filosofia kantiana – chama-se transcendental.

Como nós estamos num trabalho de compreensão – que às vezes torna-se longo e difícil – a minha questão, neste momento, é simples: é marcar a presença de três territórios:

•  O território do universal – que seria o território do mental;

• O individual – que seria um território empírico, ou seja: para existir, o individual não depende senão dele próprio (enquanto que o universal, para existir, depende da mente ou da subjetividade);

• A singularidade – que à semelhança do indivíduo não depende de nada para ter a sua realidade.

Conclusão : o universal não é real – porque é mental.

Mas o individual e o singular são ambos reais – apenas diferem, porque o individual é do campo empírico e o singular é do campo transcendental. (Eu sei da dificuldade extremada disso daqui!)

O que eu estou levantando para vocês – e que eu vou fazer diversos procedimentos para alcançar os meus objetivos – é que a ciência do real tem como objeto de trabalho, o individual. Ela trabalha com o individual.

– Por quê? Porque o individual é aquilo que existe – aquilo que tem realidade empírica.

Mas eu coloco essa noção de transcendental e povoo esse universo que eu estou chamando de transcendental – ainda sem explicar – com esses elementos que eu estou chamando de singularidades. O que vai acontecer de original é que a partir disso daí, as ciências – ao invés de trabalharem com o individual – passam a ter duas metades: de um lado o individual; de outro, a singularidade. (Ainda ficou muito difícil!)

O que eu estou dizendo para vocês? Nesse primeiro investimento, eu estou constituindo aqui – acredito que com uma total facilidade – três componentes: um componente mental, que eu povoo com os universais; um componente empírico – por exemplo, esta sala que está aqui, que é povoada de indivíduos; e um terceiro território, que eu chamo de transcendental, onde eu introduzo o que eu chamei de singularidade.

Vamos avançar!

Uma filosofia do século II a.C. – chamada filosofia estoica – que tem uma repercussão imensa na formação do pensamento ocidental, vai fazer uma prática inteiramente original. Uma prática que nenhuma filosofia até então havia feito: ela vai pegar as três dimensões do tempo – passado, presente e futuro – e separar em duas partes, colocando de um lado o presente e, de outro, o passado e o futuro. ´

– O que os estoicos fizeram? Eles fizeram uma divisão no tempo que, até então, nenhuma filosofia teria feito. Porque todas as filosofias, quando trabalham no tempo, trabalham nas três dimensões – passado, presente e futuro; os estoicos, não! Os estoicos pegaram as três dimensões e colocaram o presente de um lado, e de outro, o passado e o futuro – ligando o presente ao indivíduo; e o passado e futuro à singularidade. (Já começa a clarear! Já começa a aparecer!)

Então, como eu disse para vocês, é de uma dificuldade extremada envolver-se nesse processo – saber o que está acontecendo realmente! Provavelmente – pelo menos no platonismo e no aristotelismo – o pensamento esteve sem vias para fazer grandes envolvimentos com o tempo – porque no modelo Platão e Aristóteles o tempo nada mais é que uma imagem móvel da eternidade. Enquanto que, nos estoicos, o tempo se liberta; e nessa libertação do tempo, eles vão colocar o presente do lado do indivíduo e o passado e o futuro do lado das singularidades.

Presente – o indivíduo.

Passado e Futuro – as singularidades.

Empírico – presente e indivíduo.

Transcendental – passado e futuro; e singularidades.

O que nós temos que fazer é isto: vocês têm que seguir esse quadro que eu estou montando, que nós vamos entender!

Atenção, porque agora vai aparecer um momento dificílimo:

– O que nós já temos do lado do indivíduo? Presente e empírico, (não é?) Do lado do indivíduo estão todos e quaisquer corpos – o corpo está do lado do indivíduo.

Então, se nós chamarmos alguma coisa de corpo, essa coisa que se chama corpo pertence ao presente, ao indivíduo e ao empírico. Logo, no singular, no transcendental, no passado e futuro não existe corpo. Melhor dito, agora: a palavra existência é literalmente – no caso desta explicação que eu estou dando – sinônimo de corpo. Ou seja: só pode existir o corpo nada mais pode existir!

Por exemplo:

– Deus existe? Se existir – é um corpo! (Certo?)

– O fantasma de Getúlio Vargas existe? Se existir, é um corpo.

A existência e o corpo se identificam.

Então, de um lado: existência, corpo, indivíduo, presente, empírico.

Ora, a partir daí, a singularidade, que já tem o seu próprio campo – que é o transcendental, seu próprio tempo – que é o passado e o futuro; a singularidade – lamentavelmente – não existe.

Está surgindo – na ordem do pensamento – uma realidade, porque a singularidade não é um objeto mental; pois, se ela fosse objeto mental, ela seria universal. Ela tem uma realidade autônoma -, mas ela não existe e não é um corpo.

Os estoicos, com a maior facilidade, chamaram essa realidade – que não existe, que não é um corpo – de incorporal. Então, o universo dos estoicos – eu acho que agora está ficando mais claro! – é, de um lado, o corpo: o corpo está no presente do tempo. De outro lado, o incorporal, que é dilacerado, esquartejado: ao mesmo tempo no passado, e ao mesmo tempo no futuro.

O corpo é empírico, observável, experimentável.

A singularidade é transcendental.

O corpo existe e o singular não – existe. (Foi bem?)

Aluna: Por que você disse assim: lamentavelmente a singularidade…

Claudio: Lamentavelmente para a compreensão. Lamentavelmente – no sentido pedagógico; não no sentido ontológico. (Certo?) Porque eu nunca iria considerar lamentável o fato de um singular não ter existência. Mas como nós estamos no campo da pedagogia e que isso começa a ser expresso, (não é?) oprime: é difícil para a gente entender!

– Por que [é difícil para a gente entender]? Porque eu estou mostrando para vocês, de um lado, o que seria a ciência moderna – essa ciência implicando os dois componentes: o singular e o individual. De outro, a filosofia – que seria sempre do singular, ou seja: a matéria da filosofia seria o singular; e, mais surpreendente ainda, a matéria da arte – que também seria esse singular. (Vamos outra vez!)

Aluno: O corpo histérico seria um corpo, seria o singular?

Claudio: O “corpo histérico” seria incorporal, seria o singular – porque o único corpo que existe é o corpo orgânico. Seria o único que existe. Então, o corpo orgânico está do lado do individual; o histérico estaria do lado do incorporal. O corpo histérico – literalmente – não existe! Qualquer psiquiatra sabe disso, (não é?)

Aluna: Por isso, naquela hora, você ficou devendo a explicação daquela palavra?

Claudio: Exatamente! Não havia como – naquela hora – falar sobre isso.

Então, o que nós temos que fazer, é literal: é o melhor processo pedagógico – é fazer uma divisão… e ir colocando os termos. (Depois eu desfaço isso!) Porque eu identifiquei o individual ao corpo; E no caso – como o M. falou, eu concordei: é individual; o corpo funcional – é individual. Agora, esse corpo está no presente do tempo.

– O que se chama presente do tempo ?

Vamos colocar que o presente no tempo é constituído por um conjunto de instantes: presente, presente, presente, presente… (Certo?)

Por exemplo: os seres que estão do lado do indivíduo não necessitam de tempo para existir: basta, para eles, a dimensão presente. Enquanto que o singular – que é o grande enigmático desta aula – ele está num tempo estranhíssimo, porque ele é – simultaneamente – passado e futuro. Ou seja: tudo aquilo que é simultaneamente passado e futuro é esquartejado – nunca aparece no presente!

Então, essa singularidade, esse transcendental, esse “passado e futuro simultâneo” começam a perturbar o que nós chamamos – o nosso pensamento. O nosso pensamento começa a se ver quebrado: [a ver quebrados] todas as suas referências e todos os seus eixos. Porque, a chegada da singularidade, a chegada do transcendental – é a chegada do paradoxo.

O paradoxo começa a fazer parte de uma investigação científica; fazer parte de uma investigação filosófica; ou a fazer parte de uma prática artística – porque desde que nós aceitemos essas ideias, (vou repetir) transcendental, singularidade, passado e futuro simultâneos, incorporal – nós temos que incluir nelas a ideia de paradoxo.

E agora, eu vou voltar, para vocês entenderem!

(virada de fita)


[…] que até então não tinha aparecido.

É possível que os estoicos, que a filosofia estoica, seja a responsável pela descoberta desse território. E esse território – que é descoberto pelos estoicos – vai ser re-descoberto (sem que eles conhecessem os estoicos) por lógicos do século XIV; e vai ser re-descoberto (sem que ele conhecesse os lógicos do século XIV ou a filosofia estoica) por um pensador magnífico – chamado Whitehead – no século XX. (Certo?)

E, então – novamente – nós estamos diante de uma matéria muito difícil! Não difícil em si mesma; mas em função da constituição da nossa subjetividade – que é organizada sob o regime e a lei do princípio de identidade e do princípio de não-contradição.

Então, sempre que o nosso pensamento – ou aquilo que nós chamamos de pensamento – se defronta com o paradoxo, o que classicamente se faz, é jogar o paradoxo para o fundo dos oceanos… à semelhança do que Platão queria fazer com os sofistas – porque os paradoxos seriam [recusados como] aquilo que impediria o pensamento de pensar. E os que [trilham] o caminho de pensamento por essa [outra] linha afirmam que o paradoxo – ao invés de ser aquilo que impede o pensamento de pensar – ele, o paradoxo – é a paixão do pensamento.

(Então, é essa entrada, é essa a divisória que nós vamos ter que fazer, que nós vamos acompanhar, lutar para compreender. Nós vamos usar pares… porque… – eu não sei se a minha pedagogia é boa. É uma invenção minha (não é?) Ela pode falhar! E na hora que ela falhar, vocês consertam…)

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Eu vou fazer o seguinte: eu vou colocar, de um lado, o individual, de outro, o singular. De um lado o empírico, de outro o transcendental. De um lado o presente, do outro o passado e o futuro. De um lado o corpo, de outro o incorporal.

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Bom, o incorporal e corpo: Essa noção de incorporal foi magnificamente trabalhada (essa informação é apenas para garantir teoricamente o que eu estou falando…) por um lógico do século passado chamado Meinong. Ele fez um trabalho excepcional sobre isso, e na obra dele fica claríssimo, mas claríssimo, que o nosso pensamento não tem que se submeter aos existentes – o nosso pensamento pode penetrar naquilo que não existe. Eu vou falar muito sobre o Meinong.

Quando a gente toma o primeiro contato com esse incorporal – fica muito difícil para nós entendermos. Eu vou tentar, durante umas duas ou três aulas, usar estratégias [pedagógicas] e depois disso eu sigo uma carreira acadêmica – eu acredito que então vocês já terão meios para [enfrentar] isso.

Eu vou dizer que todo corpo orgânico, ou seja: todo ser vivo seria um corpo orgânico; logo, estaria do lado do individual, do presente e do empírico (está claro, não é?) Todo ser vivo tem um comportamento (vamos anotar isso!) e ele, esse comportamento, se manifesta no meio em que o vivo está integrado. Ou seja: esse meio pode variar, mas o vivo tem sempre um comportamento integrado ao meio, que eu vou chamar de – meio geográfico ou meio histórico.

O indivíduo vivo está – necessariamente – integrado ao meio geográfico ou ao meio histórico onde ele se efetua, pelo seu comportamento. É o seu comportamento que efetua a sua existência. E as emoções e os sentimentos desse indivíduo vivo regulam ou desregulam o comportamento. Não tem nenhuma dificuldade no que eu estou dizendo! O indivíduo vivo e o meio geográfico: eu, no Rio de Janeiro, e o meu comportamento… E esse comportamento sendo regulado e desregulado pelas emoções e pelos sentimentos.

Então, pelo que eu falei para vocês, necessariamente, comportamento é corpo, emoção é corpo, sentimento é corpo. Por quê? Porque eu coloquei comportamento, emoção e sentimento do lado [esquerdo do quadro]. Tudo o que eu colocar do lado [esquerdo do quadro] é corpo. (Até aqui, é da maior facilidade!)

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Existe – na literatura, no cinema, na filosofia, na ciência, pouco importa o quê; vamos usar na ciência, para ficar mais claro – algo que se chama imagem-ação ou realismo. Então, imagem-ação e realismo vão para o lado [esquerdo do quadro], (certo?) O que nós chamamos de realismo é o indivíduo vivo, com um comportamento, regulado ou desregulado pelos sentimentos ou pelas emoções, num meio geográfico e histórico. Isso se chama ação: é o mundo da ação. É o mundo em que todos os indivíduos vivem. Eles agem e reagem dentro desse mundo. Então vamos ver uma coisa aqui:

O cinema se aproveitou disso – logo, se aproveitou do corpo, se aproveitou do indivíduo, se aproveitou do movimento que o indivíduo faz, se aproveitou das ações e das paixões dos indivíduos, das emoções, dos sentimentos, do comportamento – e constituiu um cinema chamado cinema realista, que é o cinema propriamente de Hollywood. O western é um exemplo disso. Seria o cinema ação. (Tá?)

– Quais os elementos que nós temos aqui?

Presente, Corpo, (Agora, já é uma massa, não é?) Indivíduo, Comportamento, Meio-Geográfico, Meio-Histórico, Ação, Sentimento, Emoção – já é uma massa, já é uma massa! Todos esses elementos pertencem ao que se chama – em Cinema, vamos botar assim: imagem-ação. Ao que pertence – não importa o quê – ao realismo. Tudo isso que está aqui [do lado esquerdo] é real.

Agora eu vou usar um nome para – como se fosse um carimbo: eu vou carimbar – pah! segundidade! É o termo de um filósofo chamado Peirce.

– O que o Peirce chama de segundidade? O Corpo, o Indivíduo, o Comportamento, o Meio-Geográfico, o Meio-Histórico, a Ação, a Reação, a Paixão, a Emoção (que beleza!) Tudo isso para ele receber esse nome – segundidade (tá?).

Agora, vamos passar para o [lado direito]: para o transcendental, para o incorporal… E aqui começa a ficar tudo difícil, porque – em primeiro lugar – o Incorporal não existe; logo, ele não é real! De maneira nenhuma ele pode ser chamado de real. E agora eu vou colocar uma palavra do lado do incorporal – e essa palavra vai dar problema, eu tenho certeza – eu vou colocá-la do lado do incorporal, ou seja, do lado daquilo que não existe – afeto.

Ou seja: o afeto ou os afetos não se confundem com sentimentos, emoções e comportamentos. Os afetos pertencem ao Incorporal. (Certo?) Nós vamos ter que descobrir nesta aula o que é afeto! Agora:

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Incorporal, Transcendental, Passado e Futuro – o Peirce vem com seu carimbo brilhante e pah! Primeiridade!

Aí, nós temos a primeiridade e a segundidade. A segundidade, nela vamos agora fazer uma espécie de pasta de colégio, e botar de um lado a pasta da segundidade e do outro lado a pasta da primeiridade. Nessa pasta da primeiridade é onde está o afeto, onde está o incorporal, o transcendental, etc. Quando o cinema quis mostrar a primeiridade, o que ele fez? Ele fez três práticas: o primeiro plano – que é a mostra dos afetos ou das singularidades. (Tá? Ninguém precisa ficar preocupado, que daqui a pouco eu vou explicar melhor)

Então, o primeiro plano é o lugar em que a singularidade ou o afeto – a primeiridade aparece. Mas a singularidade ou o afeto aparecem também no que se chamam sombras expressionistas. Então, primeiro plano, sombras expressionistas – e deixem passar essa palavra que eu vou dizer agora – espaços desconectados. Não importa isso daqui, o que importa é o seguinte:

Vamos pegar o que eu acabei de falar – de que lado eu coloquei a singularidade e o afeto?

Alunos: Do lado da primeiridade!

Claudio: E o primeiro plano? Também! Agora vamos fazer um exame aqui. Vamos examinar o rosto. Pode ser o meu mesmo: o meu rosto.

O rosto – qualquer rosto – é necessariamente socializante. O rosto tem que trazer marcas de socialização. É uma coisa muito fácil de entender, quando nós nos defrontamos, por exemplo, com o problema do mongolóide, que ele tem o rosto absolutamente igual, e você não pode fazer as caracterizações de socialização. Todo rosto traz com ele marcas socializantes.

De outro lado, todo rosto traz, com ele, as características comunicantes – os rostos servem para comunicar. Nada melhor do que ver os retratos dos políticos na hora das eleições: eles fazem tudo para comunicar alguma coisa. Eles [ostentam] um riso que vai até o nariz ou então um sorriso que cai de baixo do… – fazem qualquer coisa!

Então, o rosto tem duas características muito claras – socialização e comunicação. Mas há uma terceira mais poderosa. A mais poderosa chama-se individuação. Todo rosto é individuante. Calculem se o meu rosto revelasse o Chico, ao invés de mim! Meu rosto me individua.

Comunicação, socialização e individuação são características do rosto; logo, são características do corpo – pertencem à segundidade.

Quando nós passamos para o primeiro plano, ali nós não temos mais as características corporais. O rosto, no primeiro plano, perde essas três características – a socialização, a comunicação e a individuação – e se torna um pacote de afetos: um feixe afetivo; um pacote de sensações. (Certo?) Ou seja: nós começamos agora, – através da noção de rosto, da pura noção de rosto, da simples noção de rosto -, nós já podemos entender Cézanne, Paul Klee, Van Gogh…

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Vamos dizer que um girassol tivesse três características: comunicar, socializar e individuar menos o girassol de Van Gogh. Que são exatamente essas características que ele retira do seu objeto, para deixar com que aquilo que ele está pintando só expresse afetos. (Certo?)

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Então, o primeiro plano, no cinema, teria a capacidade estranhíssima – de des-individualizar, des-comunicalizar e des-socializar o rosto (e nós vamos ter que ver isso, nem que seja por projeção).

Dizem que, um dia, a Liv Ulman e a Ingrid Tulin estavam conversando e olhando um primeiro plano que supostamente uma delas teria feito, e a Liv Ulman disse:

– Olha você ali! E a Ingrid Tulin retrucou:

– Não, não sou eu não, é você!

Ela já não se reconhecia – não havia mais o processo de reconhecimento. Porque o rosto, o primeiro plano, teria passado para esse campo dos afetos. Mas, não seria somente com o primeiro plano que esses afetos e esses incorporais apareceriam. Haveria mais dois processos – que seriam as sombras expressionistas (depois eu vou mostrar!) e o que eu chamei de espaço desconectado.

Agora eu vou crescer, vou crescer:

Do lado do indivíduo, eu coloquei a existência do indivíduo orgânico, (não foi isso?) E esse indivíduo orgânico, com todas as suas características; e – seguindo Nietzsche – o organismo, ou melhor, o indivíduo tem como seu último órgão, como o mais aperfeiçoado dos seus órgãos, a consciência.

– De que lado está a consciência?

Do lado do corpo. A consciência é um órgão da segundidade.

Logo, eu vou colocar o inconsciente do lado do incorporal. E essa prática de colocar o inconsciente do lado do incorporal chama-se – tirar o inconsciente do modelo orgânico ou desumanizar o inconsciente. O inconsciente sai desse modelo orgânico, e passa para o outro lado. O inconsciente, então, passa a ser uma complexidade afetiva, uma complexidade temporal, (tempo, não é? passado e futuro) de singularidade, de esquartejamento, mas, ao mesmo tempo, esse inconsciente seria o responsável pela produção dos indivíduos corporais. Logo, o lado do incorporal passa a ser genético – passa a ser a gênese. Por isso, que eu comecei a aula dizendo que nesse modo de pensar você não pode se limitar a pensar apenas um dos domínios. O pensamento passa agora a ter duas partes – a parte incorporal e a parte corporal. Ou melhor: o pensamento passa a ter duas metades. (Foi bem, não é? Foi bem!)

Aluno: Você falou também que a ciência teria atualmente duas metades.

Claudio: Sim.

Aluno: Eu gostaria de alcançar um pouco mais.

Claudio: É, nós vamos alcançar isso. Nós vamos alcançar! Porque isso tudo que eu estou fazendo para vocês agora, depois eu entro numa série mais… com uma linha até mais nômade, mais abstrata… para mostrar isso para vocês. Deixem-me continuar… (certo?)

Vejam bem: o presente é a dimensão do tempo do lado da segundidade, não é? O presente é aquilo que tem limites. Por isso, todo indivíduo tem… limites. O presente traz o limite para os corpos, enquanto que o passado e o futuro é o ilimitado. Logo, pode-se dizer – numa outra linguagem – que quem está do lado da primeiridade está do lado do infinito; enquanto que, quem está do lado da segundidade está do lado do finito. (Ficou muito ruim aqui?)

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O infinito, do lado direito, na primeiridade – que é o ilimitado do passado e do futuro.

E o finito, do lado esquerdo, do presente – que é dos corpos.

Então, eu aqui já defino de forma definitiva: a ciência é sempre ciência dos corpos. Não quer dizer que ela não pense no infinito – depois eu mostro para vocês. Então, toda ciência é – necessariamente – finita. Enquanto que a arte e a filosofia são infinitas.

Então, a arte e a filosofia seriam infinitas – mantendo esses dois lados que eu coloquei.

Bom. No cinema, o lado do corpo, chama-se imagem-ação. E o lado do incorporal chama-se imagem-afecção.

PosterEu citaria [inclusive] um filme, cheio de Imagens Afecções, que passou há pouco tempo – Europa, de um diretor chamado Lars Von Trier, não sei se vocês viram. Ele é muito marcado por imagens afecções e inclusive as imagens do trem, no túnel. O que mostra – que os afetos – não são orgânicos. Eles – os afetos – independem de qualquer organismo. Os afetos são anteriores, ou melhor, todo o incorporal é anterior ao corpo.

Agora, vou lançar mais dois elementos do lado do corpo – uso e função. Então, por exemplo, eu filmo a Ponte Rio – Niterói, num plano fixo, não sei de onde, das barcas, por exemplo (não é?) E aí essa ponte aparece enquanto funcional, orgânica e com suas propriedades de uso. Ou seja: a maneira como eu a filmo, qualquer observador sabe que um carro pode transitar por ali. No entanto, se por acaso eu filmar um pedaço de ponte, depois outro pedaço de ponte, e amontoar esses pedaços, o que eu tiro desses pedaços de ponte é a função e o uso – é isso que se chama espaço desconectado.

Espaço desconectado é quando você retira do espaço esses dois [inaudível] função e uso.

(intervalo para café)

(Eu consegui dar essa aula sem AR NENHUM!)


[—] corpo, individual, etc., é onde estão a história e a narrativa. (Olha, cada elemento desses, que eu for dando para vocês, depois eu vou retornar, viu?)

A história e a narrativa pertencem à segundidade. Logo, tudo o que ocorre na segundidade tem uma história!? Ou melhor, os membros da segundidade têm uma história pessoal.

Quando eu falo do Cassavetes e do Godard e aponto os dois como sendo o cinema do corpo, o que eu estou chamando de corpo aí é o incorporal (viu?) – no Cassavetes e no Godard, utilizando uma categoria do Brecht, que se chama Gestus. Aqui vocês veriam dois encadeamentos: o encadeamento do mundo dos corpos, do mundo do indivíduo é sempre um encadeamento histórico. São procedimentos históricos que vão se encadeando. Enquanto que do lado do incorporal, do lado do Gestus, os encadeamentos são completamente diferentes, porque as personagens perdem a história pessoal. Elas vão romper com a história pessoal. Nós vamos ver isso para poder compreender.

(Bom. Eu estou inteiramente satisfeito com essa apresentação que eu fiz, eu acho que foi um sucesso… eu vou seguir com ela)

A gente pega um objeto, por exemplo: esse copo que está aqui, e nitidamente – é fácil de entender – que este objeto, o copo – que é um objeto técnico – tem um valor de uso. O valor de uso dele – pelo menos classicamente – é beber água, (não é?) Poderia ser “jogar na cabeça dos outros…”, não quer dizer nada – mas ele tem um valor de uso. E além do valor de uso, ele tem um valor de troca, porque você pode levar este copo para o mercado e trocá-lo por uma banana. Então, este objeto que está aqui, tem um valor de uso e um valor de troca nítidos, (não é?) Inteiramente nítidos. E, em terceiro lugar, ele é um signo, no sentido de que este objeto aqui foi dado por um amigo. Um amigo me deu este copo! Então, um dia qualquer, quando eu for beber água, eu pego o copo e em vez de me preocupar com o valor de uso ou com o valor de troca do copo, eu evoco o meu amigo. Essa evocação transforma o copo num signo. Então, o que a gente apreende aqui com a maior facilidade é que qualquer corpo pode ser valor de uso, valor de troca e pode ser signo. Indiferentemente, todos os corpos…

(virada de fita)


II –

[—] envolver todo o campo teórico e todo o campo das nossas vidas. Ou seja: não é que entender o nascimento do tempo signifique que a nossa vida irá mudar – não é exatamente isso! Mas, a partir do instante em que nós começarmos a nos interessar por [esse tema], e a verificar que os “modelos de subjetividade” que estão por aí não são absolutamente necessários… e que nós poderemos produzir outros tipos de subjetividade... Numa divisão como a que eu estou fazendo aqui nesta aula, de modo a seguir essa trilha que eu estou fazendo, eu colocaria do lado da segundidade uma subjetividade material; e do lado da primeiridade, uma subjetividade espiritual.

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É um momento difícil, é uma exposição cruel, (não é?) porque ela quebra tudo aquilo que vocês fizeram hoje, (não é?) tudo aquilo que vocês vão fazer depois desta aula… É como se nós entrássemos num reino de ficção científica; habitássemos aquele reino de ficção científica; e depois fechássemos a porta dele e voltássemos para a nossa vidinha miserável!

Então, essa primeira entrada no que eu vou passar a chamar de sínteses do tempo, eu vou utilizar – fortuitamente – um filósofo de língua inglesa do século XVIII chamado – Hume. Vamos tentar compreender a primeira entrada nisso daqui, que ao fazer essa explicação, eu vou fazer a mesma oposição – colocar um do lado da primeiridade; e o outro do lado da segundidade.

Uma ideia, que já é grega: a ideia de instante.

Instante é a ideia de menor quantidade de tempo. Da mesma forma que segundo é a menor quantidade de tempo do relógio; o instante é a menor quantidade de tempo em termos metafísicos. Então, o tempo teria a sua unidade mínima, que seria o instante. Mas acontece que um instante traria com ele uma lei – a Lei da Descontinuidade.

– O que é a lei da descontinuidade? É que um instante está sempre separado de outro instante. Eles são descontínuos; eles não aparecem juntos – aparecem separados. Por isso, o instante é regido por essa lei da descontinuidade.

Toda a questão do nascimento do tempo se dará (e eu já fiz isso na primeira aula com vocês) pela tentativa de tornar os instantes contínuos – o que se chama síntese passiva.

Se eu digo para vocês que os instantes são descontínuos… e se essa descontinuidade dos instantes é anterior ao nascimento do tempo… isso aqui fica complicado; complicado eu dizer que a descontinuidade dos instantes é anterior ao nascimento do tempo! Eu, então, vou introduzir a ideia de tempo – que é uma ideia arbitrária; mas [que] eu vou introduzir como sendo a uma pequena ou grande duração. Ou seja: o que se chama tempo é um conjunto de instantes. Mas esses instantes – no tempo – não seriam descontínuos; estariam juntos!

Então, o tempo suporia um processo que transformaria a descontinuidade dos instantes em continuidade. A descontinuidade dos instantes em duração ou em pequena extensão. Para isso, para que haja esse processo da passagem da descontinuidade dos instantes para uma continuidade – que seria a duração – o intermédio, o ser para executar isso se chama – alma. Ou melhor: o ser que vai executar isso se chama contemplação. Ou melhor: o ser que vai executar isso se chama contemplação contraente.

Então, instantes separados, descontínuos; depois, instantes juntos, contínuos. Entre os dois, o que eu chamei de – contemplação contraente. (Vamos tentar então isso!)

– O que é contemplação contraente.?

Um filósofo chamado Hume – como eu falei para vocês – constituiu uma tese excepcional, em que ele fala de uma – imaginação contraente

(Vamos tentar compreender aqui, sem o menor problema, porque nas próximas aulas isso tudo vai se resolver, viu?)

Existe uma noção do ser vivo que se chama faculdade – por exemplo: a inteligência, a memória, a linguagem, a percepção, são chamadas faculdades.

As faculdades são forças ativas dos seres vivos. A imaginação, por exemplo, é considerada uma faculdade do sujeito humano. Logo, a imaginação seria uma atividade exercida pelo sujeito vivo. Porque toda faculdade é o exercício que o sujeito vivo faz dela, exercendo, com ela, determinadas práticas.

Hume vai afirmar que a imaginação não é uma faculdade! Então, sempre que pensamos nessa ideia de imaginação – para nós, a imaginação é uma faculdade: [em virtude d]a capacidade que ela, a imaginação, tem de ligar imagens. Hume diz: não! A imaginação é apenas o nome de um lugar qualquer em que as imagens se juntam e se separam.

Ou seja: o que Hume está dizendo é que – na natureza – existe um processo que não é produzido pela imaginação – que é o processo das imagens se juntarem e se separarem, independentemente de qualquer força que as junte ou as separe.

O que ele está dizendo – é muito fácil para se compreender – é que as imagens têm um poder plástico assustador: qualquer imagem pode se misturar com qualquer imagem! Nada impede que uma imagem se misture com outra. Logo – no universo das imagens – existe o que se chama trânsito livre: não há lei regulando a trajetória das imagens.

Por exemplo: se, neste instante, eu quiser fazer esta garrafa com a cara do Sarney, é imediato, imediato – puh – aparece! Por quê? Porque as imagens têm esse processo de se associarem com as outras imagens. É um procedimento das próprias imagens associarem-se umas com as outras. Por isso, o Hume vai dizer que a imaginação não é uma faculdade ativa. A imaginação é o lugar onde se dá a associação das imagens. Nada mais do que isso. Ela é apenas o lugar em que essa associação vai se dar.

Então, nós podemos dizer que esse universo possui um lugar onde as imagens se combinam livremente qualquer imagem se combina com qualquer imagem – livremente! Vocês podem fazer essa experimentação no que se chama hipnagogia – que é um estado – quando nós estamos entre a vigília e o sono – em que as imagens começam a passar por nós, e nós não temos poder sobre elas. E elas vão se misturando umas com as outras inteiramente livres.

Então: se as imagens podem se misturar umas com as outras livremente, significa que este universo é percorrido por um enorme delírio. Ou seja: há um enorme delírio percorrendo este universo!

Qual delírio?

O delírio da combinação livre das imagens. Então, é daí que nascem os centauros, os cavalos alados, os dragões de fogo, as sereias… exatamente dessa combinação livre de imagens. (Vocês entenderam aqui?)

Agora, diz o Hume: aqui vem um momento muito difícil, muito difícil: um momento essencial de compreensão. Essas imagens se originam em impressões. Ou seja: a natureza – a única coisa que a natureza envia são impressões. Mas essas impressões que são – por exemplo – a impressão do azul daquele vestido. Eu fecho os olhos e faço uma imagem daquele azul. A imagem se difere da impressão em força. As impressões são fortes, as imagens são fracas.

Então, o Hume diz que a natureza é constituída de impressões; e essas imagens são o espírito. Logo, o espírito ou como diz o Hume: o fundo do espírito é delírio. Ou seja: o fundo do espírito de cada um de nós é esse delírio das imagens. Delírio insuperável – ou seja: necessariamente esse delírio está presente no momento em que o espírito se constitui. Porque o espírito se constitui por um conjunto de imagens. Conjunto de imagens esse que não é regido por nenhuma lei. Ou seja: as imagens se combinam livre e francamente.

Ora: esse é o fundo do espírito! Todo e qualquer espírito, diz o Hume, é absolutamente idêntico ao conjunto de imagens que o constitui. Ou seja: não diferença entre o espírito e o conjunto de imagens em termos delirantes – isso é o espírito para ele. Mas acontece que essas imagens se originam das impressões. Ou seja: a impressão do azul provoca a imagem do azul. Todas as imagens que aparecem, se originam nas impressões – o que mostra que o espírito é um produto da Natureza. O espírito não é filho de Deus: ele é filho da Natureza. Porque o espírito são as impressões enfraquecidas. Isso que é o espírito. Então, o espírito – não ele, mas as imagens que o percorrem; logo, ele – porque ele não é nada mais do que as imagens que o percorrem – tem a capacidade, as imagens têm a capacidade, de se fundirem uma na outra. Isso é uma coisa notável! Porque – na natureza – as impressões não se fundem uma na outra: elas estão separadas!

Eu vou passar para o Bergson e eu vou pedir que vocês utilizem aqui essa expressão que eu vou usar… é… No espírito existe uma interpenetração de fusão! Ou seja: há uma fusão entre as imagens: elas se inter penetram; enquanto que – na natureza – elas estão separadas.

Vamos de outra forma:

Na natureza – elas são descontínuas;

No espírito – elas são contínuas.

Há uma fusão no espírito e uma descontinuidade na natureza.

(Está difícil demais ?)

Coloquem assim:

Duas multiplicidades: a multiplicidade da natureza é descontínua; e a multiplicidade contínua ou de interpenetração do espírito. O espírito é onde tudo se interpenetra.

Aluna: Esse é o território do espírito?

Claudio: Esse é o espírito! O espírito é o território da interpenetração; é o território da fusão; é o território em que – quando dois elementos se fundem – outra natureza aparece. Então, o espírito é aquilo que não para de mudar de natureza.

Bom. Com essa interpenetração, o espírito tem uma diferença com relação à natureza: a diferença entre eles é que os elementos – que são as impressões – estão separados na natureza e no espírito estão juntos. Ou seja: o que estão separados na natureza – são os instantes; o que estão juntos no espírito – são os instantes. Então, esses instantes – quando se juntam – chamam-se síntese.

Síntese quer dizer – juntar aquilo que estava separado. É o oposto de análise. Quer dizer: a síntese dá-se no espírito.

– Mas dá-se no espírito, porque o espírito produz isso – ou são os elementos do espírito que são assim? São os elementos que são assim. Por isso, chama-se síntese passiva.

Essa síntese passiva é a invenção do tempo.

O que eu coloquei para vocês, é um momento muito difícil; mas, nós já temos um caminho. O nosso caminho é a imaginação contraente do Hume.

– Por que contraente?

Porque ela contrai uma imagem na outra! É o poder de contração que ela tem.

Então, o que marca o espírito é contemplar e contrair – é contemplação e contração. É a marca do espírito.

O “elemento básico” dessa exposição que eu fiz para vocês é lembrar-se que as imagens não se interpretam uma na outra porque uma imaginação lhes determina – elas se interpenetram porque é do ser delas se interpenetrarem. É do ser delas! Então, essa interpenetração provoca um diferencial em relação à natureza: enquanto na natureza existem as impressões separadas – no espírito existem as impressões transformadas em imagens interpenetradas. Então, nasceu aqui o que eu vou passar a chamar de multiplicidade de interpenetração.

– O que é uma multiplicidade de interpenetração?

É exatamente a multiplicidade subjetiva, [ou] espiritual – enquanto que a multiplicidade física é uma multiplicidade que não se interpenetra.

Então, eu vou dizer para vocês – em outra linguagem – que na multiplicidade física, você pode aplicar números inteiros – 1,2,3,4,5,6; enquanto que isso não é possível, ou melhor, você não pode aplicar esses números inteiros na multiplicidade de interpenetração.

– Por quê? Porque, nessa multiplicidade, no momento em que dois elementos se interpenetram, aparece um terceiro elemento.

O nascimento do tempo – a tradição filosófica para a compreensão do nascimento do tempo fora da linha platônico-aristotélica – pressupõe (o Hume usou a palavra imaginação, eu vou usar a palavra espírito) um espírito que contempla e que contrai. (Eu vou dar isso para vocês na próxima aula!)

– Contempla, o quê? O que esse espírito contempla? Ele contempla os elementos com os quais ele é constituído.

– De que é constituído o espírito?

O espírito é constituído dessas imagens! E são essas imagens que ele contempla – e, ao contemplar, ele contrai. (Não sei se vocês entenderam bem…)

Aluna: Como se esse espírito contemplasse a natureza?

Claudio: Ele contempla as próprias imagens, é isso que ele contempla. Ele se contempla: ele se auto-contempla. Mas ao se contemplar – ele contrai: ele produz a contração. Eu vou passar a chamar [esse processo] daqui de narcisismo formal. ( Tudo isso eu vou tentar explicar na próxima aula!)

O que apareceu aqui foi uma noção de contemplação, que não é uma contemplação à distância – é uma contemplação próxima. Ou seja: você contempla os elementos com os quais você se constitui. E ao contemplar esses elementos que te constituem – você os contrai. E, ao contraí-los, você introduz o tempo. Ou seja – muito difícil o que eu vou dizer! – no momento em que esse procedimento se dá, vai nascer o corpo orgânico.

O corpo orgânico é um resultado da contemplação contraente. O corpo orgânico vem como resultado…

Não faz mal que tenha sido muito difícil isso hoje. Não faz mal! Eu acredito que mantendo a linha que eu coloquei na primeira parte da aula – e agora eu vou dizer que a contemplação contraente é um processo que se dá do lado direito da linha… Que essa contemplação contraente é o procedimento do nascimento do tempo… Ou seja, a pergunta é essa:

– Como a vida apareceu no planeta? O que é – exatamente a vida? A qual linha a vida que nós conhecemos pertence – ao incorporal ou ao corporal? Ao corporal! A vida que nós conhecemos é orgânica. Mas eu estou mostrando para vocês que existe uma potência não-orgânica – que é a geradora da vida. Essa potência não-orgânica chama-se espírito contemplante e contraente. Ela é não-orgânica e gera a vida. (Vamos voltar!)

(Poderia arranjar um café para mim?)

Aluno: Claudio, o que o espírito contempla são as impressões da natureza?

Claudio: As impressões da natureza! Mas o ato de ele contemplar torna essas impressões imagens. E as imagens se interpenetram. Por isso, o espírito contemplando, contrai. O processo é esse!

(Bem, na próxima aula a gente organiza mais isso daqui. Foi bom para alguns, eu sei que foi bom para alguns! Essas noções finais, que eu estou passando, já é um preparativo para a próxima aula)

Eu estou tentando colocar para vocês duas noções dificílimas: contemplação e contração. Eu já falei sobre contemplação: falei sobre contemplação científica, templária e filosófica, lembram-se? Essas três contemplações são humanas! Essa contemplação contraente não é humana. Ela não é humana!

Aluno: É anterior?!

Claudio: Ela é anterior! Ela é a gênese do orgânico. Nós estamos na trilha: necessariamente nós vamos alcançar! [Essa contemplação] é a gênese do orgânico.

– Quer ver uma coisa interessante? Essa contemplação contraente chama-se síntese passiva. Ela gera o organismo, ela produz o organismo. Ela é uma coisa; o organismo é outra – são duas coisas diferentes! Ela é a gênese e a força da vida. E o organismo – é a vida aparecendo no mundo! Quando vocês pegam um pensador de teatro – Samuel Beckett, por exemplo. Samuel Beckett é um pensador do corpo? Mas só que do corpo incorporal. Só que do corpo da síntese passiva. Do corpo da contemplação contraente. O que nos confunde, o que nos leva quase à loucura, quando nós nos encontramos com a arte moderna – não importa se na literatura, na pintura ou no cinema – é que esses grandes artistas estão lidando com o incorporal, com a síntese passiva, com a contemplação contraente... Então, nós – que carregamos os nossos hábitos e o nosso senso comum, que só pressupõem a presença do corpo orgânico – quando lidamos com [o incorporal], não entendemos. (Certo?) É a dificuldade de entendimento [originária n]aquilo que eu chamei do domínio – emnós – da subjetividade material.

Então, eu vou pedir a vocês que, a partir de hoje, a gente faça mais uma separação: subjetividade material e subjetividade espiritual.

(eu estou com muito pouca respiração!)

A subjetividade material – não tem como caminhar agora… – essa subjetividade material é a subjetividade do realismo.

Eu vou parar aqui um instante, (viu?) E vou dar uma marca final nesta aula.

– Todo mundo conhece ou já ouviu falar no Naturalismo? Por exemplo, no Brasil, quem é o naturalista? Aluísio de Azevedo – O Cortiço? E na França? Èmile Zola, (não é?) O Naturalismo não será algo oposto ao Realismo. O Realismo é tudo o que eu falei… corpo, organismo… tudo o que eu falei.

O Naturalismo vai realçar o organismo, ele vai realçar o organismo ou o Naturalismo – que eu estou citando, porque ele é o instrumento que eu vou ter para nós obtermos compreensão. O Naturalismo estaria entre esse incorporal e o corpo orgânico. Então, para nós começarmos a fazer um trabalho para entender o que eu estou falando, eu pediria que vocês assistissem filmes do [Joseph] Losey e do Buñuel para entenderem a imagem Naturalista; para entrarem em contato com a imagem Naturalista.

Aluna: Mas o Buñuel é surrealista, não é bem naturalista!?

Claudio: Não toda a história do cinema dele, viu? Mas grande parte do cinema dele está dentro dessa linha que eu estou colocando aqui.

O que eu estou fazendo com vocês é o seguinte: eu dividi, na primeira parte da aula, Corpo e Incorporal, Individual e Singular, Orgânico e…etc. A linha que divide, eu passo a chamá-la de imagem-pulsão.

Então, Imagem-Ação, Imagem-Pulsão e Imagem-Afecção. Três imagens!

– Por que eu estou chamando a atenção dessa Imagem-Pulsão?

Porque ela vai ser um instrumento muito poderoso para nós compreendermos as outras duas. Por exemplo: há um filme do Dirk Bogarde, chama-se – O Criado. Se vocês virem, vocês vão ver: é uma coisa inacreditável! Num determinado momento do filme o Dirk Bogard se transforma num predador. Ele já não é mais um homem! Ele abandona o sentimento, o comportamento, o meio geográfico – ele abandona tudo! – e se torna um predador. Então, é importante que a gente entre nesse tipo de compreensão – o que é o cinema pulsão! – para distinguir com mais clareza o Incorporal e o Corporal.

Eu estou um pouco sem ar.

Alunos: Já tem duas horas!

Claudio: Tá? Já tem duas horas, eu estou um pouco sem ar, eu gostaria de continuar um pouco mais nas sínteses, mas não dá mais. Então, eu peço desculpas a vocês…

Alunos: Não, foi bom demais!

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Aula de 12/04/1989 – Acontecimento e sentido

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados no capítulo 7 (Cisão Causal) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


Lado A

A intenção, nesta aula, é mostrar para vocês os filósofos antiplatônicos. Inicialmente apenas duas filosofias da Grécia – Epicuro/Lucrécio, e os estoicos. O objetivo seriam esses dois, (certo?). Agora, eu tenho que levá-los a entender o problema. A minha questão, a questão que eu considero a principal – é sempre o problema entendido. Aí fica muito fácil de trabalhar.

Eu vou começar a mostrar a questão para vocês. [Para atingi-la], [no entanto], eu posso utilizar outros filósofos. Meu problema não é o filósofo… Meu problema é o problema. É essa a minha questão. Eu posso usar qualquer coisa – indiferentemente – desde que aquilo sirva. É uma prática importante no pensamento: a gente utiliza alguma coisa, a partir de que aquilo sirva. Depois, se não servir mais, joga-se fora – é um descartável! É exatamente o pensamento descartável.

Eu vou começar devagar porque provavelmente vai chegar mais gente. E chegando mais gente, não vai entender o que eu estou falando. Aí morre tudo, não tem jeito – não chegou no começo, não entende.

Primeira questão. Uma questão muito fácil. Nós usamos as palavras para falar. Usamo-las para nos comunicar. Mas cada palavra é dotada de muitos significados. Uma palavra não tem um único significado. Isso se chama equivocidade – a palavra é equívoca. Significa que ela teria, com ela, diversos significados – dependendo da maneira como você a usa. [Usada] de uma maneira – ela significa uma coisa. [Usada] de outra maneira – ela significa outra.

A palavra está articulada com o contexto e [é] por causa disso [que] ela é equívoca. Dizem os aristotélicos que ser inteiramente equívoca – é da essência da linguagem Por [isso], [quando] fazemos uma prática de comunicacação, para podermos nos entender uns com os outros ao longo de uma conversa, procuramos manter o mesmo significado [de uma] palavra que está sendo usada. Senão, correremos o perigo de dizer a palavra em determinado momento, e dali a pouco repeti-la com outro significado – e o interlocutor não entende. (Certo?) Devido à equivocidade das palavras – portanto – nós procuramos manter uma palavra repetida – na seqüência de um raciocínio – com o mesmo significado. É uma prática para evitar confusão. Há um exemplo muito claro disso na obra do Aristóteles.

Aristóteles concorda que as palavras sejam equívocas; logo, que tenham muitos significados. Mas diz que o raciocínio científico não poderia se processar se utilizasse palavras equívocas. Se eu construir um silogismo [do tipo] “Todo homem é mortal“; “Sócrates é homem” (etc.)… E o homem de “todo homem é mortal” tiver um significado… [diferente] do homem de “Sócrates é homem” – [essa diferença de significação] produzirá, de imediato, um desentendimento. [Daí], no decorrer de um raciocínio, [ser necessário] manter um mesmo significado. (Acho que todo mundo entendeu isso, não é?) [Manter] o mesmo significado – é o que permite a você ouvir tranqüilamente aquilo que está sendo dito. (Acho que está bem claro o que eu disse, não está?)

Em segundo lugar. Você pega Freud, por exemplo – ele tem uma obra. Pega o Marx – ele tem uma obra. Pega um cientísta qualquer – ele tem uma obra. Agora, as obras, quando são feitas – por exemplo, a obra do Marx; por exemplo, a obra do Freud – vão, ao longo da sua existência, se articular com diversos pensadores. Freud – por exemplo – se articula com um psicanalista francês, com a psicanálise inglesa e com a psicanálise americana… Cada um desses pensadores faz uma articulação diferente com a obra do Freud. O que implica em dizer, que a gente só pode entender uma obra, não naquilo que ela é – mas no seu devir. Ou seja – no processo da obra. Nos agenciamentos que a obra faz. Uma mesma ideia, na obra do Freud, vai ser [diferentemente] apreendida pela psicanálise inglesa e pela psicanálise americana. Então, nós não entendemos uma obra pelo que ela é – mas pelo seu devir.

O que quer dizer devir? Os agenciamentos que a obra faz. (Ficou claro isso?) Os agenciamentos que a obra faz com diferentes pensamentos. O que mostra que uma ideia da pasicanálise ou uma ideia da obra do Freud só pode ser entendida [conforme] a composição que ela fizer. Ela faz uma composição aqui, faz uma composição lá! Não adianta querer entender a obra nela mesma. Entende-se [uma obra] em suas composições. Isso se chama – o devir da obra.

Vocês pegam o Marx, por exemplo, e vocês sabem as diversas composições que a obra de Marx fez na história – Lukács, Althusser, Gramsci… e vai embora… – cada um faz uma articulação com ela. E eu estou dizendo que a obra não é A obra. A obra é o devir obra. Devir obra – são as composições. (Vocês entenderam bem?)

Essa segunda ideia se opõe à primeira. Porque na primeira eu coloquei a existência de uma ideia que não muda pelas composições. (Foi assim que eu coloquei.) A ideia de homem é a mesma em “todo homem é mortal” e em “Sócrates é homem“. Na segunda posição, eu coloquei as composições das ideias. Então, nós teríamos a noção de que uma ideia [pode ser] compreend[ida] pelo que ela é; e [outra] noção de que uma ideia [pode ser] compreend[ida] pelas composições que ela faz. (Como é que foi isso daqui?) Compreender [uma ideia] pelas composições que ela faz… Isso é o movimento do pensamento – você não tem uma ideia em si mesma. Você só pode compreender a ideia através [dos] tipos de composição ela fez. (Eu gostaria que vocês me dissessem se vocês entenderam.)

Vou dar um exemplo concreto: eu pego a ideia de cavalo. Porque cavalo é um ser real – de quatro patas, de dois olhos, que anda pelo mundo. Mas além de ser real – ele é uma ideia no meu pensamento. Eu posso ter a ideia de cavalo. Na hora em que eu penso “um cavalo puxando carroça” – eu faço um agenciamento da ideia de cavalo com a ideia de carroça. Na hora em que eu penso “um cavalo correndo no Jóquei Clube” – eu faço um agenciamento da ideia de cavalo com o Jóquei Clube – e produzo dois cavalos diferentes... porque a ideia se compôs – composição da ideia.

A ideia é aquilo que só pode ser pensado nas suas composições. [Segundo o] que eu disse… – o que é a criança? Ou, de outro modo – o que é a ideia de criança? Você só pode responder, dizendo que [tipos de] composição ela está fazendo. E aí vocês investigam a história e [verificam] que a ideia de criança, quando se conjuga com alguma outra ideia no século XVII, dá um tipo de criança diferente da criança moderna – porque são outros tipos de composição. Então, é pelas composições que nós vamos entender qualquer coisa. [E] isso é um modelo de pensamento.

Então eu vou reforçar mais uma vez: não estou pensando a ideia em si mesma. Ideia em si mesma tem um sinônimo – essência. A famosa palavra essência quer dizer – uma ideia em si mesma. Eu estou pensando as ideias – em composição. (Como é que você achou, O...?)

O que é a criança? Mais ou menos isso – “Diga-me com quem andas e eu te direi quem és“; diga-me com que ideia [alguma coisa] [se] compôs – e você passa a entender o que é aquilo. (Eu vou dar por entendido!)

Em segundo lugar. Ainda que uma ideia só possa ser entendida pela composição, ainda assim, uma ideia traz as suas forças próprias. O que eu quero dizer é [que] o cavalo se entende pelas composições que ele faz. [Se] ele faz duas composições diferentes -composição com a carroça e composição com o Jóquei – são dois cavalos. Mas o ser do cavalo traz as mesmas forças – a ideia traz as mesmas forças, em composições diferentes. Este maço de cigarros, por exemplo, está agenciado com a mesa. Eu [o] jogo na água… – ele [passa a se agenciar] com a água. Mas o ser deste maço de cigarro é o mesmo [nesses] diferentes agenciamentos. (Eu não sei se foi bem assim.) É o mesmo ser – em agenciamentos diferentes, (certo?) Não importa qual seja o agenciamento – o ser é o mesmo. Mas são os agenciamentos que vão fazer a diferença. (Eu vou esperar para ver se entenderam. O que você achou, A...?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: O que eu estou dizendo, é o que está sendo passado nesta aula. Quando você pega a obra do Platão e do Aristóteles – a essência de um ser é o significado daquele ser, (certo?) O significado daquele ser é a essência do ser. E aquele significado não pode mudar, porque se o significado mudar – muda a essência do ser… Porque a essência é o significado. Na [outra] tese que eu estou passando, a essência de um ser não é o significado – é a potência daquele ser.

Aluno: [inaudível] a ideia de movimento.

Claudio: Sim, e daí, A..., a ideia de movimento? Olha, não faz assim, A..., que assim você se complica! É a coisa mais simples! A essência pensada por Platão e Aristóteles é o significado. O Lucrécio e os estoicos estão pensando essência = potência. Então para eles…

Qualquer coisa para o Lucrécio tem uma essência? Tem! Este maço de cigarro tem uma essência? Tem! Qual a essência dele? A [sua] potência! Ele tem um significado? Não! Ele vai ter significado através do agenciamento. O significado é um efeito das potências: não é originário – é secundário.

(A.…, vou repetir – para você pegar bem. Porque, talvez, muitos [dos] problemas que você tem em relação a esse tipo de filosofia – essas questões, marcas, signos, etc.- essas coisas que aparecem – você venha a resolver aqui. Veja o que eu estou dizendo:) Todo ser tem, o quê? Tem potência! Mas não tem, o quê? Significado! Ele não tem siginificado – ele tem potência. Agora, quando a potência de um ser entra em contato com a potência de outro ser, há um efeito – o efeito é o significado. (Entenderam? Vou tentar para ver se vocês entenderam mesmo,viu?)

Quem é que trabalha com potência, quem é que trabalha com significado?

Quem trabalha com significado é a linguagem; quem trabalha com potência é a física. Então, o campo do significado – logo, o campo dos efeitos das potências – é a linguagem. [Que] trabalha nele. Agora – a potência é o campo da física. (Vocês entenderam? Vocês têm que me dizer – porque nós estamos passando para uma fase muito bonita, muito bonita!) Quem é que trabalha com o significado? É a linguagem! Mas os significado é alguma coisa que pertence ao ser? Não! O ser não tem significado – tem potência. Então, a potência de um ser e a potência de outro ser se encontram… – e produzem um significado. Então, olhem o que aconteceu aqui. Eu não estou falando que a potência de um ser e a potência de um outro geram um efeito? O efeito é o significado. Mas eu não falei da potência dos dois seres? Logo, eu falei na potência de dois seres! O que implica em dizer, que aqui estão passando duas semióticas – uma semiótica da potência e uma semiótica do significado. (Vamos voltar outra vez. Vamos voltar outra vez. Vamos retornar. Vamos fazer uma elaboração, porque aí as coisas ficam muito claras!)

O que é uma essência para Platão? Para Platão a essência é o significado. E a essência para os estoicos? É uma potência. Logo, tem uma distinção rápida aqui. Rápida. A essência, para o Platão, é campo lógico e campo da linguagem. A essência, para os estoicos, é campo da física – porque fala em potência, em força…. então é física. Ambos trabalham em essência, mas para um, que são os estoicos – a essência é campo de força. Para o outro, que é o Platão, a essência é da ordem linguística – é campo do significado. (Entendeu, A...?)

Agora – os estoicos também vão falar em significado. O significado para eles é apenas um efeito do campo das potências. O significado pressupõe a composição das potências -cavalo com carroça, por exemplo. Aí produz o significado. O significado não é originário – é secundário. (Entendeu, A...?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: O que você tem aqui é o mundo dividido em duas metades. A metade do significado e a metade das potências. Você tem dois mundos aqui – da potência e do significado. O campo da potência e o campo dos significados – dois mundos! (Não sei se vocês já conseguiram entender, não sei. Olha, eu estou com todas as disposições para vocês perguntarem… Porque tem muita informação para eu dar, então precisa me avisar se houve domínio. A..., vou visar você:)

Diferença da essência dos estoicos para a essência do Aristóteles e do Platão – Platão e Aristóteles – ambos – chamam a essência de… significado. [Enquanto que] os estoicos chamam a essência de… potência. Pronto!

Agora – há um campo do significado nos estoicos? Há! Esse campo do significado dos estoicos não é um campo de forças – é um efeito. Um efeito das potências. (Daí emerge uma questão, que eu tenho que ver se vocês entenderam, senão [será preciso] retornar.)

Eu estou falando do campo das potências? Estou falando do campo dos significados? Então. Eu disse para vocês que o campo das potências não era da ordem da linguagem… (Vamos voltar novamente. Vamos ver se vocês dão conta e vocês me avisam: Óh, dei conta! – Eu sei que alguns já deram conta.)

É só uma mudança de nomenclatura. Mudança na ideia de essência. Ideia de essência em Platão = significado. Ideia de essência nos estoicos = potência. Na aula passada, eu falei que a essência nos estoicos é um germe que visa a expansão. Isso que é a essência deles – um germe expansivo. Enquanto que a essência em Platão é campo do significado. (Tá certo?)

Agora, para os estoicos, existe o campo do significado, mas o campo do significado não é o campo das potências. É um efeito das potências. Na linguagem estoica, o campo das potências [é] o campo dos corpos; o campo do significado [é] o campo do acontecimento. Então, são dois mundos para os estoicos. O dos corpos – [é] a física. E o dos acontecimentos – [é] a lógica. (Como é que foi? Eu ainda não estou satisfeito, viu? Não estou. Ainda não foi, não é? Não foi. Ainda não foi. Só há como ir se vocês me perguntarem… porque eu não fico sabendo onde é que não está indo.)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, não A... Vamos primeiro entender o que é isso que eu estou dizendo. Por exemplo – eu sou um corpo? Qual é a essência do meu corpo? Potência! A essência do meu corpo é potência… Meu corpo tem algum significado? Não! Ele não tem significado. Ele tem potência. É isso que ele tem. Agora, quando o meu corpo se encontra com outro corpo, ele produz – junto com o outro corpo – um efeito. O efeito não é potência. É significado.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Se esses corpos são os poderes?? São!!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Exatamente, exatamente. Só que a resposta foi só para você, não é? Os outros não vão entender. Fala, A.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, A... Você não pode falar em nenhum corpo que não esteja conjugado com outro corpo – eu expliquei isto na aula passada. Um corpo é sempre uma conjugação com outro corpo. É sempre uma conjugação de potências. Sempre que você encontrar um corpo, ele está conjugado com outro corpo. Então – necessariamente – aparece o campo do significado. Porque o campo do significado é um efeito da composição das potências. Então, aparece o campo do significado. Mas o campo do significado não é potência. É, apenas, efeito da potência. (Eu não sei mais como eu falo, ouviu? Sinceramente, eu já não sei mais. Só se vocês fizerem perguntas, aí eu quebro o galho. Agora eu já me repeti… Aliás isso ocorre! É muito interessante que o Gilles Deleuze, quando escreve a “Lógica do sentido“, repete uma mesma coisa umas 35 vezes até que ele diz: Bom, eu não tenho mais nada a dizer! Ele repetiu 35 vezes aquilo. O Deleuze…)

(Não há mais o que falar… – a não ser que vocês perguntem. eu dou derivadas. Bom, vamos lá.)

Aluno: [alguém afirma que já está claro]

Claudio: Não para todos. Não para todos. Para ela não está.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É! A lei de um corpo.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Sim, Heidegger. Poderia chamar diferencial, a diferença ontológica, será que é isso? Provavelmente é. É o campo da diferença. Que esses corpos quando se encontram… eles produzem um efeito – esse efeito é o campo do significado. O campo do significado. Eu vou tentar melhorar tua pergunta.

(Bom, vamos pegar assim… Agora, prestem atenção ao que eu falei.) Olhem o que eu falei: Eu falei… quando nós usamos a linguagem – e nós não paramos de usar a linguagem – qual é a função que nós [exercemos] quando a usamos? É para produzir, o quê? Significados!! Todo mundo usa a linguagem para produzir significados! É nítido, é facílimo entender isso. Todos nós estamos usando a linguagem, produzindo significados… ainda que a palavra significado possa ser uma palavra muito geral. Mas é evidente que se eu chego para você e digo assim: bláblábláblá. Você diz – não entendi, porque não tem significado! A linguagem está sempre articulada com essa questão do significado. Então, é evidente que a linguagem está articulada com o efeito do campo das potências. (Entenderam, ou não?)

Mas aparece um problema. Por que aparece um problema? Porque eu falei dos corpos!!! Eu falei da potência, falei dos corpos, mas disse que o campo das potências não é o campo do significado. Eu estou usando a linguagem para falar de alguma coisa que não é do reino do significado. (Não sei se vocês entenderam!) Eu estou usando a própria linguagem para falar de algo que não é do reino do significado… Então, complica! Complica! Se a linguagem tem a função de falar do significado… e nós usamos a linguagem para falar de alguma coisa que não é do reino do significado, pois a linguagem fala dos corpos…. Então ou a linguagem não poderia falar daquilo, ou não poderia existir na hitória o que se chama semiótica… [trecho duvidoso… defeito na fita]

O que é semiótica? É a ciência dos signos. E a semiótica que fala dos efeitos é uma semiótica do significado; a semiótica que fala dos corpos é uma semiótica energética. Apareceu alguma coisa nova – uma semiótica que não trabalharia com o campo da significação. (Eu não sei se foi bem aqui, se deu para entender…) Imediatamente alguma coisa de nova apareceu. Ou seja: nós temos uma ilusão de que a semiótica é sempre uma semiótica da significação. Mas, por este exemplo que eu estou passando para vocês, a semiótica não precisa ser somente da significação. No caso, ela também pode ser uma semiótica energética. (Agora vamos ver se passou! Não, eu acho que não, que eu fracassei. Devido ao meu fracasso, eu peço a alguém para me dar um café.)

(Vamos tentar um exemplo miserável. Da ordem da miséria total: para vocês entenderem.)

Qual o significado, digamos, do amor? Então, eu daria essa prova para vocês. E aí, cada um de vocês iria escrever o significado do amor. Viriam provas lindíssimas, (não é?). Eu ficaria aqui deslumbrado! Coisas lindíssimas!! Ai eu perguntaria a vocês… Qual é o significado da enzima. (Quer falar um pouco sobre a enzima, L...?) Você vai verificar que quando os biólogos estudam a enzima, eles não estão preocupados com o significado da enzima, mas com as funções dela.

Aluno: O significado não é conseqüência da função?

Claudio: É, é conseqüência da função! Mas quem está trabalhando numa semiótica energértica não está procurando significações. Está procurando o funcionamento. A ele não interessa o que significa aquilo. A ele interessa como aquilo funciona.

Aluno: Há aqui também uma certa linguística.

Claudio: [Sim.] Uma certa linguística, exatamente. Uma certa linguística, que, em vez… -pode-se falar até na filosofia analítica inglesa -…em vez de você se preocupar com a significação, você está preocupado em saber a função daquilo. Como aquilo funciona.

Aluno: Pode-se [inaudível] o amor [inaudível] uma energética, não é?

Claudio: Pode… deve-se, inclusive. Deve-se inclusive!! Porque o amor é um corpo. O amor é um corpo! Se o amor não fosse um corpo, a R... Não estava grávida. (Você entendeu, ou ainda não, A...? Está melhorando, B...?, fala lá!)

Na semiótica energética – o que eu estou chamando de semiótica energética – não é a investigação da significação. É a investigação da força, da função, do uso daquilo. (Certo? Eu agora vou dar uma pausa e ver se eu consegui ser entendido. Fui entendido? Heim!? Você entendeu, C...? Olha lá, heim? Você me responde assim… Há alguns que eu sei que entenderam. Outros, eu fico em dúvida! Bom. Vou dizer que entenderam.)

O que ocorre na história – segundo alguns pensadores – é que existiriam diversas semióticas, e não só essas duas. Eu coloquei duas: semiótica energética e semiótica do significado. Mas existiria mais do que isso. Existiriam múltiplas semióticas. A nós vão interessar as duas que os estoicos estão trabalhando: uma, a do significado; outra, a energética. (Como você está indo, T...?)

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Agora eu sou um filósofo estoico. E vou começar a falar dos corpos. Eu estou fazendo uma pesquisa de significado? Não! Eu estou fazendo uma pesquisa de potência, de funcionamentocomo é que aquilo funciona. Os corpos funcionam… porque os corpos – literalmente – não significam nada! (É muito duro isso daqui!) Eles não têm nenhuma significação – mas funcionam. Não são do campo da significação: o campo da significação é efeito dos corpos. (Pronto! Dei por entendido!)

Aluno: Quer dizer que o corpo só tem sentido quando aliado à sua função?

Claudio: Mais grave ainda! O corpo não é aquilo que se entende por sentido e por significado. O corpo se entende pela função, pelo uso e pelas práticas potenciais – assim que se entende o corpo. (Certo?).

[Ao dizer] que os corpos não podem ser explicados pela semiótica do significado, [os estoicos] estão fazendo um longo deslocamento. Utilizar a semiótica do significado para compreender os corpos, [é] uma tremenda tolice – porque corpo é campo de potência. (Como é que você foi, E...?)

Agora, [a questão do] significado. O que é o significado? O significado é um efeito da composição dos corpos. O que mostra que o mundo estoico é dividido em duas séries – a série acontecimento e a série corpo. [É] assim que eles dividem o mundo. De um lado, o corpo e do outro, o acontecimento. O acontecimento é uma entidade significativa. Mas não é uma entidade potência. A potência é o corpo. (Eu acho que foi bem!) Aqui você tem literalmente a física estoica. (Atenção para os domínios do que vai aparecer aqui.) A física estoica é facílima – é potência, corpos, germes e expansão. Isso é a física deles.

E você tem a lógica dos estoicos: a lógica dos estoicos é o campo do significado. (Entenderam?) Se você for um lógico, trabalha em significados. Se você for um físico, trabalha [com a] potência. (Pronto! Não tem dificuldade de se entender. Você entendeu, P...? Não tem dificuldade de se entender.)

(Agora nós vamos entrar numa página difícil… Vamos entrar num momento muito difícil. E eu pergunto novamente se isso está entendido… porque é a base para entender o que vem [em seguida]. (Certo?) Vamos trabalhar:)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Olha, não! Não. Nós vamos examinar o que é exatamente o acontecimento. Mas a natureza dos acontecimentos é diferente da natureza dos corpos. A natureza dos corpos é a potência. A natureza do acontecimento é o significado. (Vamos começar, agora, a fazer um trabalho radical. Radical e rigoroso… para vocês entenderem o que vai acontecer aqui. Então vamos.)

Primeira parte do trabalho – (que só pode ficar entendida se vocês [tiverem compreendido o que eu [acabei de] explicar.)

Há uma lógica dos estoicos. A lógica dos estoicos é a dos corpos? Não. A lógica é dos acontecimentos. É isso a lógica dos estoicos. Agora – no Aristóteles há, também, uma física e uma lógica… Mas a lógica aristotélica… – A lógica, não estou falando dos corpos! -… não é a lógica do acontecimento, é a lógica do conceito. Nós, agora, temos que distinguir a lógica do conceito de uma lógica do acontecimento. Não sei se vocês entenderam aqui: há uma diferença inicial e uma identidade entre Aristóteles e os estoicos – porque para Aristóteles há corpos e lógica – física e lógica; para os estoicos [também] há física e lógica. A física dos estoicos é a potência dos corpos, a lógica dos estoicos é o acontecimento; a lógica do Aristóteles é a lógica dos conceitos. (Entenderam? Agora eu vou fazer uma explicação para vocês. Você entendeu, B...? São coisas totalmente novas, não é? Inteiramente novas.)

Todo corpo vivo tem a capacidade de representar os corpos que o afetam. Todo corpo vivo representa [em si] o corpo que o afeta. Por exemplo, a imagem do B.… me afeta… – eu represento B.dentro de mim. Para ficar bem claro: todos os corpos vivos ou – para ficar ainda mais claro: antropológicos… (e aí não tem como errar…) Ou seja: todo corpo humano pode representar, nele, os corpos que o afetam. Afetou – conseqüência – representação. Certo? Então, C.… me afetou… – eu represento C.

O que quer dizer representação? Representação quer dizer que alguma coisa que está presente fora de mim, está re-presente dentro de mim. (Não sei se vocês entenderam…) E.… está presente. E eu tenho a imagem da E.… Isso é a representação. Eu represento aquilo que está fora de mim, a partir do instante em que aquilo que está fora de mim me afeta. Se não me afetar, não [faço a representação]. Segundo [um aluno] físico, eu não posso ter, por exemplo, a capacidade de representar determinados sons que o cachorro representa. Não é isso? Porque [esses sons] não me afetam. Eu represento aquilo que me afeta – representação é sinônimo de marca. Eu represento, porque eu sou marcado por aquilo. Nos estoicos, isso se chama – representação sensível. Nós, os humanos, somos capazes de fazer representações sensíveis de tudo aquilo que nos afeta. (Entendido?)

Além disso, nós somos capazes de fazer a representação racional. A representação racional é extrair, das representações sensíveis, semelhanças e identidades. (Vocês entenderam?) Por exemplo – neste instante, eu estou sendo afetado por vocês. Então, de cada um de vocês [aqui presentes], eu faço uma representação sensível. A representação racional é retirar de vocês o que é diferente e ficar com o que em vocês é semelhante. (Não sei se entenderam…). Ou seja: pela representação racional, eu construo a ideia de homem. A ideia de homem não é uma representação sensível. Ela é uma representação racional originada no conjunto das representações sensíveis. Aí eu constituo a ideia de homem. De onde eu tirei a ideia de homem? Eu tirei a ideia de homem das representações sensíveis… porque eu excluo, das representações sensíveis, as diferenças: não me importa que o B.… seja maior que a O.… – me importa que o B.… e a O.… tenham um tamanho. Não me importa se o B.… pensa diferente da O.… – me importa que ambos pensam. Eu fico com o comum, excluo o singular – e formo a representação racional. O conceito é a representação racional. (certo?) Para quem? Para os estoicos. O conceito para eles seria a representação racional. (Entenderam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, mas a teoria dos conceitos do Aristóteles não é exatamente dessa maneira. Mas não importa! O que importa aqui é a teoria dos conceitos dos estoicos, depois eu [explico] a do Aristóteles – que tem muita semelhança com isso aqui. Muita semelhança. Mas não importa… – o que importa agora é a dos estoicos. Logo, para os estoicos, existe ou não representações sensíveis e representações racionais? Existe! Mas a representação sensível e a representação racional são práticas corporais: são dos corpos – porque afetam os corpos. E a questão da lógica deles não é dos corpos. Então – a lógica dos estoicos não é uma lógica da representação. (Se não entendeu, nunca mais vai entender!) Os estoicos vão gerar uma lógica fora da lógica-modelo do Ocidente, que é a lógica da representação. Eles vão fazer uma lógica do acontecimento – que eu passo a explicar depois de tomar um café e descansar um pouquinho.


Lado B:

A segunda parte que eu vou dar, não vai ser difícil, não. (B.… ficou assustado!) [O] difícil, não é difícil para vocês – é para mim também, pela intensa originalidade do que os estoicos estão dizendo.

Há um texto em que os estoicos dizem que se Adão… – Por que Adão? Porque Adão é o primeiro homem! – …que, se Adão olhar para uma lagoa, de maneira nenhuma ele conseguirá descobrir que se entrar lá no fundo [de suas águas], ele morrerá asfixiado. Dizem eles, que olhar para a lagoa, não [é suficiente para] descobrir que a lagoa afoga. Nem olhar para o fogo [dá para] descobrir que o fogo queima. O que os estoicos estão dizendo, é que a representação sensível, pelo menos da água e do fogo, não gera conhecimento. Você tem aquela representação sensível, mas [com ela] você não descobre nada daquilo dali. De alguma maneira, eles estão colocando em crise um conhecimento fundado na representação sensível. Ponto.

Segundo: Para os estoicos, na hora em que você faz uma representação racional, você utiliza substantivos comuns – a mesa, a cadeira, o homem. [Faz-se] representações racionais, utilizando[-se] substantivos para representar o objeto racional. O objeto racional é diferente do objeto sensível. O objeto sensível é individual, e o objeto racional é a coleção dos indivíduos menos a suas diferenças. Aí, utiliza-se substantivos para fazer a representação racional. (Entenderam?) Mas quando você for trabalhar no acontecimento, você [emprega] os verbos no infinitivo. O que nós descobrimos aqui? Que no campo das representações sensíveis e das representações racionais, você tem dois tipos de linguagem: a linguagem do nome próprio, para as representações sensíveis; e a linguagem do substantivo comum para as representações racionais. Mas, o acontecimento, não se diz nem com substantivo nem com o nome próprio – diz-se com verbos no infinitivo. (Até aqui tudo bem?) Então, se eu disser, [de modo] ainda muito vago, mas se eu disser – “amar” – o que é isso? É um acontecimento. Porque o acontecimento é dito por um verbo no infinitivo – ou no gerúndio, amar/amando, tanto faz. Enquanto que as representações racionais são feitas por substantivos comuns e as representações sensíveis com substantivos próprios. (Está certo?) “Bento” – esse nome representa, o quê? Uma representação sensível; “O homem” – é uma representação racional. (Tá certo?)

Agora vamos ver o que é o acontecimento. é que é barra pesada! Vamos tentar entender o que é o acontecimento:

Na primeira parte da aula, eu falei na existência de uma física – que seria das potências dos corpos; e falei de uma lógica – que seria a lógica do acontecimento. A primeira grande e terrível distinção estoica [é que] a natureza é constituída de corpos e incorporais. O incorporal – não sabemos o que é – é do campo do acontecimento. A única coisa que nós sabemos é que quando eu falar em acontecimento, eu não estou falando em corpo, eu não estou falando em potência. Eu estou falando em acontecimento e incorporais. E, o que é mais importante: o acontecimento é um efeito, ele nunca é causa – ele é efeito do campo dos corpos. É o campo dos corpos que produz o efeito acontecimento. (É dificílima essa colocação!)

O que está ocorrendo aqui? Adão olha a água, e nesse olhar, ele não compreende que a água é capaz de afogar. Ele não compreende! Mas, no momento em que Adão fizer uma experiência com a água, ele vai descobrir que se ficar [sob] a água… – ele vai-se afogar. O que vai acontecer aqui? Na hora em que Adão olha para a água, ele tem [dela] uma representação sensível. Logo, Adão está numa dimensão do tempo – na dimenão presente. Então – corpos, potência de corpos e as representações sensíveis se dão na dimensão presente [do tempo]. Mas depois de ter feito essa experiência, e de compreender que a água afoga… – ele é capaz de fazer dentro dele uma ideia do futuro.

O que é uma ideia do futuro? Ele faz a ideia: “se meu corpo se conjugar com o corpo da água, eu vou-me afogar“. Já – afogar – não vem da experiência – é alguma coisa que está no futuro. Ou seja: o acontecimento traz para o mundo o que o mundo não tem – porque o mundo é constituído de corpos e potências no presente. O acontecimento traz o futuro. Traz o futuro. Adão consegue agora ir além da experiência – ele vai mais longe. Ele vai à compreensão do que acontecerá… – se ele entrar debaixo daquela água. Isso não está no presente. Isso está no futuro. O acontecimento é a chegada de uma nova dimensão do tempo. (Não sei se foi bem!? Entenderam?)

O acontecimento está trazendo para dentro da natureza uma dimensão do tempo que os corpos não têm – porque os corpos só teriam a dimensão presente. O acontecimento é a possibilidade do homem ultrapassar a experiência. Ele ultrapassa a experiência. Ele vai além da experiência. Ele sabe o resultado dos encontros dos corpos. Por isso que o acontecimento é dito por um verbo no infinitivo. Afogar, queimar… – botar a mão no fogo e queimar.

Por que o homem não bota a mão no fogo? Porque ele tem dentro dele um sentido que não está no mundo – está no espírito dele. (Entenderam?) O espírito dele é que contém aquilo – mas o acontecimento é inteiramente real. (Não sei se entenderam…) Está aparecendo alguma coisa que não é dada nas representações, mas é o poder que o sujeito humano tem de ultrapassar o campo das experiências, e se projetar para o futuro. Ele se projeta para o futuro – por causa do acontecimento. Porque o acontecimento é o resultado do encontro dos corpos e o espírito humano tem o sentido dele. (Eu acho que ficou difícil, heim? Ficou difícil, C...? Vocês tinham que falar um pouco. Eu vou voltar – com outras terminologias. Mas já falando comigo – para ver se eu consigo passar isso para vocês.)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Olha, é abstração – de alguma maneira… porque ele acontece no espírito. Mas, simultaneamente, ele acontece no real. Ele acontece no real. Ele é inteiramente real… e é espiritual – mas não é algo do corpo – é uma conseqüência do encontro dos corpos. Queimar e afogar não são corpos – são consequências. .. consequências! É exatamente porque os homens possuem o acontecimento – que eles ultrapassam o campo experimental. Eles vão acima da experiência. Eles trazem – para a natureza – o futuro. (Não foi bem não, não é? Foi muito cruel…)

Aluno: Claudio, você pode ultrapassar o acontecimento em algum momento, já sabendo…

Claudio: Sim, mas o importante, O..., o importante aqui é que essa tese mostra que o sujeito humano não está dependente das representações – ele pode ir mais longe. Ele vai além das representações. Ele vai além da natureza. Ou seja: o espírito humano é aquilo que ultrapassa a natureza. Ele ultrapassa a natureza – exatamente pelo processo do acontecimento. Ele tem – nele – o sentido dos encontros dos corpos. É isso que ele está trazendo de novo. A lógica do acontecimento não é uma lógica prisioneira da representação. Ela vai além da representação. É uma lógica que ultrapassa, inclusive, o tempo presente – remete-nos para o futuro. Eu digo: “eu não boto a mão no fogo porque eu vou me queimar…” E eu digo isso – porque eu tenho o sentido.

Vamos voltar: o mundo da representação é um mundo presente. Você só pode representar aquilo que está no presente. Eu represento Bento. Re-presento. Retorno com o presente. O mundo do acontecimento libera para nós – pelo menos nesta aula – uma dimensão do tempo que o mundo dos corpos não liberou. A dimensão futuro só pode aparecer em nós pelo acontecimento – não pelos corpos.

Pelos corpos só temos o presente. Mais nada. Enquanto que o acontecimento já nos leva a ter saber – sem que nada tenha acontecido. Construímos um saber que não é dependente das representações. (É óbvio demais para ser claro! O problema é de verdade! É a clareza do que [os estoicos] estão dizendo.) Porque você só tem esse saber porque o acontecimento. (Vou tentar de outra maneira:)

Uma teoria do tempo dos estoicos, vamos tentar por aí. Quando os estoicos falam dos corpos, eles fazem uma física; e eles colocam que falar em corpo e falar presente é a mesma coisa. Porque o corpo é aquilo que está limitado – necessariamente – pelo hic et nunc – o aqui e o agora. Todo corpo tem um limite… Qual é? É o aqui e o agora. Qualquer corpo necessariamente está num aqui e num agora – não há outro jeito. Se vocês fizerem alguma hipóteses de que [isso é possível], digam para mim. Nenhum corpo pode estar fora do seu lugar e fora do seu presente. Está no presente e no lugar. Necessariamente.

Então, quando você trabalha com os corpos, quando você trabalha com a física, é uma física do presente. Tudo é presente! E o acontecimento introduz duas dimensões do tempo que o corpo não tem – o passado e o futuro. Neste instante, eu só estou falando do futuro. Ou seja, o acontecimento, o efeito dos corpos, traria – como conseqüência de sua aparição – novas dimensões do tempo – que é o passado e o futuro, que no mundo dos corpos nós não teríamos. Se nós estivéssemos presos às representações, nós estaríamos presos ao aqui e agora. (Eu não sei se foi bem, se vocês entenderam…)

O grande problema não é ter dúvida sobre o que eles estão dizendo – é aceitar -literalmente o que eles estão dizendo. E se vocês quiserem fazer uma experiência… vejam se um corpo pode estar fora do presente e do lugar. Não pode! Todo corpo está no presente… – é isso que eles estão dizendo. O ser dos corpos, a dimensão dos corpos é o presente. Então, toda a nossa experiência é uma experiência de quê? É uma experiência de corpo, é uma experiência de presente! De que maneira nós podemos ultrapassar a experiência? De que maneira nós podemos sair da prisão do presente? Através do acontecimento. É o acontecimento que vai permitir a emergência dessas duas dimensões: passado e futuro. (Eu acho que está muito forte por hoje, não é? Eu vou abrandar um pouquinho alguma coisa aqui… Deixa que eu retorno na próxima aula. Acho que já está muito forte por hoje, já está havendo problema. Eu vou dar só um exemplo e vou sair.)

Há um autor moderno, um lógico inglês – que escreveu muito sobre o acontecimento. É o Lewis Caroll. Alice no país das maravilhas, etc. Isso tudo é lógica do acontecimento. Por isso é que nós temos dificuldade de entender – porque nós estamos acostumados a trabalhar com conceitos. Conceitos na representação sensível e na representação racional. Quando ele introduz a noção de acontecimento, o que ocorre? No acontecimento, o que não existe, em termos de dimensões temporais? Não existe o presente. No acontecimento não existe o presente. O presente é só do corpo. Então, a grande originalidade dos estoicos – esta é a grande originalidade deles – é ter dividido o tempo em duas dimensões: de um lado o presente – dos corpos; de outro lado o passado e o futuro – dos acontecimentos. (Eu acho que está bom por hoje, viu?)

Fala, K.

Aluna: O acontecimento não pode ser re-presentado.

Claudio: Não pode, não é presente!?…

Aluna: A representação [inaudível] que ela é, reproduz a [inaudível] passada. Porque quando [inaudível] e eu re-apresento.

Claudio: Olha, eu acho que você mesma disse que não reproduz. O que você tem presente é a imagem… Agora – você codifica ou pontua essa imagem como do passado… – mas o que você tem é o presente. A imagem é inteiramente presente. (Entendeu?)

Aluna: [inaudível] o passado […] da imagem […].

Claudio: Não, o passado é do acontecimento. É uma pergunta heideggeriana. Heidegger já fez essa pergunta. O que torna, digamos, este móvel antigo? O que torna isto aqui antigo? Porque quando você está no campo do corpo, tudo que você tem é presente. Isto daqui é presente. [inaudível] Mas o que eu tenho dentro de mim é uma imagem presente.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, não, porque, veja bem – a imagem é um corpo presente em mim, não importa. Não há como o corpo sair do presente. Não há. Ele não tem como sair – ele está sempre prisioneiro do presente. A lei do corpo é o presente. (Ficou difícil, B.?)

É muito fácil. Neste instante eu estou com a imagem de Macaé – que é a minha cidade. Mas eu estou com a imagem em “mil novecentos e antigamente”. (Tá certo?) Mas a imagem que eu tenho aqui, em mim, é presente. É presente! O corpo não tem como escapar disso – ele só vive no âmbito do presente. A dimensão do corpo é o presente. Se não houvesse o acontecimento… (Eu volto na aula que vem, eu volto com muito mais firmeza, porque nós já passamos pelas dificuldades do corpo… É o acontecimento que vai trazer essas duas dimensões – passado e futuro. O que mostra que o acontecimento é o poder que um corpo tem de sair do presente. O corpo sai do presente pelo acontecimento).

Agora eu vou deixar de lado, e vou dar pequenos exemplos de outra teoria que pega isso daqui:

Eu vou fazer uma coisa simples para vocês. Eu vou pegar um relógio. Um relógio tem um ponteiro de minutos e um de segundos. O segundo é a menor unidade de tempo do relógio. Eu vou chamar de menor unidade de tempo metafísica o instante. No relógio da metafísica – o instante é a menor unidade. (Entenderam?) Então – Agora, eu vou dizer que a natureza seria um conjunto de instantes. Agora, eu estou no instante A. Agora, eu estou no instante B – o instante A virou passado. Agora, eu estou no instante C – o instante B virou passado. Então, o tempo seria pensado numa sucessão de instantes. (Certo?) A cada tempo eu estou, eu estou no tempo presente. Eu saio de um tempo presente – saio de um instante – e passo para outro instante. Eu passo de um presente para outro presente. Eu vou fazendo isso, saindo de um presente para outro presente, para outro presente… [indefinidamente…] Isso seria uma teoria do tempo.

Agora – eu não sei se vocês conhecem um [fenômeno famoso] chamado dejà vu? Vocês conhecem, o dejà vu é quando você chega em um lugar e você diz: “Eu conheço este lugar” – ainda que você nunca tenha ido a ele.

Um acontecimento que se dá com os atores. Muitos atores estão representando – Hamlet, por exemplo – e estão, simultaeamente, se vendo representar. Eles representam e se vêem representar. Vocês conhecem esse fenômeno? É um fenômeno comum… Você está fazendo alguma coisa e está se vendo fazer aquilo. (Entenderam?)

O dejà vu – que é muito mais claro – é quando você mistura aquilo que você está vendo com alguma coisa que “tivesse” acontecido na sua vida. É exatamente a tese dos estoicos – eles dizem que nós não convivemos com o tempo como se o tempo fosse presente – o tempo é imediatamente, para nós, presente e passado. Ou seja: ao olhar para o Bento, eu estou – [ao mesmo tempo] – percebendo e memorizando o Bento. O tempo não pode ser pensado como uma entidade apenas presente, ele é – simultaneamente – presente e passado. Por isso é que você entra em contato com alguma coisa no presente e – ao mesmo tempo – aquela coisa já é passado. Simultaneamente. É esse o fenômeno de você se ver representado. É esse o fenômeno do dejà vu. Aquilo é simultaneamente presente e passado. É exatamente essa a tese que eles estão querendo explicar pela teoria do acontecimento.

Eu vou dar por terminada essa aula, porque eu não aguento mais… Nós voltamos à teoria do acontecimento, muito mais fortalecidos, na próxima aula, muito mais fortalecidos!

Aqueles que quiserem algum texto, eu tenho os textos básicos… e eu acredito que na próxima aula eu já possa passá-los para vocês.

Fim.

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Aula de 05/04/1989 – Acontecimento e campo de poder

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 6 (Do Universal ao Singular); 7 (Cisão Causal); 10 (Estoicos e Platônicos) e 15 (Ecceidade e Espinosa, o mais Poderoso dos Deleuzianos) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


1ª Parte

LADO A

[…] se não houver o completo entendimento eu terei dificuldade de montar outras teorias no decorrer da aula.

Primeira questão: O que é exatamente o conceito? Em primeiro lugar: o fato da existência do conceito. Por que existe, na linguagem, esta prática chamada conceito? Por uma razão muito simples, diz o Aristóteles. Segundo ele, nós os sujeitos humanos, somos dotados de uma [dupla] semiótica. Semiótica é teoria dos signos. Dupla [semiótica], [porque] nós somos capazes de falar e de escrever. Mas quando nós falamos e quando nós escrevemos, diz ele, nós falamos e escrevemos sobre o mundo. Então, segundo ele, o objeto da escrita e o objeto da fala é o mundo. (Está bem claro?) Isso se chama prática denotativa. Fazer com que a linguagem diga alguma coisa do mundo à nossa frente…. mas existindo uma diferença entre a linguagem e o mundo. É que o mundo é infinito.

O que quer dizer mundo infinito? Por exemplo, o Bento que está na minha frente, pode fazer os mais indefinidos movimentos. Cada um de nós pode fazer indefinidos movimentos. Mas a linguagem é finita, não pode representar nela os movimentos indefinidos do mundo. Por causa disso, a linguagem inventa o nome geral. O nome geral é uma maneira da linguagem dar conta do mundo, porque ela não pode inventar nome para todos os acontecimentos do mundo, pois nossa memória não resistiria. Por exemplo, se eu quisesse dar nome a tudo o que acontece, eu diria assim: Bento passando a mão na barba, e me olhando nesta penumbra da noite de segunda feira. Não! É melhor eu dizer “Bento”. Então, a linguagem inventa o nome geral porque ela é finita diante de um mundo infinito. (Acho que ficou bem claro!)

O que é o nome geral? O nome geral é alguma coisa inventada pela linguagem, mas no real não existe nada que seja geral. No real só existem os indivíduos. O geral é da linguagem. Por exemplo, no real tem “esta mesa”, na linguagem tem “a mesa”. A mesa é um nome geral da linguagem. A linguagem produz [o nome geral] porque ela é finita, e não poderia dar um nome a cada mesa, por isso ela produz o nome geral. (Entenderam?) Então, o nome geral é um artifício da linguagem, devido à sua finitude. A linguagem é finita e inventa os nomes gerais – agora, o real é in-di-vi-du-al. (Entenderam?)

Quando eu faço experiências no mundo vivo, essas experiências são sempre individuais – eu experimento no mundo os indivíduos. Mas a linguagem vem recobrir esse campo da experiência com os nomes gerais. [E aí] aparece uma defasagem entre a linguagem e o real. (Como é que foi, todo mundo entendeu essa diferença?) A linguagem é o instrumento da razão. O que mostra que entre a razão e a experimentação há uma diferenciação. Porque o mundo real – o campo das experiências – é individual, sempre individual! Mas a linguagem gera os conceitos – que são os nomes gerais. (Está bem claro?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não. A linguagem não é toda geral, ela gera os nomes gerais, mas [há] também nela nomes como o nome próprio – que é um nome individual. O que eu estou dizendo é que a linguagem gera os nomes gerais porque ela não pode representar todos os movimentos do indivíduo nela – pois nossa memória não suportaria. E ela, então, os substitui. Se a linguagem não tivesse o nome geral, “esta mesa”, por exemplo, teria um nome próprio! “Este cigarro” daqui teria o quê? Nome próprio! Como é que eu chamo este cigarro? O Cigarro! Eu dou, para ele, um nome geral. (Entendeu?) E isso é um artifício da linguagem, porque ela é finita. Ela inventa os nomes gerais para recobrir o mundo e, através disso, resolver o problema da comunicação. Ela resolve o problema da comunicação, utilizando os nomes gerais!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Sem o nomes gerais? Não, não. O que eu estou colocando são dois tipos de linguagem – a escrita e a falada. E tanto a escrita quanto a falada trabalham com nomes gerais. Todas as duas! Nós não falamos “A mesa”; “A cadeira”,”O vento”? Veja bem: nas minhas experiências de mundo eu algum dia experimento “A” cadeira? Não! Eu experimento “esta” cadeira. Eu nunca experimentei “A” cadeira. Eu experimento esta cadeira. O nome geral é um artifício da linguagem.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Isto seria singularizar? Repõe, E...! Sim, mas nós não temos possibilidades mnemônicas de fazer isso. Veja bem: se eu quiser falar sobre “o vento” somente com nomes singulares, eu tenho que fazer uma descrição do tipo que eu fiz do Bento. A linguagem vai e utiliza o nome geral para recobrir o problema da memória. Ela resolve isso.

Aluno: [inaudível]

Claudio: O que está sendo dito, é que isso é a essência da linguagem. A linguagem – escrita e falada – geraria o nome geral porque ela, a linguagem, é finita, e o mundo é infinito. (Entendeu?)

Por que apareceria a linguagem geral? Por causa da finitude da linguagem. Só isso! Ela é finita – é muito simples! Por exemplo: eu não falo “o vento”? O que é “o vento”? O que quer dizer essa palavra? Quando eu falo “o vento” – sobre que vento eu estou falando? Eu estou falando de todos os ventos, de todos os ventos. Mas, eu experimento todos os ventos na minha experiência? Não! Eu experimento um vento singular. É que a linguagem gera o nome geral – ainda que no real não exista o geral. No real só existem os indivíduos.

Aluno: [inaudível]

Claudio: […] Segundo o que o Aristóteles está dizendo, é da essência da linguagem, pouco importa a época em que ela for falada. Pouco importa! Em qualquer época da história a linguagem geraria o nome geral. Geraria o nome geral, quer dizer: permitiria a um homem dizer para o outro: – Ah! O camelo é um animal feio. Quando ele diz: “O camelo é um animal feio” – de que camelo ele está falando? Ele está falando sobre a generalidade do camelo. Mas o campo experimental não me revela nenhum ” O camelo”. No campo experimental só existe ” este camelo”. [Aluno: inaudível] A linguagem produziria o genérico – ainda que as experiências sejam individuais. Há uma espécie de defasagem entre a linguagem e o mundo. [Aluno: inaudível] Há uma impossibilidade de você se comunicar descrevendo os indivíduos em seus estados atuais. É impossível para nós. Você teria que dar nome próprio a tudo. Qual seria o nome disso daqui [Claudio mostra um objeto qualquer] – se não houvesse nome geral? O nome disso seria, por exemplo, “Pedro Antônio”!?… Esta mesa teria um nome próprio… Tudo teria um nome próprio!

O nome geral recobre o real – ainda que o real não tenha generalidade. […] fica muito claro!… (Entendeu?) Não há o geral. No real só tem o individual. (Já entenderam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Olha…, não. Por exemplo: a literatura – ela tenta descrever experiências singulares. Por isso, quando ela [faz uma descrição,] ela evita o nome geral. Para descrever experiências singulares, não [se] pode trabalhar com o nome geral. Tem-se que usar outro tipo de linguagem. Mas o nome geral é uma maneira que [se] tem de classificar os indivíduos do real. Querem ver?

Esta sala se divide em mesa, homens e cadeiras. Três nomes gerais. Eu dividi a sala. Classifiquei. Isso é uma prática classificatória. Você recorta o real – que é constituído de indivíduos – com o nome geral. (Eu já não tenho mais nem o que dizer aí. Eu acho que está tão claro… Como é que foi?)

O nome geral chama-se conceito. O que é um conceito? É um nome geral. Pronto! (Entenderam?) O que é “O homem”, por exemplo? Um nome geral – logo, um conceito.

Existe algum “O homem” no real? – O que é que você acha, Bento?

No real existe “este” homem. Mas “O” homem – se vocês encontrarem O homem por aí, tragam para mim, pois quero conhecer esse bicho!! Então, o nome geral é da linguagem – mas não é do… real. (Certo?)

Além disso, a linguagem produz o que se chama proposição. O que é uma proposição? É o momento em que, na linguagem, dá-se um predicado a um sujeito. Por exemplo: A mesa é bonita. O que é “A mesa é bonita”? É uma… proposição. Proposição é quando você dá ao sujeito um predicado. O homem é bonito. A rosa é vermelha. R… é cineasta – são proposições. (Tá certo?)

Então, o que é uma proposição? Uma proposição tem sujeito, verbo ser na terceira pessoa do singular, e um atributo ou predicado. (Está certo?) O atributo da proposição é o conceito. Portanto: o atributo da proposição é o nome geral. (não sei se entenderam…) O atributo da proposição é o nome geral. Bento é homem. Homem é o quê? Homem – não é um nome geral? Mas, na proposição, o nome geral tornou-se atributo. Então, na proposição, o nome geral ou conceito vira atributo. (Entenderam?)

Quando eu digo o homem, a produção do conceito não é verdadeira, nem falsa: é apenas um conceito – O homem, A vaca, O cachorro. Mas, quando o conceito vai para a proposição e se transforma num atributo, – toda a proposição é verdadeira ou falsa. Eu digo: Bento é bonito. Bento é feio. Uma dessas duas proposições é verdadeira e a outra é falsa. Ou seja: a prática do nome geral – no momento em que ele se torna um atributo – é uma prática do verdadeiro e do falso. Quando é que nós estamos no verdadeiro e no falso? Quando nós afirmamos ou negamos um atributo de um sujeito. Negar ou afirmar um atributo de um sujeito é uma prática do… verdadeiro e do falso. (Acabou!)

Então, se eu quero fazer ciência. A ciência é o universo do discurso onde está o verdadeiro e o falso. Fazer ciência é produzir proposições. (Eu acho que deu, não é?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Mas [nesse caso] o sujeito também é geral, não é? Então, quando você for fazer uma proposição, você procura colocar como sujeito aquilo que não pode ser atributo. O indivíduo é a única coisa que não pode em momento nenhum ser atributo. O indivíduo só pode ser sujeito da proposição – em momento nenhum ele, [o indivíduo] pode ser atributo. Por exemplo: “Bento é bonito”. Mas eu não posso dizer “Chico é Bento”. Eu não posso dizer “Bento é Chico”. Porque o indivíduo é sempre sujeito… nunca atributo. O que são os atributos? Os atributos são os nomes gerais. (Não sei se isso passou… está muito difícil? Fala….)

Aluno: [inaudível]

Claudio: O atributo é o predicado: o nome geral. Por exemplo: Bento é o quê? Bento é um indivíduo. Logo, Bento só pode ser sujeito da proposição. Não pode ser atributo. Os atributos são os nomes gerais. (Eu acho que está tão claro: não tem como não entender. Posso continuar… ou tá muito difícil? Não está, não é? – Eu agora estou em dúvida!)

Qual é a função da proposição? Afirmar ou negar um atributo de um sujeito. A função da proposição é a produção do verdadeiro e do falso. Quando eu digo assim – Me dá um café! Isso é verdadeiro ou falso? (Aluno: Verdadeiro.) Não! Verdadeira ou falsa é só a proposição. Só há verdadeiro ou falso na hora em que você afirma ou nega um atributo de um sujeito. Só isso. (Entenderam?)

Então: nós, os sujeitos humanos, somos dotados da capacidade de produzir significações através da linguagem. A função da linguagem é produzir significações. Mas a única coisa, na linguagem, que produz o verdadeiro e o falso é a proposição. Então, a linguagem é mais ampla que a proposição, porque a linguagem é o campo da significação; mas a proposição é o campo do verdadeiro e do falso. (Eu acho que foi bem!..)

Quando eu quiser fazer ciência, o que é que eu tenho que fazer? Produzir significação pura e simples ou produzir o verdadeiro e o falso? Então, o campo da ciência é o campo proposicional. (Eu acho que já está claro. Alguma questão? Posso considerar entendido? Posso, não é?)

O atributo é o nome geral? Quando você atribui um nome a um sujeito – esse atributo pode ser essencial ou acidental. (Prestem atenção: porque a aula que eu estou dando para vocês ela não visa a isso aqui – visa a outra coisa. Mas se não entender essa, não vai entender a outra, certo?)

Que tipos de atributo eu posso produzir? Atributos essenciais e acidentais. Quando aparece o atributo essencial – que é um nome geral – ele é a essência do sujeito. Bento é homem. Homem é o quê? Homem é um atributo essencial; é um nome geral; mas também é a essência de Bento. (Certo?)

Então, no nível dos atributos, aparece o atributo essencial e o atributo acidental. Bento é branco. Branco é o quê? Atributo acidental. Homem é o quê? Atributo essencial. (Entenderam?) Nós teríamos duas práticas atributivas: o atributo essencial e o atributo acidental – como prática proposicional. Por exemplo, eu digo: Bento está sentado. Que atributo é esse? Acidental! (Entenderam?) Bento é um animal racional. Que atributo é esse? Essencial!

Enão nós teríamos dois atributos: o essencial e o acidental. Muito bem. Por essa tese, o atributo é ou a essência ou o acidente do sujeito. (Viu?) Ele é ou a essência ou o atributo do sujeito. (Corta, Corta! Agora vamos para outra coisa. Está entendido, não é?)

Os estoicos querem fazer ciência. Logo, eles querem fazer, o quê? Proposições. (Certo?) E uma proposição tem sujeito e… atributo Toda proposição tem sujeito e atributo. Então, os estoicos querem fazer ciência – logo, querem fazer proposições; logo, querem criar atributos; logo, querem criar discursos que têm sujeito e atributo. Mas os estoicos não vão concordar em usar o verbo ser. Eles não vão usar o verbo ser.

A primeira tese usa o verbo ser? [Alunos: sim!]

Os estoicos não vão usar o verbo ser – e em vez de colocar como atributo substantivos e adjetivos… Homem é o quê? [Alunos: Substantivo!] Branco é o quê? Sustantivo! Bonito é o quê? Adjetivo! – Os estoicos não vão colocar nem o sustantivo nem o adjetivo como atributo. Como atributo, [os estoicos] vão colocar o verbo no infinitivo ou no gerúndio. Por exemplo, eu digo assim: Esta mesa é azul. Quem é o sujeito? Esta mesa! Quem é o atributo? Azul! – Acidental ou essencial? Acidental! O estoico não dirá isso. O estoico dirá – Esta mesa azulando. Por quê? Porque o atributo dos estoicos não é dito nem pelo substantivo nem pelo adjetivo – é dito pelo verbo no gerúndio. (Não sei se ficou bom…) O que os estoicos estão fazendo? Eles estão rompendo com o atributo essencial; rompendo com o atributo acidental – e estão colocando, como atributo, o acontecimento.

Quantos atributos nós temos? Essencial, acidental e... acontecimento.

O acontecimento é o campo atributivo dos estoicos. A diferença da proposição estoica para a proposição aristotélica é que o atributo de Aristóteles é essencial ou acidental. O atributo dos estoicos é o acontecimento. O acontecimento é o verbo no gerúndio [ou no infinitivo]. O que os estoicos estão fazendo? Uma nova teoria. Nós conhecíamos a teoria das essências e dos acidentes de Aristóteles. Com os estoicos nasce a teoria do acontecimento. Essa é a parte mais difícil:

Uma proposição estoica… Esta árvore é verde – é uma proposição estoica? Não! Como diria o estoico? Esta árvore… verdejando. Ele não diria o campo dos atributos com os substantivos e adjetivos. O campo dos atributos deles é feito com o verbo [na forma] gerundial [ou no infinitivo]. Entenderam?

Agora uma frase negativa: os estoicos fazem proposições sem usar o verbo ser. Eles não utilizam o verbo ser. (Entenderam?) Então, no mundo estoico, não há atributos essenciais; não há atributos acidentais? O atributo estoico é um… acontecimento. (Bom, entenderam?)

Mas, se [há uma modificação do campo atributivo], [já] o campo do sujeito é o mesmo. É o mesmo sujeito. [Tanto] o sujeito do Aristóteles [quanto] o sujeito dos estoicos é o indivíduo. (Vejam se entenderam…)

Então: Esta mesa é verde – é uma prática atributiva da proposição aristotélica. Esta mesa verdejando é uma prática proposicional estoica. (Entenderam?) Mas houve a manutenção de alguma coisa, o quê? O campo do sujeito. (Certo?)

E agora: como é que nós sabemos a essência do sujeito no Aristóteles? Como é que eu vou conhecer a essência do sujeito no Aristóteles? Pelo atributo essencial! Nos estoicos, a essência do sujeito não está no atributo – está no próprio sujeito. A essência não é o atributo, é o próprio sujeito. [Ou seja:] há um deslocamento do campo essencial. Enquanto no campo essencial do Aristóteles o atributo é a essência. Nos estoicos, a essência é o sujeito. (Não sei se está bom aqui, não?)

Em “Bento é homem” – qual a essência? A essência é homem! Logo, a essência é o atributo. Os estoicos não vão trabalhar o campo das essências com os atributos. A essência para eles é o próprio sujeito. (Eu ainda vou explicar!) A essência é o sujeito. Não é o atributo.

Aluno: [inaudível].

Claudio: Sujeito e essência é a mesma coisa. Por quê? Porque para os estoicos a essência é o corpo. A essência é o corpo.

[Se] para o Aristóteles a essência é o atributo lógico – para os estoicos a essência é o corpo. Então: [para os estoicos,] cada corpo no mundo traz com ele a sua essência. (Certo?) [Na primeira teoria,] em Claudio é homem, a essência é homem. [Na segunda teoria,] em Claudio verdeja, por exemplo, a essência é Claudio. A essência para eles é o próprio corpo; não é um atributo lógico – é o próprio corpo. A essência de um ser é o corpo daquele ser. (Entenderam?)

Aluno: Eu não poderia falar Claudio é Claudio?

Claudio: Se você quiser falar Claudio é Claudio... você estará repetindo no predicado a essência sujeito. Não precisa falar isso! O que você tem aqui é um deslocamento do campo essencial. Enquanto a essência no Aristóteles é um atributo, nos estoicos a essência é o próprio corpo. (Vejam se vocês entenderam aqui, para eu continuar.)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Você pode falar os acontecimentos! O que você fala do corpo são os acontecimentos que ocorrem a ele. Agora…

(Fim de fita)


LADO B

[…] O corpo é uma potência. A potência do corpo é de produzir acontecimentos. Então, é o próprio corpo que produz os seus atributos. (Não sei se foi bem!) O próprio corpo gera os seus atributos – mas os atributos não são essenciais nem são acidentais; são acontecimentos. (Tá?) Onde está a essência? No próprio corpo. Então, essência e corpo para os estoicos é a mesma coisa. Essência, potência e corpo são a mesma coisa.

Aluno: [inaudível] singular…

Claudio: Não! É melhor esperar um pouquinho, Chico, para não complicar aí. Não complica com isso aqui, não. Se você introduzir o singular agora, você vai se perder!

É melhor vocês entenderem, agora: este copo tem essência? Qual é a essência deste copo? (É fácil!) A essência deste copo é a potência dele. É isso que é a essência de um corpo – a essência de um corpo é a potência [daquele] corpo. Para que serve essa potência? Para expandir esse corpo. A essência de um corpo é a expansão do corpo. Como é que um corpo se expande? Encontrando-se com outros corpos – a expansão de um corpo é o encontro que esse corpo faz com outro corpo. Então, a essência de um corpo é do corpo – mas a função daquela essência é se encontrar com outros corpos. (não sei se vocês entenderam?!)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Poderia, mas aqui é muito melhor você pensar que a essência de um corpo é a potência daquele corpo. É a potência dele. Qual é a potência de um corpo? Expansão. Pronto! (É a coisa mais fácil do mundo!) Um corpo tem uma essência? Tem! Para que serve a essência dele? Para expandir aquele corpo – só isso, mais nada!

Nós, aqui, passamos de uma essência lógica – que a essência aristotélica é uma essência lógica aquisitiva; para uma essência física e real – que a essência dos estoicos é a potência de um corpo. Meu corpo tem essência? Tem, [mas sua essência] não é um atributo – é do próprio corpo.

Aluno: Eu não entendi por que um corpo precisa se encontrar com outros corpos…

Claudio: Aí, eu agora vou explicar. O acontecimento é alguma coisa que vai ser produzida pelos corpos, e os corpos só produzem acontecimentos na hora em que eles se encontram. Só existe acontecimento, se houver encontro de corpos. Vejamos um exemplo barato – Bento respirando. O Bento não está respirando? Por que [o Bento está respirando]? Porque houve um encontro do corpo do Bento com o corpo do ar. O acontecimento é um efeito dos encontros dos corpos.

Aluna: [inaudível]

Claudio: É o encontro da mesa com o corpo do azul…

Aluno: Se eu disser, por exemplo, a planta está florescendo.

Claudio: É o encontro do corpo da planta pelo menos com o corpo da terra. (Tá?)  Não pode haver acontecimento nenhum se os corpos não se encontrarem. O acontecimento é o produto do encontro dos corpos. Porque você não vai encontrar sequer um corpo que não esteja num encontro com outro. É impossível encontrar-se um corpo que não esteja em combinação com outro corpo. É aí, então, que emerge o acontecimento. O acontecimento é um atributo gerado pela potência dos corpos. (Está difícil isso?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Olha, o que os estoicos estão dizendo, é que tudo o que existe no real – tudo o que existe – é corpo. Então, os corpos não param de se encontrar. Você quer ver que exemplo interessante? Por essa tese dos estoicos, tudo o que existe é corpo? Sim! A multinacional é um corpo? Qual é o corpo da multinacional? Potência. Potência de quê? [inaudível]. Então, o que é que a multinacional tem que fazer para se expandir? [Ela tem que fazer] encontros – para se expandir. Todos os corpos se expandem através dos encontros. Através dos encontros!

Aluno: [inaudível] O encontro é do corpo e aparece o incorporal?

Claudio: Aparece o acontecimento. O acontecimento é incorporal. O acontecimento não -é um corpo. É o efeito dos encontros dos corpos. O que existe no real são os corpos com suas potências. E esses corpos – quando se encontram – produzem o acontecimento. O acontecimento é uma coisa gerada pelos corpos. Se não houvesse corpos, não haveria acontecimento. Quem produz o acontecimento? O corpo!

Aluno: [inaudível]

Claudio: É uma relação afetiva dos corpos produzindo o acontecimento. (Eu já não tenho mais o que dizer, aí. Eu já disse tudo!) É a coisa mais fácil do mundo – por exemplo: Romeu e Julieta namorando. Namorando é o quê? É o acontecimento daqueles corpos que estão alí. Os corpos vão gerando os acontecimentos. O acontecimento não é o corpo – é um atributo do corpo. (Mas eu acho que não foi bem… – Para alguns eu sei que foi, para outros… está meio difícil! Mas é a coisa mais fácil – eu não sei como é que vocês conseguem não entender isso.)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Porque quando um corpo se encontra com outro – necessariamente – ele produz um acontecimento! O acontecimento vai aparecer. Em qualquer situação que um corpo se encontrar com outro – ele aparece!… (E enquanto vocês não entenderem isso, eu não posso ir para a frente. Não posso. É impossível!)

Vamos tentar outro caminho…

Aluno: O lago esvaziando – qual é o encontro aí?

Claudio: É do lago com o corpo da terra. A água e o corpo da terra estão se encontrando. Porque é a coisa mais simples do mundo: pensar a ideia de corpo e não pensá-la sem que um outro corpo esteja em contato com ele, encontrando com ele.

Vamos fazer uma coisa – e aí vai ficar mais fácil para vocês. Vamos pensar o corpo vivo. O corpo vivo. Tenta fazer o pensamento do corpo vivo, sem ele se encontrar com outro corpo – é impossível! Porque o corpo vivo tem que se encontrar pelo menos, com quem? Com o corpo do ar! Como é que uma célula, uma bactéria, seja lá o que for, vai poder existir sem se encontrar com outro corpo? Necessariamente encontra outros corpos. Um homem pode ser pensado sem um outro corpo? Ele não tem que entrar em contato com outro corpo? Quando ele entra em contato com outro corpo, o que que aparece? O acontecimento! O acontecimento é a relação de duas potências corporais. [inaudível] Imediato!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Nããooo! A essência do corpo é a potência. O acontecimento não é a essência do corpo. É apenas o resultado dos encontros de corpos. Por exemplo:

Eu – sou um corpo? Eu pego um avião. O avião é um corpo? Na hora que eu pego um avião e o avião levanta vôo, que acontecimento aparece? O passageiro! Passageiro é um acontecimento. Basta eu descer daquele avião e me dirigir para o bar, que eu perco – que acontecimento? O acontecimento passageiro! Eu perco [esse acontecimento] – mas eu continuo a ser um corpo! O corpo é aquilo que se encontra com outro corpo e produz o acontecimento.

Aluno: O dente dói.

Claudio: O que tem que acontecer para alguma coisa doer em alguém? Vê lá o que tem que acontecer. Descreve o que tem que acontecer! Ele tem que encontrar outro corpo, para produzir o acontecimento – não escapa! O corpo está necessariamente em contato com outros corpos.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Algum corpo que encontrou com o seu corpo e produziu a sua morte. Mas morrendo – isso é um acontecimento. Mas, para isso acontecer, é necessário que outro corpo tenha entrado em contato com o seu. Qualquer acontecimento – necessariamente – implica a potência dos corpos. É impossível você pensar a unidade isolada de um corpo. Sobretudo porque – vou dar por mais ou menos entendido – um corpo – qualquer corpo – é constituído por uma multiplicidade de corpos. Não há sequer um corpo que nao seja constiuído por uma multiplicidade de corpos. O meu corpo é constituído por quê? Qualquer biólogo dirá que o meu corpo é constituído de várias células.

Qualquer corpo é constituído de uma multiplicidade de corpos. Você pode descer ao menor dos corpos – e o menor dos corpos é constituído por uma multilpicidade de corpos. Retirando da natureza a ideia de simplestudo o que está na natureza é complexo. Tudo é uma complexidade. Tudo é uma multiplicidade. Não existe o simples – só existe o múltiplo. Qualquer corpo que você encontrar é uma multiplicidade. Qualquer físico atômico sabe disso – encontrou um corpo, o que é que ele pode fazer naquele corpo? Dividir! Por que é que ele pode dividir? Porque aquele corpo é constituido por vários corpos. Não há uma unidade corporal. Todos os corpos são múltiplos. Isto é que é a teoria da multiplicidade. Todos os corpos são uma multiplicidade de corpos. (Certo?)

Então, qual é a minha essência? Múltiplas potências! A essência de cada corpo é uma multiplicidade de potências. (Já deu para entender? Se não entendeu eu não sei mais nem o que eu faço… porque é facílimo!) Em vez de você pensar que um corpo é uno, o corpo é múltiplo. É o que há de mais simples no mudo! Qualquer um sabe disso! Qualquer criança na rua sabe disso; que o corpo é uma multiplicidade… que de repende uma determinada potência do corpo puxa para cá, outra potência puxa para lá – há conflito de potências. (Entenderam?) Muitas vezes nós pensamos que tomamos uma atitude por que nós somos aquilo. Não, são as potências de nosso corpo que se confrontam e conduzem a nossa vida.

Eu vou contar um caso incrível para vocês: um cara está passeando com Nastassja Kinski na praia de Copacabana, e ela está toda apaixonada por ele. Ai passa um negão e ele sai atrás do negão. O que o levou a fazer isso? As potências do corpo, as potências da natureza, as potências da vida que conduzem para lá, que puxam para cá, levam para lá. São as tendências da vida – [são elas] que formam as nossas vidas. São as forças, as potências que nos conduzem. Não houve, agora, o caso de um cara que matou e estuprou uma criança? Pela vontade dele ele mataria? Nunca! Pela vontade, não! Foram as forças que o conduziram. Forças potentíssimas, que o conduziram a fazer aquilo. Outras forças não puderam passar alí e conter aquelas.

É a coisa mais fácil [de se entender]: muitas vezes nós não fazermos coisas que nós não queremos fazer? A nossa vontade não passa alí – mas as forças – que são as potências do corpo, muito mais poderosas que a nossa vontade – nos levam. Na verdade, nem é isso. A nossa vontade está sempre a serviço da potência que vence. Vejam se entenderam. A nossa vontade está sempre a serviço das potências que vencem. Essas potências se confrontam no corpo. A potência vitoriosa… […]

faixa-doacao

Isso quebra a teoria do livre arbítrio. Não há livre arbítrio; nós executamos as nossas vidas segundo as potências que nós temos. Se é aquela potência que está passando, é aquela potência que a vontade vai seguir.

É a coisa mais fácil do mundo! O que dificulta, sabe o que é? É o modelo clássico que nós temos do livre arbítrio. Isso é que confunde a gente.

Os estoicos estão dizendo que a nossa vida não se explica pela vontade – mas pela potência de expansão. Quando uma determinada potência vem – é ela que vai se afirmar, se não vier outra para inibi-la. Em Freud, há uma teoria da ambivalência, em que, por exemplo, nós odiamos e amamos alguma coisa ao mesmo tempo. É uma tolice: não é nada disso! O que ocorre é que, de repente, passa a potência do amor, e dali a pouco vem a potência do ódio e faz a do amor abaixar, passando a do ódio! São as potências que governam as nossas vidas!

Aluno: [inaudível]

Claudio: Se são do acaso? Depois eu vou explicar isso – como é que se dá o mecanísmo dessas potências. Mas nós entendermos que a nossa vida se constitui por esse campo de potências. Então, não é uma potência. São múltiplas potências – múltiplas! – que são constituintes das nossas vidas. (Posso dar por entendido?)

Aluno: Você vai andando pela rua, [inaudível] quer dizer, você vai entrando em contato com uma outra coisa…

Claudio: Você quer saber se… Não, não não! Não é o outro corpo que vai fazer eu odiar ou amar. O meu próprio corpo é feito de uma multiplicidade de potências; se vocês repararem nós odiamos, amamos, somos indiferentes e alegres com a relação à mesma coisa em cinco minutos! São essas potências que estão – o tempo inteiro – atravessando dentro de nós. Elas estão o tempo inteiro se defrontando para ver qual vai governar – é uma luta constante!

Aluna: [inaudível] essência dos corpos?

Claudio: São a essência dos corpos. A nossa essência é esse conjunto de potências. É isso que é a nossa essência.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Melancólica? [Aluno: É!] Evidente que sim, evidente que sim! Se de repente determinada força em você começa a governar, é assim que você vai entrar em relação com os outros corpos. [A partir da potência que vencer.] É evidente! Aquela potência começa a passar em você – sua relação com os outros corpos vem dalí. De repente outra passa, as coisas melhoram… ou pioram!

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não, porque a vontade… o que quer dizer vontade, C...? A vontade é alguma coisa que serve à ação da potência. Por exemplo, vencem em mim as potências da preguiça, eu sonho em ser preguiçoso, em não fazer nada. Isto – de ser preguiçoso – é uma potência que está passando em mim. O que eu faço com a vontade? Eu torno a vontade serviçal desta potência, e vou ser preguiçoso ad nauseam. Preguiçoso ao infinito. Boto a minha vontade a serviço da minha preguiça. Por exemplo, os filósofos, para serem filósofos, êles têm que conquistar o ócio. É impossível o filósofo ser filósofo sem ócio. Imagina o filósofo preocupado com o preço da banana! Ele nunca seria filósofo. Ele tem que se preocupar com outras questões. Então, ele tem que colocar a vontade a serviço daquela potência. Porque as outras potências, a potência que quer saber o preço da banana, também está atravessando. (Não sei se vocês entenderam…)

A vontade não é aquilo que decide em nós. O que decide em nós são as potências. A vontade está a serviço das potências. Isso rompe com a teoria da vontade livre. Rompe com a teoria do livre arbítrio. Não há livre arbítrio. Há vontade a serviço da potência. (O que vocês acharam?)

Aluno: [inaudível]

Claudio: Pode, pode, pode… Vou mais devagar aqui, vou mais depressa ali, mas ela está a serviço da potência. Em vez de você pensar que é a vontade que decide qual a potência que vai aparecer… é a potência que coloca a vontade a serviço dela. Fechando para vocês: é isso que, – em Nietzsche – se chama vontade de potência. A famosa vontade de potência de Nietzsche é isso! É a vontade a serviço da potência.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É sempre a potência que governa, a potência que manda. Ou seja, quando uma determinada potência me governa, o que essa potência quer? Ela quer produzir o mundo conforme ela é. Isso que a potência quer.

Aluno: [inaudível]

Claudio: É evidente que, para eu ir trabalhar, a potência tem que querer trabalho. É evidente! Esta é a grande questão do Ocidente. A grande questão para o nascimento do capitalismo foi a proletarização que vai se dar no nosso campo social a partir do século XVIII. E essa proletarização são práticas de poder estimulando as potências de trabalho. O que se faz no ocidente, é uma prática de proletarização. O que é a proletarização? É pegar os corpos e estimular neles as potências que interessam ao poder político. Então, produz-se estímulos de potências de trabalho. Por isso é muito difícil se pegar um primitivo e colocá-lo na força de trabalho, pois ele já está todo constituído e suas potências se dirigem para a pesca, para o amor – mas se dirigem com dificuldade ao trabalho. Então, para se produzir um corpo no nosso mundo tem-se que pegar a criança e começar a extrair dela as potências que interessam. (Deu para entender?) Porque a potência esta em você! Mas o que faz o poder político? Ele vai trabalhar naquele corpo, extraindo dele as potências que interessam a ele [poder político]. Imediatamente a vontade se liga àquela potência [estimulada] e eu digo: “que vontade de trabalhar!”. (Entenderam?)

Aluno: A sua razão não pode estimular potências que lhe interessam e produzir uma vontade livre?

Claudio: Não, não, não! Não senhor! Espera um pouco para entender. Daqui a pouco eu vou falar sobre a razão para você entender! Entender o que eu estou dizendo, é que um corpo é constituído por uma multiplicidade de potências. Então voce pega o corpo de uma criança, o que ele é? Uma multiplicidade de potências. O que você faz? Você estimula naquele corpo as potências que lhe interessam; ou seja, um campo social emerge pela prática estimulativa. Assim que se produz um campo social. Entrando em crise direta com o modelo marxista, para quem um campo social se constitui por repressão. Não é por nenhuma repressão, é por estimulação das potências dos corpos. (Não sei se entenderam…) O marxismo pensa que para se constituir um campo social tem-se que fazer práticas repressivas. Eu estou dizendo: não!, para se constituir um campo social, tem-se que estimular as forças que interessam. Por isso que a [questão da] educação é tão problemática. Por isso que a partir de meados do século passado nasceu no ocidente a escolarização obrigatória – porque a escolarização obrigatória é [para] extrair [daquela criança] as potências que interessam [ao sistema].

Aluna: [inaudível] a constituição de um campo social, é porque ele está pensando um novo [inaudível], não é?

Claudio: É porque ele está pensando a essência como atributo. É só isso, filha. É só isso! É só isso! Na hora que você pensa a essência como atributo, o homem já tem uma essência atributiva dentro dele, e as práticas políticas, então, seriam exatamente reprimir o homem. Não há repressão de homem nenhum! Pelo contrário. O que o campo político faz é produzir o homem, ele produz o homem – porque homem é isto que nós somos! Ou seja: as potências que foram estimuladas em nós, para constituir o que nós somos, é que nos tornou homens. Não o homem em essência o homem é uma prática política.

Aluna: [inaudível]

Claudio: Vamos com calma para vocês entenderem. Não tenta fazer teoria muito grande já não, A.… Vamos entender, filha. Certo? A minha tese neste instante é muito simples: a formação de um campo social não se dá por práticas repressivas na essência do homem; a formação de um campo social se dá por práticas estimulativas nas potências de um corpo.

Aluna: Pois é, mas as práticas estimulativas não estariam ligadas às práticas repressivas, porque…

Claudio: Não, filha. Não! De forma nenhuma! O que eu estou dizendo para vocês é que o campo social vai constituir agências estimulativas. Por exemplo, voce pega uma criança da família conjugal, moderna, capitalistica, século XX. O que se estimula nesta criança? Todas as suas potências econômicas. Todas as potências econômicas dessa criança são estimuladas. Não há sequer uma criança, nas nossas famílias, que não seja criada para vencer na vida. Vencer na vida no mundo capitalista é fazer o quê? Trabalhar! Estimular as potências do trabalho será exatamente o modelo das nossa instituições. (Não sei se vocês entenderam…)

Não há sequer uma família… qualquer família pega sua criança e faz o que naquela criança? Estimula nela o quê? As potências do trabalho. No nosso mundo é sempre a mesma coisa – produz-se uma criança economicamente fortíssima. Economicamente forte, quer dizer o quê? Todas as potências do trabalho são estimuladas naquela criança.

Querem ver uma coisa? De repente chama-se o psiquiatra numa família. Por quê? Porque uma criança, numa família, não está sendo estimulada pelo trabalho. Está se derivando. A deriva dela é porque a prática estimulativa não está funcionando. Aí aparecem as instituições para fazer essa prática de estimulação – a psicologia, a psiquiatria são as fábricas estimulativas… para trazer aquela criança para o campo social. (Entenderam?)

Vou fazer uma narrativa do Michel Foucault. O Foucault diz que era um homem triste, muito triste, porque ele vivia em um campo social em que as forças de dominação se dão diretamente no corpo da criança. Isso o entristecia. A prática de estimular aquela criança para produzir o homem que interessa para a família. Isso produzia nele uma imensa tristeza. Uma imensa tristeza. E essa prática geraria homens sem nenhuma potência política. Nós teríamos as nossas potências econômicas altamente estimuladas, mas as potências políticas estariam inteiramente fechadas. (Não sei se entenderam…) Potências políticas – se as potências políticas passassem, o capitalismo já teria desaparecido, porque nós não suportaríamos esse modo selvagem de vida; não suportaríamos o que nós somos. Então, o capitalismo estimula o tempo inteiro as nossas potências econômicas – mas não deixa passar as potências políticas. Não deixa passar. Não há nenhuma instituição no nosso campo social que seja estimuladora das potências políticas. A estimulação das potências políticas nos levaria, necessariamente, a fazer transformações sociais; pois quando se estimula uma potência, ela se torna criativa. Nós somos criadores constantes no campo econômico. Sempre criadores no campo econômico. Sempre! Nós não paramos de inventar meios de produzir mais “grana”. Sempre! Por quê? Porque aquilo é estimulado. Se você estimular as potências políticas de um homem, o que vai acontecer? O campo social vai se romper. (Não sei se entenderam…) Então não seria possível que o capitalismo fosse fazer isso. Porque senão ele teria se destruído. (Deu para entender aí? Então eu vou parar dez minutos para vocês tomarem café e eu retomo, tá?)


2ª Parte:

O instinto é inato. Ele não depende de nada para existir, (certo?) É o instinto que me leva a procurar as coisas – não o afeto. O afeto é alguma coisa que só aparece em mim se algo vier de fora e excitar a aparição desse afeto. O afeto é produzido. Ele é uma composição com outro estimulador.

O exemplo do carrapato é nítido: o carrapato é estimulado pela luz. Então, o que acontece? O afeto pela luz aparece, ele se compõe com a luz. A luz se compõe com o afeto. O que o carrapato vai fazer é procurar os pontos mais altos, onde a luz bate mais, [para se instalar]. Quando ele chega aos pontos mais altos ele para. Por quê? Porque é ali que a luz mais o afeta. Aí ele para. Ele vai sempre para os galhos de árvore. Chegando aos galhos mais altos, nada mais o afeta. Ele fica parado ali – olha que coisa incrível – 15, 16, 17, 18 anos, sem fazer nada! Em pleno jejum. De repente, passa por baixo dele um animal de sangue quente. Este animal de sangue quente produz nele um afeto, e ele cai em cima. Esse afeto afeto pelo sangue quente nunca apareceria se o animal não passasse. O afeto pressupõe a presença do estimulador. (Não sei se entenderam…) A idéia de afeto é diferente da idéia de pulsão e de instinto porque o afeto é aquilo que só existe em composição. Não há falta, só composição; só há o que se chama – agenciamento. (Entenderam?)

A única coisa que eu quero que vocês entendam, é que a teoria do afeto não é a teoria do instinto e não é a teoria da pulsão. A teoria do afeto – o afeto é aquilo que para existir pressupõe um estimulador – porque o afeto não funciona sozinho. Ele só funciona em agenciamento. Ele está agenciado, ele existe. Não está agenciado, não existe. (Ficou difícil, não é?)

Eu não estou definindo o afeto – eu estou dizendo como ele funciona. É isso que eu estou fazendo. Em vez de definir o afeto, eu estou [descrevendo] o funcionamento do afeto. Não me importa defini-lo. Importa-me dizer como ele funciona. Ele funciona dessa maneira: o afeto é alguma coisa que para existir pressupõe o estimulador. (Certo?) É preciso que alguma coisa o estimule, para que aquele afeto exista.

O carrapato é citado porque ele só tem três afetos. Só há três meios de o carrapato ser afetado: luz, sangue quente e suor. Só essas três coisas afetam o carrapato. Se não houver essas três coisas o que ele faz? Literalmente não se move. Isso que eu estou chamando de afeto. O afeto é alguma coisa que não pode ser entendida por definição – só pode ser entendida por funcionamento.

Aluna: Ele não é produto do agenciamento?

Claudio: O afeto seria o próprio agenciamento. O afeto só se entende por função. Olhem a palavra que eu estou usando: função! Ele não pode ser definido. Ele não pode ser explicado por nada. Porque ele é um funcionamento. Ele é algo que funciona. Isso que é o afeto.

Então, pelos afetos os corpos fazem os agenciamentos. (Não sei se vocês entenderam… Acho que eu não fui feliz… O que você acha, C..., tranquilo?)

Os corpos vão se agenciar pelos afetos. Então, o que é exatamente a relação dos corpos? A relação entre os corpos é uma relação afetiva – eles fazem agenciamento por afetos. Eles vão fazendo a sua existência [através das] composições afetivas. Mas eu disse a vocês que não há sequer um afeto que funcione sem estimulação. Não há possibilidade disso. O que implica em dizer que os afetos podem ser inventados. Pode-se produzir afetos que você não tem. Na verdade, nós não temos nenhum afeto – os afetos são produção de estímulos.

Eu posso pegar uma criança que nunca viu um livro e começar a agenciá-la com livros – e ela pode criar afeto pelo livro. Ela passa a fazer um agenciamento afetivo com o livro: ela passa por um livro, para e olha – como a gente passa pelas livrarias e tem que olhar, (não é?) Ela vai criando afetos.

Eu posso pegar um brasileiro, ainda que isso pareça impossível, e fazer com que ele deixe de se afetar pelo samba do terreiro e se afete por ópera. Por estimulação. Mozart, por exemplo, é uma invenção afetiva do pai dele, que o pegou aos quatro anos de idade e só jogou música em cima dele, música em cima dele, música em cima dele, afetando, produzindo afeto. Aí, aquilo emerge, nasce a composição. O afeto não é um sentimento, não é uma paixão, não é uma emoção – o afeto é aquilo que faz a composição dos corpos, o agenciamento dos corpos.

Deixa eu só fechar aqui, olha que coisa interessante: os povos nômades são aqueles povos que foram forçados a ir para as estepes e para os desertos. (Eu não pretendo contar aqui toda a história dos povos nômades). Eles foram para a estepe e o deserto por forçamento político, mas quando eles chegam no deserto e na estepe eles têm um problema – que é a alimentação. Lá não é como na planície. Então, eles vão tornar os animais deles produtores de alimentos. Eles começam a relacionar os animais deles com aquela grama rasteira que dá no deserto, porque os animais se afetam por aquela erva. E, os animais entrando em composição com aquela erva, tornam-se produtores de sangue e de leite, eles geram animais “fábrica de alimentos”. Por isto, a relação de um nômade com um animal não é a mesma que entre o sedentário e o animal. Por que o sedentário torna o animal carregador de carga; e o nômade torna o animal produtor de alimentos. Eles têm uma composição diferente. Nós não podemos pensar a relação do nômade com o animal conforme a nossa relação – pois aquilo ali funda um novo campo afetivo. (Não sei se vocês entenderam…) É completamente diferente a literatura do nômade sobre os animais, e a literatura animal aqui, no nosso mundo sedentário. Porque os animais para nós servem diretamente a nós – enquanto para o nômade ele é fábrica de alimento e instrumento de guerra. É completamente diferente o uso que eles fazem, do uso que nós fazemos. Ou seja: voce pega uma criança nômade e vai gerando nela um afeto pelo animal, vai produzindo um afeto nela. Por isso, a relação de uma criança com um animal no mundo nômade é completamente diferente da nossa.

Aluno: [inaudível] encontro de corpos, não é?

Claudio: Agora eu reduzi para o encontro dos afetos. Aquilo já está ultrapassado. Agora, realmente, o encontro de corpos são composições afetivas. Eu passei do encontro de corpos, para encontros afetivos. O que realmente faz com que um corpo se encontre com outro são os afetos. Por que é que eu respiro? Porque o ar afeta meu pulmão, aí eu respiro!

Aluna: Os afetos são agenciamentos?

Claudio: Os afetos são agenciamentos. Não são nem pulsões nem instintos. Eles são produtores de agenciamentos. (O que vocês acharam? Ficou muito difícil?)

Aluna: [inaudível]

Claudio: Não. O agenciamento de afetos é agenciamento de corpos, que gera… acontecimento. Gera acontecimento. Os corpos fazendo encontros, geram acontecimento.

Aluna: [inaudível] respirar…

Claudio: Você tenta pensar isso. Porque eu estou dizendo que você vai respirar, porque você é afetada no corpo. Você é afetada! Se voce colocar, por exemplo, um homem nas trevas, ele vai viver lá, sem sentir a falta da luz. Ele só ganha o afeto na hora em que alguma coisa vem estimulá-lo. Aí ele vai funcionar. É pensar o corpo vivo como função. E essa categoria de função é matemática. Depois eu passo para vocês. Essa idéia de função – é que um corpo só funciona através de composições afetivas. Senão ele paralisa.

Isso é tão fácil! Isso faz parte das nossas vidas. Nós nos movemos somente em função daquilo que nos afeta. Senão nós não nos movemos! Ninguém vai se mover por aquilo que não o afeta. É só o campo dos afetos que gera os nossos movimentos. Nós vamos fazendo composições afetivas e constituindo o nosso corpo. Pelas composições de afeto que a gente faz. Você pega o telefone e liga para a sua mulher, depois liga para o seu pai e, dalí a pouco para um credor. Olhem como essas três composições de afeto geram vozes diferentes; geram vozes, geram acontecimentos diversos! Porque o que eu estou dizendo é que todo o universo é feito por esse campo de afetos. Por que um homem faz literatura e o outro faz cinema? O que é isso? São campos afetivos. Os campos afetivos vão produzindo as nossas vidas!

Agora eu vou dar uma explicação concreta: há um tempo na história, eu não posso precisar (se tiver alguém que precise essa história para mim…), em que houve a invenção do estribo. Colocaram estribo nos cavalos. Na hora em que puseram estribo nos cavalos, o agenciamento que o homem fazia com o cavalo se modificou. Modifica-se o agenciamento do homem com o cavalo. Nasce a possibilidade de haver a guerra com lança, nasce a possibilidade da armadura; novas relações de corpos vão se formando, e vão se gerando novos acontecimentos.

Agora, eu vou dar como mais ou menos entendido essa questão do campo dos afetos, e vou passar a explicar o que vem a ser acontecimento.

O acontecimento é todo campo do nosso saber. Os afetos é o campo do nosso poder, e o acontecimento é o campo do saber. O que nós falamos, sobre o que nós falamos? O que nós vemos no mundo? Nós vemos e falamos sobre as nossas relações de corpos. O nosso mundo não é um mundo em si mesmo; o nosso mundo é sempre produto das relações de corpos que nós fazemos ao longo da vida. Por exemplo, o saber do mundo medieval não é o mesmo saber que nós temos no século XX. Por que não? Porque eles não falavam e não viam as mesmas coisas. O acontecimento é o campo do saber; é o atributo. E os corpos são as forças.

Quando nós usamos o discurso é para falar exatamente sobre o mundo em que nós vivemos. Por exemplo, se eu disser para vocês que um homem está louco, “aquele homem está completamente louco“, é possível que alguém diga assim “leve este homem ao psiquiatra para tentar curá-lo“? É possível que alguém me diga isso? Sim, é possível. Mas isso não podia ser dito no século XVII. Não podia ser dito, de maneira nenhuma – porque o encontro do corpo do louco com o corpo do psiquiatra ainda não tinha se dado. Aquilo que pode ser dito pressupõe o encontro dos corpos. Senão, não pode ser dito. Não pode ser dita qualquer coisa em qualquer tempo.

Hoje os jornais não podem dizer que determinadas famílias são criminosas porque não mandam os seus filhos para a escola? Por quê? Porque no nosso tempo a escolarização é obrigatória. Mas no século XVIII não era. Você só pode dizer alguma coisa depois que aqueles corpos fizeram a composição. Os enuciados que nós produzimos ao longo da vida, são enunciados efeitos das composições dos corpos. (Não sei se vocês entenderam…) É a coisa mais fácil: quando é que nasce a escolarização obrigatória? Em meados do século XIX. A partir do momento em que a escola fez uma composição com os corpos das crianças, qualquer homem pode dizer – “é um absurdo não mandar essa criança para a escola!“. Mas apenas a partir daquele momento – antes não! Isso não acontecia antes. Todos os enunciados que nós produzimos se originam nesse movimento dos corpos. (Como é que você foi?)

Aluna: A questão da produção do estribo para o cavalo…

Claudio: Modificou a guerra… O estribo é uma criação. Não existe essa coisa de necessidade, não. Não, não há necessidade de nada.

Aluno: Mas, particularizando o caso do estribo, foi uma necessidade realmente não tanto para que a pessoa se equilibrasse, mas para que pudesse montar no cavalo.

Claudio: Não! Se você dissesse isso para o nômade, ele ia te olhar com a cara tão feia… porque ele sabe pular em cima do cavalo.

Aluno: Os nômades têm estribo. Aqueles peles vermelhas é que não…

Claudio: Os nômades têm estribo agora. Têm estribo agora! Eles nunca tiveram estribo! Você sabe o que era o nômade? O nômade era chamado “perna magra”. Eles tinham a perninha magra, preparada exatamente para montar nos cavalos a pêlo. Tanto que as mulheres nômades tinham que aprender a ter desejo sexual por perna magra. Que as pernas magras eram consideradas bonitas.

Na hora que aparece o estribo, é aí que vão ser geradas, por exemplo, as cruzadas. As cruzadas seriam impensadas sem os estribos.

Aluno: Nos documentos antigos que retratam as guerras greco-romanas…

Claudio: Você não encontra estribo. Você tem um agenciamento de corpos… Inventaram o estribo. Inventaram a armadura. Inventaram os torneios. Inventaram os cavaleiros. Inventaram o amor cortês.

Aluno: Olha, a lança era apoiada no pé dos cavaleiros. E para isso, precisava obrigatoriamente ter o estribo, do contrário não funcionava.

Claudio: Exatamente. Quando se inventou o estribo, não modificaram as máquinas de guerra? Modificaram as máquinas de guerra, permitiu-se o acontecimento invasão do oriente – as cruzadas. O acontecimento vai se liberar por esse movimento dos corpos.

Por exemplo: quando é que nós começamos a pensar em visitar a lua? No momento em que pelo menos nós passamos a entender que a gravidade é uma foça e que essa força só pode ser vencida por aceleração. Pronto! Quando se fazem determinados agenciamentos de corpo, aí o acontecimento emerge. De imediato o acontecimento emerge.

Vocês podem ler um livro do Georges Duby – que saiu agora – chamado Idade Média, Idade dos Homens. Leiam o livro para vocês verem esse acontecimento chamado cavaleiro. É um livro lindíssimo que saiu agora.

Toda a natureza se constitui por composições afetivas. Essas composições afetivas geram o acontecimento. Composições afetivas chama-se campo do poder. Acontecimento, campo do saber. (Isso deixa para as próximas aulas.)

Como muita gente perdeu, eu reproduzi a última aula e deixei o campo de saber para a próxima.

Então, o campo de saber pressupõe o campo do poder. Que é alguma coisa que nós não entendemos bem no mundo moderno. Nós pensamos que o saber nada tem a ver com o o poder. Ou quando pensamos que o saber tem alguma coisa a ver com o poder, falamos asneiras sobre o poder. Poder não é o poder do Estado. Poder é o poder dos corpos. Isso que é o poder. É o poder que os corpos têm de fazer composição com os outros corpos. E aí vai nascendo o que se chama saber. Que é o acontecimento.

Então está aberto para vocês falarem, que eu vou terminar, que eu já não aguento mais. (Certo?) Mas eu acho que foi bem.

De alguma maneira, eu reproduzi a aula passada. Não fui muito fundo, mas na próxima aula eu vou começar a explicar campo do saber para vocês, logo – teoria das atribuições… eu tenho que penetrar cada vez mais fundo.

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Aula de 28/03/1989 – O corpo e o acontecimento

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[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 5 (A Fuga do Aristotelismo); 7 (Cisão Causal) e 10 (Estoicos e Platônicosdo livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 


Parte I

Hoje… não sei se conseguirei alcançar isso; vou tentar! – eu vou começar a colocar vocês no que se chama – teoria do acontecimento. Qualquer leitor do Gilles Deleuze, por exemplo, verifica que a obra dele toda se sustenta no que eu estou chamando de teoria do acontecimento. Agora, ao colocar vocês dentro dessa teoria – para vocês compreenderem mesmo o que é isso – é uma batalha! Então… preparem-se para a batalha!

É realmente um movimento de pensamento cruel! Para vocês entenderem – exatamente – o que é a teoria do acontecimento, [nós teremos] que passar pelos gregos, passar pelos modernos… e, se eu não obtiver êxito, [a gente retoma na] próxima aula: tem que haver êxito! Então, nós começaremos a aplicar nas práticas… – e vocês vão verificar o que vai acontecer. Eu não acredito que eu consiga passar a teoria do acontecimento numa única aula – vamos ver se eu consigo, não é? Eu vou me esforçar para isso!… Se eu não conseguir – eu acredito que na aula que vem a gente feche.

O que eu pediria a vocês é muito simples: quando eu começar a minha explicação, se eu for obscuro, vocês não deixem passar. Ninguém deixa!

É evidente que em determinados momentos da explicação pode aparecer uma obscuridade – eu posso colocar mal! Aí, se vocês não entenderem bem, vocês coloquem – porque todo o movimento que eu estou fazendo é para passar uma teoria do acontecimento: é isso que eu estou visando nesta aula.

Então, vamos começar! Eu vou usar – indistintamente – seja o que for necessário para vocês compreenderem: um filósofo, outro filósofo… – qualquer coisa! – desde que, com isso, eu possa ­levar vocês à compreensão. Então, nós vamos começar. Tá?

Essa aula vai ser uma aula realmente filosófica! Por isso, eu vou ser muito lento: lento e calmo!

Um filósofo do século XVII – chamado Leibniz – fez o que se chama uma teoria da proposição. (Não é preciso já saber o que é proposição – daqui a pouco a gente vê isso; não tem problema!) Em todas as proposições – onde quer que haja proposições – necessariamente aparece um sujeito da proposição, um predicado da proposição, e – entre o sujeito e o predicado – o verbo ser na terceira pessoa do singular. Então, uma proposição é – “Esta mesa é bonita”“A casa é feia”“Regininha é da USP” – (Certo?) Um sujeito, um predicado e o verbo ser – necessariamente o verbo ser – na terceira pessoa do singular – ou seja: “é”. (Certo?) O que mostra que o verbo ser não está nem no passado nem no futuro: ele está no presente. Bom. O problema da proposição é lançado – em primeiro lugar – em cima do su-jei-to! A questão é:

Quem pode ser o sujeito da proposição?

Notem que sujeito da proposição pode ser muitas coisas. Eu posso dizer: “O homem é bonito” – neste caso, o sujeito é… O homem. Eu posso dizer: “O animal é um ser vivo” – neste caso, o sujeito é… O animal. Ou eu posso dizer: “A Regininha é branca” – neste caso, o sujeito é… A Regininha.

Leibniz quer saber se pode haver um sujeito da proposição que – em momento nenhum – possa ser predicado.

– O que quer dizer isso?

Na hora em que eu digo: “O homem é bonito”, o sujeito é homem. Mas eu posso dizer: O Robertinho é homem. E, nesse momento, o sujeito da proposição que era homem – tornou-se um predicado. Entenderam a questão?

– Qual é a questão do Leibniz?

A questão dele é verificar se há algum sujeito da proposição que, em momento nenhum, possa ser predicado. (Certo?) E o sujeito da proposição, que em momento nenhum pode ser predicado, chama-se – singularidade. Por exemplo – tudo aquilo que puder ser apontado com o dedo. Ou, de outra maneira, todos os indivíduos: “Regininha é branca”, quer dizer que Regininha ou Cláudia, Robertinho, Luiz, esta mesa, este maço de cigarros… só podem ser sujeitos, mas – em momento nenhum – podem ser predicados. Porque eu posso dizer: “Luiz é homem” – mas não posso dizer: “Robertinho é Luiz”. Ou seja: esse sujeito não pode virar predicado. (Vocês entenderam?) Isso se chama “o último sujeito”. O último sujeito é aquele que – simultaneamente – é uma realidade existencial.

Vocês não fiquem me olhando com essa cara – [por gentileza]. Eu sei que muitos outros entenderam. O último sujeito é uma realidade existencial. Porque “O homem é bonito”, vocês já aprenderam que “O homem” pode ser transformado em predicado. E “O homemnão é uma realidade existencial. Realidade existencial são os indivíduos. Então, o indivíduo – que é o último sujeito – é a única realidade existencial.

Eu não vou falar mais, eu vou esperar as perguntas!…

Aluno: [inaudível]

Claudio: Mas é isso que eu estou dizendo!… O último sujeito é da ordem lingüística, mas recobre algo da ordem existencial. Por isso, o último sujeito também é chamado de substância primeira Porque o último sujeito tem uma realidade existencial. (Deu para entender?)

(Não há pressa! Não adianta ninguém ficar com pressa… – nós vamos ter que entender, vai ter que ter calma!)

Vamos, E., qual é a dúvida que você teve?

Aluna: [inaudível]

Claudio: Realidade existencial? É a coisa mais simples! É aquilo que e-xis-te! Porque é evidente que “O homem” não tem nenhuma realidade existencial!? Ou alguém já se encontrou “O homem” na rua? Não! Nós só encontramos “este homem. Então, último sujeito é aquele que recobre a existência. Ou: o último sujeito é aquele que aponta para o real. É uma designação na ordem da linguagem. Uma designação na ordem da linguagem – [que] aponta para o real, entenderam?

Então, quando eu tiver falando em proposições, eu vou sempre colocar como sujeito das proposições, o último sujeito, que é – simultaneamente – a substância ontológica. Vejam se entenderam essa palavra — substância ontológica. É muito simples! O último sujeito é aquele que tem realidade independente do discurso. É o chamado – extra-discursivo: aquele que tem realidade extra-discursiva. Então, o último sujeito é simultaneamente uma substância primeira. (Entenderam?)

(Meus filósofos da UERJ – todos entenderam? P., R., T., L., entenderam?)

Todo mundo entendeu, então, o que é o último sujeito, não é? Então, já sabemos o que é o último sujeito: o último sujeito é – simultaneamente – uma realidade ontológica. (Certo?) Então, é o momento em que a realidade existencial e a realidade do discurso fazem balé – se juntam! (Tá certo?)

Agora: na teoria das proposições há sempre um sujeito e um predicado. E o que liga o sujeito ao predicado é o verbo ser na terceira pessoa do singular. Logo, o verbo ser – na teoria das proposições – tem função copulativa. (Entenderam?) A função do verbo ser é apenas co-pu-la-ti-va – liga o sujeito ao predicado. (Certo?)

(Entenderam? Todo mundo entendeu?)

Agora: na hora que eu faço uma proposição… Eu vou fazer uma proposição agora… Olhem a proposição que eu vou fazer… Mauri – posso chamar Mauri de último sujeito? Posso, porque Mauri é uma realidade ontológica. (Certo?) Eu vou dizer duas coisas sobre Mauri: “Mauri é homem” e “Mauri é branco”. (- Deixem de lado!)

Agora, vejam bem: essa tese diz que – no uso do discurso – nós somos capazes de produzir o conceito. Nós, os sujeitos humanos – na ordem do discurso – produzimos o conceito.

– O que é um conceito?

Eu vou dar uma definição negativa do conceito. O conceito é – no discurso – tudo aquilo que não for o último sujeito, o verbo ser, e as entidades de ligação. O conceito são, no discurso, as espécies e os gêneros – O homem, O branco, O cachorro, O verde, O amarelo, O pesado… (Estão entendendo?)

– O último sujeito é um conceito? Não!

– O verbo ser é um conceito? Não!

O conceito são as entidades gerais. O homem – é uma entidade geral. O branco – é uma entidade geral, A cadeira – é uma entidade geral. Então, o conceito são as entidades gerais discursivas. (Entenderam?) Olha lá, P. Pegou mesmo? T.? Certo? Atenção! “Mauri é homem”. Cadê o conceito? Homem, certo? Entenderam?

Então, na hora que eu produzo um conceito – “O homem”, “A cadeira”, “O verde”, “O branco” – ele, o conceito isolado, não é verdadeiro, nem falso. Um conceito isolado não é nem verdadeiro nem falso – é apenas um conceito. Mas na hora que eu coloco o conceito na proposição... Logo: “Mauri é homem”– há uma diferença entre dizer: “O homem” e “Mauri é homem”. Na hora que eu digo: “O homem” – é o conceito isolado; não é verdadeiro, nem falso. Na hora que eu [insiro] o conceito na proposição; pelo fato de ele estar na proposição – ele é verdadeiro ou falso.

O conceito isolado chama-se conceito. O conceito na proposição (Atenção! Isso aqui é importantíssimo!) chama-se atributo.

Mauri último sujeito; éverbo ser, verbo copulativo; homem – atributo.

Então, a palavra homem pode ser conceito? Pode, quando estiver sozinha. Pode ser atributo? Pode, quando estiver na proposição. (Entenderam?)

– Entenderam o que é o conceito?

O conceito se transforma em atributo, no momento em que o conceito está na…

Alunos: Proposição!

E toda proposição é verdadeira ou falsa.

– Posso dar por entendido?

Então, como é que se chama o conceito na proposição?

Alunos: Atributo.

Agora eu vou produzir duas proposições: “Mauri é homem” e “Mauri é branco”.

– Homem é o quê? Atributo!

– Branco é o quê? Um atributo!

Agora, vocês vão ver que, no reino do atributo, existem dois tipos – o atributo essencial e o atributo acidental. Homem – é o atributo essencial do último sujeito “Mauri”. E branco – é um atributo acidental do último sujeito “Mauri”. Logo, o campo do atributo se divide em essencial e acidental.

(Eu vou parar e esperar! Vejam se vocês entenderam!)

– Quantos atributos? Dois! Essencial e acidental. (Certo?)

O atributo essencial é aquele que dá a essência do último sujeito… ou a essência da substância primeira. (Certo?) E o atributo acidental é aquele que dá os acidentes da substância primeira ou do último sujeito. [São as chamadas] categorias. Todo último sujeito possui a sua essência e vários acidentes.

Consegui! Consegui!

Lembrem-se da distinção de atributo para conceito, hein? O conceito isolado – ou – como se diz em filosofia – o conceito “enlaçado”. Enlaçado é o conceito ligado ao verbo ser – vira atributo. Desenlaçado, quer dizer que ele não está ligado ao verbo ser – é apenas um conceito.

– Onde há o verdadeiro ou falso?

Apenas na proposição. Só nela que o verdadeiro ou falso aparecem. (Certo?) Quando eu produzo uma proposição em que o atributo é essencial – querem me dar um exemplo de atributo essencial, por favor? “Mauri é homem”. Vou dar outro exemplo de atributo essencial: “Esta mesa é mesa”. Porque a segunda mesa de “esta mesa é mesa” – que é o conceito enlaçado, logo o atributo – é a essência desta mesa. O atributo essencial – na proposição – constitui o que se chama proposição analítica. E o atributo acidental, constitui a proposição sintética – no sentido de que os acidentes ou atributos acidentais podem variar, sem que se modifique o atributo essencial. Na verdade, desaparecido o atributo essencial – desaparece o último sujeito.

( Olha – eu nunca ouvi uma explicação tão clara, em toda a minha existência filosófica! Só não compreende quem não quiser!)

(Tá aberto para perguntas – já vou abandonar! Vou abandonar! Não tenho mais o que dizer aqui…)

(Bom. Abandonei! Agora, atenção para o que eu vou dizer:)

Aparece uma escola de filosofia – não importa o nome dela – que chega à conclusão que as únicas coisas que existem são os últimos sujeitos – não existe mais nada! (Certo?) Só existem os últimos sujeitos!

Então – para essa escola de filosofia – esta mesa existe? Este isqueiro? E lá (aponta uma aluna) existe? Todos os últimos sujeitos existem! Ele chama os “últimos sujeitos” de corpos. Então – para essa escola – só existem os corpos, (certo? Não sei se está claro!?)

Essa escola tem a preocupação de produzir o verdadeiro e o falso. Se ela tem a preocupação de produzir o verdadeiro e o falso – o que ela tem que fazer? Produzir… proposições!.. . Ela tem a preocupação de produzir o verdadeiro e o falso… – o verdadeiro e o falso passam por onde? Pelas proposições!

Então, ela tem a preocupação de produzir o verdadeiro e o falso. Mas essa escola – nós não sabemos nem por que – não vai trabalhar com essências e acidentes. Logo – ela não vai querer trabalhar com atributos essenciais e atributos acidentais.

– Por quê? Porque eles não gostam de essências e acidentes? Não! Não!

Alguma coisa diferente está acontecendo aqui… Porque – surpreendentemente – essa escola vai dizer que um corpo, durante toda a sua existência é – absolutamente igual a si próprio. (O que é uma maneira incrível de se ver – e que eu vou ter que lançar e deixar para explicar mais para a frente, para vocês entenderem…) Eles vão dizer que um corpo não recebe acidentes diferenciais – conforme a outra escola havia colocado: aquele corpo é sempre a mesma coisa! (Essa explicação não foi boa: foi inteiramente obscura… Logo, eu vou voltar à explicação dessa escola, certo? Mas antes, vamos fazer uma revisão nos nossos saberes…)

Qual é o objetivo dessa escola? Produzir o verdadeiro e…

Alunos: o falso!

E só se produz o verdadeiro e o falso por…

Alunos: Proposições!

As proposições são sujeito, verbo ser e atributo, (certo?) Isso são as proposições. Essa escola então estabelece que ela não vai trabalhar com o verbo ser. Ela não vai trabalhar com o verbo ser, e vai colocar que – em vez de substantivos e adjetivos – os atributos serão os verbos.

Vou fazer um ponto – e explicar tudo outra vez! Olha, ninguém precisa sofrer – eu garanto que vocês vão entender! Agora… – que é difícil, é.

– Qual é a questão dessa escola?

Produzir pro-po-si-ções, (certo?)

Segunda questão da escola:

Não trabalhar com o verbo ser: não trabalhar com o verbo copulativo.

Mas – ela tem uma preocupação de produzir atributos. E os atributos que ela irá produzir não serão com substantivos e adjetivos.

– A primeira escola produz atributos com substantivos e adjetivos? Sim! A segunda produz atributos com o verbo no infinitivo… ou na forma gerundial – sem o verbo ser.

(Vou parar um instante. Vou descansar dois minutos, que os rostos não estão bons… O que você achou, O.? E você, P.?)

A única coisa que importa aqui, é que essa escola se preocupa em produzir proposições: logo, se preocupa em produzir o verdadeiro e o falso… (certo?) Ela vai produzir proposições, logo: vai produzir atributos – mas esses atributos não serão ligados pelo verbo ser.

– Quantos tipos de atributos a primeira escola tem?

Dois: essencial e acidental. Nessa segunda escola, os atributos não vão ser nem essenciais nem acidentais: vão ser os acontecimentos – e o acontecimento é aquilo que não se diz nem pelo substantivo nem pelo adjetivo; diz-se pelo verbo na forma gerundial. Então, nessa escola, vão acontecer coisas desse tipo: eles nunca dirão “Esta árvore é verde”; eles dirão: Árvore verdejando. Eles nunca dirão “O homem é alto”; eles dirão: “O homem altante”.(Vejam se estão entendendo…)

O que eles estão fazendo? Eles estão querendo produzir um duplo rompimento. Rompimento com o verbo ser e rompimento com os atributos essencial e acidental – gerando a ideia de acontecimento. (Eu acho que eu não fui bem, hein? O que você achou, P.? Aqui é muito simples! Ninguém precisa fazer teoria muito difícil…)

– Neste momento da aula, quantos atributos existem?

Três: essencial, acidental e acontecimento... (Certo?) São os três atributos possíveis! Se vocês procurarem na história da filosofia outros tipos de atributo, vocês não vão encontrar! Só há esses três. Quais? Essencial – que é a proposição analítica. Acidental – que é a proposição sintética. E agora tem outro tipo de atributo – que é o acontecimento.

O acontecimento exclui da proposição o verbo ser. Exclui o verbo ser. Então, sempre que vocês encontrarem teóricos do acontecimento, vocês não irão encontrar o verbo copulativo. (Certo?)

Agora vamos ver três proposições, com três atributos diferentes:

“Mauri é branco”; “Mauri é homem” e “Mauri sentado”. Sentado é o acontecimento! (Certo?) O atributo da segunda escola se diz com o verbo na forma gerundial.

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(Agora eu vou esperar um instante para as possíveis perguntas! Já dá para colocar alguma… Já dá! Se não der… – a explicação não está boa!)

Aluno: [inaudível] o acontecimento…

Claudio: Não, não! Se tiver que ir por aí, é numa fase muito posterior. Agora, não! Agora, o que se tem que fazer é uma distinção de três atributos – essencial, acidental e acontecimento. (Eu vou trabalhar fundo, nisso daí, com vocês! Fundo nisso! Vou começar).

– O que eles excluem?

Eles excluem o verbo… ser. (Mas vocês estão sem ênfase!)

Vejam bem: na hora em que eu estou na primeira filosofia o verbo ser está presente? Eu digo “Mauri é homem” e digo “Mauri é branco”. O verbo ser significa que o ser pode ser análogo. O ser pode ser acidental e pode ser essencial. A primeira tese diz que quando nós produzimos a proposição, produzimos o verbo ser como essencial, e o verbo ser como acidental – isso se chama ser análogo: o ser é ora acidental, ora essencial. (Muito bem! Vou tomar como mediamente entendido. Eu volto, tá?)

Na outra teoria, na proposição tem o verbo ser? Não tem o verbo ser! Esses outros teóricos vão dizer que o ser é o último sujeito. Atenção! Eles deslocaram: já não é mais o verbo. O ser é o último sujeito. Então, na segunda teoria – vejam bem! Mauri é corpo? É… Mauri é corpo!…

(fim de fita)


Parte II

(…) Porque ser é apenas o último sujeito. (Não foi bem. Bambeou…)

– Na segunda teoria quem é o ser? Na segunda teoria esta mesa é ser? E, na primeira teoria, o atributo é ser?

Na segunda teoria, só o último sujeito é ser. O atributo passa agora a se intitular não-ser. O atributo passou agora a se intitular não-ser. (Prestem atenção que nós vamos em frente!)

– Então, quando eu digo: “Maurício sentado”, o que é que eu fiz? Eu disse ser e não-ser. Porque o acontecimento ou atributo, na segunda teoria, não é ser. Por um motivo muito simples: porque na segunda teoria ser é apenas o corpo – e “sentado” não é corpo. Então, na segunda teoria, os atributos chamam-se não-seres. Se os atributos chamam-se não-seres, o último sujeito chama-se ser. Se o último sujeito se chama ser, o ser são os corpos e os atributos não são corpos. Logo – são incorporais. Está aparecendo a famosa teoria dos incorporais.

O atributo, na segunda teoria, não é um corpo-é um incorporal. (Eu vou dar um ponto, para descansar. Eu não sei se eu fui feliz… Vocês foram bem aqui?)

(Atenção – Atenção:)

– Na primeira teoria, quantos atributos existem?

Dois. Olhem que interessante!

– Quais são os dois atributos?

Essencial e acidental. O atributo essencial (olhem, que isso é fundamental, hein?) é um ser de razão. O atributo essencial só existe na razão. Homem não existe no real. Só na razão. E o atributo acidental é algo que acontece no corpo da substância primeira. O atributo acidental também é um corpo. O atributo essencial é um ser de razão… e o atributo acidental é um corpo no corpo da substância primeira. Agora, na segunda teoria, o atributo não é nem um ser de razão nem um ser real – é um não-ser, um irreal, um incorporal.

[Claudio fica em pé e pergunta:]

– Isso aqui é o quê?

Isso aqui é um corpo! Olhem “eu andando”. Eu estou andando. O corpo do Claudio andando. Se vocês vierem e me tocarem, vocês vão tocar no meu corpo. Mas no “andando”, não. “Andando” é um incorporal. (Entenderam?) Nessa teoria, os atributos são…? Incorporais! (Entenderam?)

– Qual é a diferença do atributo essencial para o atributo acidental?

Um é um ser de razão, o outro é real. Corporal, real. Agora: a segunda teoria. O atributo da segunda teoria não é um ser de razão. Ele é real. Mas é um real incorporal. Apareceram, nessa segunda teoria, dois tipos de reais – o corpo e o incorporal.

(Olhem, eu vou explicar para vocês num parêntesis: Isso gera uma nova física, uma nova metafísica, uma nova biologia, uma nova teria das diferenças, uma nova história… Tudo isso eu quero que vocês entendam! Não há pressa. Qualquer pergunta que vocês fizerem, eu estou aqui para responder.)

Nós temos uma física, aqui. Temos uma física. O atributo essencial é um ser de razão. O atributo acidental é um real corporal. E o atributo acontecimento é um real incorporal.

Nós descobrimos uma coisa fantástica! Na hora que nós nos libertamos do verbo ser copulativo, nós descobrimos a existência de um novo tipo de real – o real incorporal. (Para vocês ganharem uma força e quererem fazer alguma coisa com isso… – é exatamente isso que é a obra do Lewis Carroll: Alice no país das maravilhas! A dificuldade que nós temos de entender Alice no país das maravilhas... é que os atributos – no país das maravilhas – não são essenciais, nem acidentais: são acontecimentos. Por isso que nós não entendemos —–. São esses incorporais. (Então, vamos tentar trabalhar.)

(Agora, vocês tomem um café, enquanto eu descanso um pouquinho).

Aluno: [inaudível]

Claudio: Na primeira parte, quando eu falei em último sujeito, lembrem-se que eu identifiquei o último sujeito a existente. Isso que eu fiz! Então, último sujeito é – simultaneamente – aquilo que existe. “Mauri”, “esta mesa”… (certo?) Então, esse último sujeito nos conduz para o projeto ontológico. Ontológico é aquilo que existe: tem realidade existencial. Na segunda teoria, eu identifiquei a realidade existencial ao corpo. Então, o que existe são os corpos. No momento em que eu disse que aquilo que existe são os corpos, e eu me preocupo agora com esses corpos, significa que eu estou fazendo uma física – porque a física é aquilo que cuida dos corpos. (Acho que ficou claro, não foi? Muito bem!)

Eu, agora, estou preocupado em fazer uma física. E uma física é a física dos corpos. Então eu vou fazer isso.

Então, eu pego os corpos que existem. Não importa qual! Este isqueiro – por exemplo – é o último sujeito da proposição e uma existência ontológica. Logo, é um corpo que existe. Este corpo, que existe, tem necessariamente um atributo essencial. O atributo essencial é o que difere – atenção para o que eu vou dizer – é o que difere este isqueiro deste copo. Porque este copo e este isqueiro têm atributos essenciais diferentes. Mas agora, se eu pegar este cigarro e este [outro] cigarro – estes dois cigarros têm o mesmo atributo essencial. (Entenderam?) Eles vão ser diferentes pelos atributos acidentais. Este aqui [copo] difere deste outro [isqueiro] por atributos essencias. Mas este [um cigarro] difere deste outro [cigarro] por atributos acidentais. (Entenderam?) São os atributos acidentais que vão fazer a diferença de um para o outro. (Certo? Muito bem!)

Aqui está “este isqueiro”. Este isqueiro é alguma coisa real. Ele tem uma realidade. Nítida. Existencial. Plano Ontológico. Tem uma realidade! A segunda teoria diz que este isqueiro – enquanto ele existir – tem com ele o seu atributo essencial. E a primeira teoria vai confirmar isso. Ou seja: todos os seres que existem carregam consigo, durante toda a sua existência, o seu atributo essencial. (Certo?) Então, estes dois cigarros carregariam com eles os seus atributos essenciais ao longo de sua existência. E a segunda teoria diz que um corpo, que é o último sujeito, que é existência real, ele só tem o seu atributo essencial O que eles querem dizer com isso? Que um corpo – ao longo da sua existência – não recebe em outro corpo o atributo essencial.

Que ele mantém – ao longo de sua existência – o seu atributo essencial – sem misturar o seu atributo essencial com o atributo essencial de outro corpo. Seu atributo essencial não varia. Se você [quiser] variar o atributo essencial de um corpo, você o destrói. (Certo?) E os atributos essenciais não se misturam. Este copo mantém o seu atributo essencial; e este cigarro mantém o seu atributo essencial – ao longo da existência de todos eles. (Entenderam?)

Então, prestem atenção:

Aqui está este cigarro, em cima da mesa. Ele tem com ele o seu atributo essencial? Tem. Eu passei para a minha mão. Ele continua com o seu atributo essencial? Sim. Então, nós descobrimos alguma coisa. A essência deste cigarro – não importa onde ele esteja – é sempre a mesma. (Vejam se entenderam) Ela é sempre a mesma. Pouco importa aonde ele entrar. Pouco importa com que este cigarro se misturar. Ele mantém o seu atributo essencial onde ele estiver: ele está aqui; ele está ali; ele está acolá – é sempre o mesmo atributo essencial. (Posso dar por entendido? O que vocês acharam?)

Vamos ver outro exemplo:

Eu pego um cavalo. Aí levo o cavalo para o Jóquei Clube. Ele vai correr (ele não corre no JC?). Ou então eu ponho esse cavalo para puxar carroça. Num lugar ele corre; noutro, puxa carroça. Esse cavalo – enquanto corre e enquanto puxa carroça – tem o mesmo atributo essencial? Sim, tem o mesmo atributo essencial: o atributo essencial não muda. (Está certo?) Mas… – alguma coisa muda. O que muda é o acontecimento. (Vejam se entenderam.) É o mesmo ser, o mesmo corpo, a mesma essência; mas o que está se modificando nele – são os acontecimentos. Os acontecimentos são incorporais. Então, o que muda, o que é devenir, o que é histórico, o que é temporal – é o incorporal.

Questão: O cavalo no Jóquei. O cavalo puxando a carroça. Ele é simultaneamente o mesmo e outro. Ele é o mesmo no seu atributo essencial… Mas é outro, no acontecimento. Então, o acontecimento, o não-ser, o incorporal, é que é a história do cavalo. (Entenderam?) Então, o que eu estou dizendo para vocês, é que o acontecimento é que faz as modificações. (Eu acho que ficou perfeitamente claro… mas se vocês perguntassem, eu teria mais vias para explicar!)

É radical o que eu estou dizendo. Eu não estou dizendo de brincadeira. Isto é radical. Este copo. Se eu pegar este copo e jogar no mar… ele mantém o mesmo atributo essencial que ele tinha? (Entenderam?) Ele mantém o mesmo atributo essencial: é o mesmo copo! Mas aconteceu um negócio diferente. O diferente é o acontecimento. (Certo?) As diferenças passam para o campo dos acontecimentos. Então, na hora em que você falar do corpo – você está produzindo um discurso da identidade. O corpo é o mesmo. A diferença – é o acontecimento!

(Vamos ver se vocês conseguem me ajudar nas perguntas? Ninguém pense que isso que eu estou explicando agora é coisa simples. Olhem, dificilmente vocês encontrarão uma explicação dessas. Não é nenhum orgulho meu, não. Não se encontra isso. Então, é realmente difícil o que eu estou dizendo.)

Eu estou dizendo para vocês que há alguma coisa que é a mesma sempre – é o atributo essencial do corpo. Mas há algo que é do plano da diferença – é o acontecimento. O que nos leva, então, a entender – que o corpo só pode ser pensado pela diferença. Porque o corpo está sempre envolvido em um acontecimento.

Aluno: [inaudível]

Claudio: Não, não. A questão não está aí. A questão é muito simples! Você já vai matar!? Você tem todo o plano para matar! Você viu que o atributo essencial na primeira teoria é um ser de razão. O atributo essencial na segunda teoria tá no corpo. Não é da razão: é do próprio corpo. Não sei se está claro!?… É o caminho que você tem que fazer: você tem que tirar o atributo essencial da razão e colocar no corpo. Porque é o que eles estão fazendo. O atributo essencial é o próprio corpo. O corpo nunca sai da sua essência. Mas ele não pára de variar nas diferenças do acontecimento. (Certo?)

É exatamente o acontecimento que é o plano da história. Então, vocês vão ver. Nós teríamos em diferentes encontros históricos, diferentes acontecimentos. Diferentes maneiras do corpo se conduzir… – embora seja o mesmo corpo.

Tá começando a surgir, não é? O acontecimento é uma teoria de luta terrível para nós. Muita luta mesmo, para nós a entendermos bem. Mas o que vocês têm que marcar agora – e isto é uma radicalidade muito difícil para quem não estuda filosofia, porque são muito poucos os que estudam, são muito poucos…, é vocês aceitarem o que eu estou dizendo:

O corpo é sempre o mesmo. A sua variação é o acontecimento – que é um incorporal. Então, o que vai acontecer agora, é que todos os corpos estão envolvidos em acontecimentos. O acontecimento torna-se – o que há de mais íntimo do corpo. O acontecimento é o que há de mais íntimo do corpo. Porque o corpo é sempre o mesmo – mas com as flutuações do acontecimento; sem perder o seu atributo essencial. (Eu gostaria que vocês falassem um pouco, viu?)

Aluno: A essência é um invariante?

Claudio: A essência é um invariante. O problema… o que você perguntou é muito parecido com o que o Chico colocou. É um deslocamento que eu ainda não fiz para vocês, apenas lancei, mas vocês já têm conhecimento das questões.

É que, na primeira teoria, a essência é da razão. Na segunda teoria, a essência está no corpo. O corpo conduz consigo próprio a sua própria essência – mas ele varia no acontecimento.

(Eu, agora, vou fazer uma redução para vocês. Olhem que coisa interessante:)

Esse corpo que está sendo pensado – olhem se não é isso! – vejam se ele não se parece com uma semente – que ora se torna árvore, ora se torna flor, ora se torna folha, sem deixar de ser coisa. É o mesmo ser – nas suas múltiplas variações. Ou seja: é uma teoria do ser germinativo. O ser é um gérmen, que não para de se modificar pelos seus acontecimentos. Trazendo com ele a [inaudível]. (Eu acho que alguma coisa está se passando, não é?)

Então, lembrem-se que o que eu estou dizendo é essa ideia muito difícil de aceitar – que o Hegel (eu não vou dar Hegel hoje), com a dialética dele, inclusive, não aceita – de que um corpo é absolutamente sempre a mesma coisa. É isso que é difícil de entender. Porque nós não paramos de ver as modificações corporais. Por exemplo, eu era pequeno, agora sou grande; eu não tinha cabelo branco, agora tenho cabelo branco… Vocês não param de ver modificações nos corpos. Mas essas modificações – é essa que é a tese – são modificações incorporais. Porque o corpo é sempre o mesmo. É isso que eu tenho que mostrar para vocês. (Acho que foi bem, não é? Está bem alinhado aqui.)

Vejam o que eu vou dizer: na minha vida, há momentos em que eu sou o avô dos meus netos. Outros momentos em que eu sou irmão do meu irmão. Em outros, sou professor dos meus alunos. Noutros, sou aluno dos meus professores. Cada elemento desses é um incorporal – pai, avô, aluno, professor, tudo isso são os incorporais: os acontecimentos que ocorrem conosco. Os acontecimentos não são modificadores da minha essência. A essência é a mesma – os acontecimentos variam. (Posso continuar? Vocês acham que eu posso? Está ficando muito difícil?)

Na primeira teoria – das essências – a essência é um ser de razão? (Não foi isso que eu disse?) O ser de razão é uma entidade lógica. Ser de razão e entidade lógica é a mesma coisa. Na outra teoria a essência está no corpo? E esse corpo se modifica pelos acontecimentos? (Certo?) Na segunda teoria a essência é potência. Na primeira é uma estrutura lógica, na segunda é uma potência. Todos os corpos têm potência. Isso modifica a teoria do poder. O poder não é alguma coisa que uns têm – poucos têm (não é?), como se diz – e muitos querem. Poder é aquilo que todos os corpos têm – porque a potência é a essência do corpo. A essência do corpo é a potência de germinar. A essência do corpo é a potência de produzir acontecimentos. Por isso, o corpo consegue efetuar a sua vida de uma maneira superior – a partir do instante em que ele executa mais acontecimentos. Produzir experiências é o segredo do corpo. É o segredo da vida. O segredo da vida é a experimentação. É a produção dos acontecimentos. (Não sei se vocês entenderam aqui. Certo?)

(É a coisa mais fácil de entender:)

Se um corpo é potência – não importa o acontecimento – é a mesma potência, a mesma essência, o mesmo corpo. Esse corpo vai ser envolvido por acontecimentos o tempo inteiro. Não importa qual, certo? Aqui vai passar uma ética: não acuse os acontecimentos: potencialize-os – porque nós não paramos de acusar os acontecimentos. O acontecimento só se explica pela potência que você passa nele. O acontecimento se explica pela potencialização que o corpo dá a ele. Você pode dar a um acontecimento mil potências diferentes. Os estoicos – que são os responsáveis por essa teoria, Nietzsche também – não param de dizer: seja digno do seu acontecimento! (Entenderam?) Não é uma resignação, não é nada disso! Não é resignação! Mas é potencializar o seu acontecimento ao ponto de que qualquer acontecimento da sua vida permita a você ser germinativo.

Vocês sabem que a religião, as forças retrógradas da religião, não pararam de acusar o acontecimento. Vou dar um exemplo para vocês. Quando vocês pegam as leituras das teogonias, por exemplo. Nós sabemos – pelas teogonias – que os deuses trouxeram para o caos ordem e regularidade. Havia o caos. Os deuses vieram e deram regularidade ao caos. Apareceram as quatro estações, apareceram o tempo das plantas, o tempo das flores, a ordem na cidade, a saúde, etc. Mas junto a isso, vinham também os furacões, os terremotos e as epidemias. E, como os deuses eram os responsáveis por organizar o caos, evidentemente que os pensadores já diziam: quem produz os furacões os terremotos e as epidemias são também os deuses. E concordaram com isso, mas depois disseram que os deuses produziram terremotos, furacões e epidemias para punir e castigar a maldade dos homens. Nós começamos a jogar moralidade em cima dos acontecimentos. (Entenderam?) O que eu estou explicando para vocês é: tirem a moral dos acontecimentos e coloquem uma ética. Ética é a potência.

Nessa tese que eu estou passado para vocês, não há crime quando uma aranha come uma mosca – porque a aranha comer a mosca é germinativo para ela. (Entenderam?) Tirar da Natureza o maior crime que se fez contra ela, que foi jogar – em cima dela – a moral!

Aqui eu estou passando para vocês uma teoria de que a essência é igual à potência e que a potência é germinativa. E ser germinativa é efetuar os acontecimentos. Ponto!

(Foi bem, não é?)

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Aula de 14/03/1989 – A ideia de matéria

capa-grande-aventura[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 6 (Do Universal ao Singular) e 9 (A Imagem Moral e a Liberdade) do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]


Em vez de ir por outras linhas, eu vou iniciar a aula integralmente na filosofia. (Certo?) E vou me servir de três tipos de pensamentos gregos: Platão, Aristóteles e os estoicos – esses três! E a questão com que nós vamos começar a trabalhar – e que prossegue com outras questões nas próximas aulas – é a ideia de Matéria. É na ideia de Matéria que nós vamos trabalhar!

Agora, é realmente alto nível de filosofia; [um tema] puramente filosófico – que eu vou tornar fácil para vocês entenderem! – e fundamento das próximas aulas. Ele fundamenta as próximas aulas! Isso [que eu disse] não é para assustar ninguém não; pelo contrário, é para vocês ficarem mais calmos. Eu volto sempre a esses temas, não há porque ficarem preocupados!

E as três filosofias que eu vou trabalhar serão: o Platão, dois livros dele… (quem quiser ler esses livros – ler Platão é sempre muito bonito! – os dois existem em português) os livros são o Timeu e o Filebo; no caso do Aristóteles,  A metafísica, sobretudo o livro V e o livro X (Vocês vêem que eu estou falando como filósofo, não é? Eu estou falando como filósofo!); e os estoicos, ao longo de seus comentadores, fundamentalmente dois comentadores: o Victor Goldschmidt e o Émile Bréhier.

Então, é isso que eu vou fazer (viu?). Então, vamos começar:

Nosso objetivo é um só: a matéria. Depois vocês vão ver a importância disso: ela vai surgindo para vocês… eu faço desvios, faço deslocamentos… e vocês vão entendendo a importância da questão.

Bom. A obra do Platão, chamada Timeu, é alguma coisa como “a construção do universo”. O que vai ser constituído, nessa obra, é o universo  é a origem, o começo de tudo! Pode-se dizer mais ou menos – não exatamente – que antes desse acontecimento do Timeu, o que nós teríamos seria o Caos. (Vai começar o inferno, tá?)

Então, nessa obra, Platão coloca a existência de uma figura mítica, que ele chama de demiurgo. Demiurgo, em grego, chama-se artesão. Mas Platão chama essa figura de “artesão divino” – um deus! E esse deus vai construir o mundo. Na verdade, o demiurgo é uma mistura de deus e artesão – ele é, simultaneamente, um deus e um artesão. Então, é o demiurgo que vai ser o responsável pela criação da natureza – e isso que eu estou contando para vocês, de ele ser simultaneamente um deus e um artesão, não é um acontecimento das decisões platônicas. Não foi Platão que decidiu, de repente, dizer: Oh, quem construiu essa natureza foi um demiurgo, que é simultaneamente deus e artesão. (Não é?). Não, não é nada disso! Isso tudo é um prolongamento da história do mundo, que vai desembocar em Platão. É a história dos movimentos político-sociais do Oriente, da própria Grécia, que levam Platão – ao pensar na construção da natureza – a pensar em um deus artesão. Então, o demiurgo vai passar a ser chamado de O Pai Artesão.

O que esse demiurgo vai fazer? Esse demiurgo encontra-se, depara-se com o que, em Platão, chama-se Meio Espacial. O meio espacial é a matéria. É uma matéria louca; uma matéria caótica; real: existe. Difícil de ser compreendida! É uma ideia bastarda do Platão, uma ideia difícil – ideia que não parou de atravessar todo o Ocidente. Ele coloca o demiurgo deparando-se com o que ele chama de meio espacial, estranhamente, melhor dito: o Receptáculo. Ele vai chamar de alguma coisa que é o receptáculo.

Quando se começa a falar sobre esse meio espacial, a linguagem falta. A gente não tem como dizer mais nada! Então o demiurgo encontra [esse receptáculo] e, acima disso, encontra o que se chama Formas Inteligíveis.

O demiurgo é um pai artesão, que vai construir o nosso mundo; e os elementos componentes que ele tem para construir o nosso mundo são as formas inteligíveis e o meio espacial. Então, ele começa a trabalhar. Não existe ainda o nosso mundo: existe o meio espacial e existem as formas inteligíveis. E esse demiurgo vai começar a trabalhar.

E o que ele faz? Ele obriga, força, força o meio espacial a imitar as formas inteligíveis.

Então, no momento em que esse meio espacial começa a imitar as formas inteligíveis, nasce o Mundo Sensível: o nosso mundo. O nosso mundo é chamado de misto – é o misto de formas inteligíveis e meio espacial. Então, o nosso mundo tem origem na formas inteligíveis e no meio espacial. E o nosso mundo é o resultado da ação causal do demiurgo, forçando o meio espacial a imitar as formas inteligíveis.

E o que aconteceu? Esse meio espacial é perverso, caótico, louco, sem lei, sem ordem. Mas, devido à ação do demiurgo, o meio espacial passa a imitar as formas inteligíveis que são Ordem, Lei e Cosmos. E, nesse processo de imitação, emerge o nosso mundo.

O nosso mundo tem como matéria esse meio espacial. Mas esse meio espacial – que é a matéria do nosso mundo – é obrigado a imitar as formas inteligíveis. Por isso, o nosso mundo é um Ícone. O nosso mundo é o lugar da Imitação. (Entenderam?) Não é o meio espacial que é imitação. É o nosso mundo que é imitação.

Por isso, para o Platão, a natureza [já] começa toda pronta. Porque, na hora em que o demiurgo obriga o meio espacial a imitar as formas inteligíveis, a natureza está toda pronta. A primeira manhã da Natureza é a imitação perfeita! De lá para cá, só houve Degradação. (Entenderam?) De lá – do ato criativo – em seguida, a única coisa que aconteceu foi degradação. O primeiro momento é o Momento Perfeito da criação. Daquele primeiro momento em diante – que é o momento do tempo, da história – o que aconteceu foi de-gra-da-ção! E o Platão está vivendo na sociedade grega do século IV a.C. E, nesse século IV, ele convive – com a degradação do campo social e com a incoerência dos fenômenos cósmicos. (Vocês entenderam? Não, não é? Não foi claro, não?)

Platão, no século IV, com a degradação do campo social… Porque o que ele acabou de dizer é que no primeiro momento da criação tudo era perfeito. Mas a partir do primeiro momento começou a haver degradação. Tudo começou a se degradar, a se perverter! Então, é evidente que, se ele está num momento histórico que não é o momento da criação, ele está num momento degradado! Está num momento degradado! Então, para Platão, aparece de imediato uma questão: fazer a terapia da cidade, curar a cidade.

O que seria essa terapia da cidade, o que seria curar a cidade? Produzir um processo evolutivo? Seguir com a cidade para uma evolução?

De forma nenhuma! Seria recuperar, para a cidade, o Modelo Original.

Por isso, para o platonismo, toda a verdade está nas origens. Processo exatamente oposto ao do Hegel, para quem tudo está no fim. Para Platão, tudo está no começo. Para ele, não existiria lugar para a criação no nosso mundo – apenas para a recuperação. Não há nada a criar – e sim, tudo a recuperar. Por isso, pode-se dizer – com a maior facilidade – que o principal instrumento do trabalho platônico é a reminiscência – em grego, anamnesis. É a reminiscência.

Reminiscência de quê? Lembrar-se dos tempos originais. (Entenderam?)

Porque é necessário que a degradação se dê – porque ela se dá! – porque do momento da criação, para o momento seguinte, a degradação é absolutamente necessária.

Conclusão a que nós chegamos daí – conclusão difícil e assustadora: é que a matéria do nosso mundo – a matéria do meu corpo, a matéria desta mesa, a matéria da natureza – é uma matéria perversa, uma matéria louca, caótica, que se dobra ao Caos – porque o demiurgo forçou a matéria a imitar as formas inteligíveis. Se a imitação parar – nós caímos no Caos. (Entenderam?) O modelo fundamental é a mímesis ou imitação, a prática mimética – imitar.

Então, para o Platão, todo o modelo do mundo se dá [com] o Meio Espacial tendo que imitar as formas inteligíveis. Se não imitar, o meio espacial volta ao lugar do Caos. Quando esse meio espacial volta ao lugar do Caos, ou seja: quando o meio espacial não imita as formas inteligíveis – chama-se fantasma. Na hora em que ele imita as formas inteligíveis – chama-se ícone.

Nós teríamos dois processos: o fantasma – que em latim é traduzido por simulacro; ou o ícone. Porque a natureza do meio espacial é Caos total. E o Caos não para de rugir no interior da semelhança dos ícones. (Eu acho que foi bem! Foi? Vocês entenderam? O que você achou Bento? Todo mundo entendeu o que se processou?)

Então, vejam bem: Platão vive num campo social onde está havendo degradação. É uma degradação absolutamente necessária – porque o tempo é degradação. Então, a preocupação de Platão é que essa degradação possa chegar a tal ponto – que o Caos retorne inteiramente, desaparecendo a imitação. Toda a questão dele é o perigo de que o Caos venha a tomar conta da ordem colocada pela imitação. E, por isso, a função do filósofo será governar a cidade, para fazer dela uma prática mimética – uma prática da imitação – imitar as formas inteligíveis. Se isso não ocorrer, vai ser a vitória do simulacro, a vitória do fantasma, a vitória do meio espacial sobre os ícones.

– Querem fazer perguntas? Está perfeitamente claro para todo mundo? Está S.? Chico? O que você achou E.? Porque? Vejam bem, eu escolhi dar filosofia para vocês. Eu poderia dar de outra forma… [Mas,] não; eu vou dar filosofia. Então, a gente tem que passar por esses buracos negros… por essas coisas duras! (Tá tudo bem, não é? Estou de acordo. Eu aceito um café e vou continuar.)

Aluno: Quando você falou de —-??—-.

Claudio: Porque é o seguinte, o Platão está dizendo que na hora em que nasce o mundo sensível, junto com ele aparece o tempo. E o tempo – necessariamente – é degradador. Então, o que vai acontecer, é que, a partir do primeiro momento as imitações vão enfraquecer. Quanto mais enfraquece a imitação, mais perigo há de o fantasma subir. O fantasma ameaça o tempo inteiro: é uma ameaça constante! (Viu?)

Então, ponto aí…

Aluno: —?— antagônica…

Claudio: Seria! Mas o demiurgo é como todo o criador: faz a obra e vai embora. Ele deixa a obra aí. Os homens que tomem conta dela… E aí que está o grande perigo!

Aluno: O tempo é degradador por si próprio ou ele degrada?

Claudio: O tempo vai degradando a matéria… Vai degradando a imitação… Vai quebrando a imitação e libertando o simulacro. O simulacro vai aparecendo – é isso que vai ocorrer. Porque, o primeiro momento da criação do demiurgo é perfeito! A partir do primeiro momento, tudo é degradação. São momentos perigosíssimos na obra dele.

(Vamos seguir para vocês entenderem, viu? Agora eu vou começar a facilitar um pouco, essa parte foi mais difícil – vocês vão começar a compreender. Eu agora vou mais calmo, vocês vão compreender!)

Na Grécia – na mesma Grécia de Platão – aparece um grupo de pensadores – eu vou chamar inicialmente de pensadores, depois eu melhoro os nomes, viu? – chamado sofistas – chamam-se sofistas. E vamos colocar que na Grécia existiriam, de um lado, os platônicos; e, de outro lado, os sofistas. De um lado, os sofistas fazem discursos. De outro lado, os platônicos fazem discursos. O discurso em Grego é chamado logos. No plural é logoi. Então, há os logoi platônicos e os logoi dos sofistas.

Os sofistas acham – (Atenção, se ficar difícil, coloquem imediatamente para mim). Os sofistas acham que na natureza só existem fenômenos.

O que é fenômeno? Fenômeno é tudo aquilo que aparece. Então, para os sofistas, no céu, por exemplo, existem eclipses, planetas, cometas, estrelas e os acontecimentos do céu – são os fenômenos. Para o platônicos, além dos fenômenos existem as formas inteligíveis. Para os platônicos, todos os fenômenos sensíveis são governados pelas formas inteligíveis. Para os sofistas, além dos fenômenos, não existe nada.

Para os sofistas, existem os fenômenos e para os platônicos, além dos fenômenos existem as formas inteligíveis. Então, a questão platônica é o discurso atingir as formas inteligíveis. A questão sofista é o discurso falar dos fenômenos.

Haveria dois processos: enquanto o platônico espera que com o discurso ele atinja as formas inteligíveis, o sofista não acredita nas formas inteligíveis – ele acha que só há fenômenos. Então, para o sofista, só há um discurso – o que fala dos fenômenos. Para o platônico, há dois discursos – o que fala dos fenômenos e o que fala das formas inteligíveis. (Entenderam?)

Para o platônico – o que fala dos fenômenos e o que fala das formas inteligíveis. Para os sofistas – apenas aquele que fala dos fenômenos. Então, para Platão, havendo dois discursos – o que fala dos fenômenos e o que fala das formas inteligíveis – emerge a distinção platônica, que vai ser muito nossa, entre – doxa e episteme: que é entre opinião e ciência.

Então, para o Platão, só é possível ciência se o discurso falar das formas inteligíveis. Por causa disso – para ele – o discurso do sofista não é um discurso científico. Eu acho que ficou claro, não é? O discurso do sofista, que só fala dos fenômenos, não é um discurso científico, porque o único discurso científico é aquele que atinge as formas…? Inteligíveis. Então, para o Platão, o discurso do sofista, em vez de ser um logos – é um anti-logos.

Nós, agora, teríamos dois tipos de discursos: o logos – que atinge as formas inteligíveis e é imediatamente episteme; e o logos ou anti-logos – que só fala dos fenômenos.

(Vamos ver isso! Foi bem? Eu fui bem? O que vocês acharam? Deu para entender bem?) Então vamos lá:

Aluno:

Claudio: E não precisa ser grego para entender isso, não… (viu?). Quando nós nos deparamos com os fenômenos – e agora eu vou modular essa palavra: vamos chamar fenômenos cósmicos! Quando nós nos deparamos com os fenômenos cósmicos, que são: o movimento dos astros, as estrelas, os eclipses, etc. e… ventanias, tempestades, raios, trovões… nós reparamos que os fenômenos são imprecisos, são fugidios, escapadiços e – sobretudo – não param de mudar – eles mudam o tempo inteiro! Na hora que você for falar sobre um raio, sobre um relâmpago, você está falando sobre aquilo… – e aquilo já passou! Logo, sempre que o discurso fala sobre um fenômeno que está acontecendo – entre o tempo do discurso e o tempo do fenômeno – há um desajuste.

– Por quê?

Porque o que acontece no mundo fenomênico é aquilo que passa – aquilo que passa o tempo inteiro. No mundo fenomênico, no mundo do tempo, nada paralisa: tudo passa. Então, o anti-logos sofista só fala sobre a mutação.

Aquele discurso, que fala sobre a mutação, não é científico – porque só pode ser científico o discurso que fala sobre o estável e permanente. Estável e permanente – são as formas inteligíveis. Nasce a episteme do ocidente!

A episteme ou a teoria das ciências do ocidente traz como pressuposto a permanência e a estabilidade do objeto. O sofista é rejeitado como praticante da ciência – porque ele faz discursos sobre os fenômenos. (Foi bem, não foi? Entenderam?)

Então, Platão condena o anti-logos – como aquilo que fala sobre fantasmas. O fantasma é aquilo que nunca é – porque não para de passar. (Vejam se entenderam!) O fantasma nem é isso nem não é aquilo – ele é o que passa, o que flui, é o devenir.

Devenir é aquilo sobre o qual a ciência não pode dizer nada.

Por isso, para Platão, fazer ciência é atingir – com o discurso – as formas inteligíveis – que são estáveis e permanentes.

(Dois pontos para uma pergunta, At.? E você, filha, você conseguiu entender?)

Olha, eu quero retomar para vocês que é a primeira aula – está todo mundo igual, estamos todos iguais! [Se] essas questões não passaram com clareza, é sempre bom retomar!

Além dos fenômenos cósmicos, existem as práticas da cidade. E as práticas da cidade geram o que se chama – mundo ético: qual é o comportamento do homem dentro da cidade. O comportamento pode ser vicioso ou pode ser virtuoso. O Platão e o sofista vão falar as mesmas coisas.

Para conhecer exatamente o que é a virtude, o que é a sabedoria, o que é a beleza… Platão diz que é necessário atingir as formas inteligíveis. E quando o sofista fala sobre beleza, sobre virtude – ele fala sobre beleza e virtude nos devenires.

É a mesma questão dos fenômenos cósmicos! Quando vai falar sobre a cidade, o anti-logos dos sofistas só fala sobre aquilo que está acontecendo. E Platão diz: “Isso não é um discurso científico! Para se produzir um discurso científico, tem-se que encontrar a estabilidade e a permanência”. Por isso, para Platão, existem, lá nas formas inteligíveis, O Bem, O Belo e O Verdadeiro – que são os objetos exatos com que o logos platônico vai entrar em contato. Para o sofista nada disso existe – para ele só existem os fenômenos. Essa é a oposição dos dois.

Por causa dessa oposição, o Platão chama o sofista daquele que não é capaz de imitar as formas inteligíveis, daquele que não é capaz de chegar às formas inteligíveis. Por isso, para o Platão, o sofista é o fantasma. (Certo?) E os platônicos são os ícones.

E o que fazer com os fantasmas? Expulsá-los da cidade. É preciso expulsá-los da cidade – porque os fantasmas são a constante ameaça do Caos. O conselho de Platão: coloque-os à ferro debaixo dos oceanos.

Aluna: –?–

Claudio: Eles pensam Platão como um idiota – idiotia pura! Eles não acreditam naquelas formas inteligíveis, não acreditam em nada. Mas acontece que vai haver a vitória do platonismo. O platonismo vai vencer. Os sofistas vão ser expulsos da cidade. Os fantasmas vão ser expulsos.

(Ponto. Não precisa mais disso!)

Aluno: –?– estão na frente, não é?

Claudio: Exato!

Aluno: Mas realmente parece que os sofistas descrevem o fato prévio, num determinado tempo. Eles estão atingindo o fato porque ele tem…

Claudio: Mas a questão é que não há aquele tempo. O tempo é puro fluir. No tempo, não há a possibilidade de você ter um instante paralisado. Quem está no tempo flui. Não entendeu não, Bento?

Aluno: Eu digo: esta lâmpada está acesa. Eu acabo de falar isso… a lâmpada apaga! Então, essa minha afirmação prende a lâmpada acesa num determinado momento. Ela está presa naquele momento ao qual eu me referi.

Claudio: Sim, mas não tem valor o seu discurso, porque você está querendo prender aquilo que flui. É isso que o Platão está dizendo! É mais ou menos isso, Bento: na hora em que você entrou nesta sala, você era quinze minutos mais novo. Neste instante em que eu estou falando com você, você já é dez segundos mais velho. Dentro do tempo, não há possibilidade de você paralisar. Tudo flui, tudo devém! E Platão diz: “Quem está pensando o tempo, está pensando aquilo que muda. Está pensando o fluxo. E o fluxo não pode ser objeto da ciência. Só o estável e o permanente podem ser objeto da ciência”. A questão é essa. Ficou difícil, Bento?

Aluno: –?–

Claudio: Definir? Não, [a questão] é mais alta A.. Ele não está definindo o que é a ciência. Ele está produzindo a ciência! Está acabando de inventar a ciência que você usa hoje! Ele está dizendo que o objeto da ciência é impossível ser um objeto do fluxo, ele tem que ser um objeto da permanência, da estabilidade. É por isso que nasce a ciência com a busca dos invariantes, dos permanentes. Porque o devir, aquilo que muda, para ele – literalmente – não pode ser objeto científico.

– Por que não pode ser objeto científico?

É a coisa mais simples do mundo, é claríssimo: não pode ser, porque no momento em que você fala sobre ele, ele já não é o que era. Não é que o objeto no devir seja assim: é… é… é… é… Não! O objeto no devir não é – o tempo inteiro! É muito fácil entender isso! Aquilo que é – aquilo que é permanente – é sempre! Aquilo que devém – aquilo que muda – nunca é! Tudo o que está no devenir, nunca é – é a coisa mais fácil! O Platão está dizendo que não se pode pensar aquilo que não é. Não se pode pensar o não-ser. Tem-se que pensar o Ser! A ciência (ou o pensamento) do devir está inteiramente desqualificada. Só pode haver pensamento do estável e do permanente. E aqui está nascendo o racionalismo. A razão está nascendo, tendo como objeto de pensamento o estável e o permanente. E o devir não é objeto de pensamento – é objeto dos delírios e das imaginações. É isso que Platão está dizendo!

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Aluno: E o sofista?

Claudio: O sofista não concorda! Porque o sofista…

Aluno: Eles não pretendiam fazer ciência!…

Claudio: Pretendiam fazer ciência, sim, At.! E fizeram ciência – do devir! Do devir! (Vê se entendeu!) Aquilo que Platão desqualifica – para o sofista é a única coisa que pode acontecer!… Porque para o sofista não existe nenhuma forma inteligível! Para o sofista não existe nada estável e permanente. só existe o devir!

Aluno: –?-

Claudio: Claro! Essa é a grande questão! Atenção: a grande questão é essa! É que a razão nascente constitui como objeto dela o estável e o permanente. E desqualifica como impossível o devir como [elemento] a ser pensado. O ocidente vai conviver séculos com isso. O devir não pode ser pensado! (Entendeu?)

Ao longo da história do pensamento, vocês vão encontrar, por exemplo, Bergson – a grande questão do Bergson é pensar o devenir. (Entenderam?) Por isso, se ele vai pensar o devenir ele não pode ser um? ra-cio-na-lis-ta! Porque a questão do racionalista tem como ponto de partida a estabilidade e a permanência. É essa a grande questão que está aparecendo. E o Platão desqualifica o sofista, desqualifica o anti-logos, como aquele que está querendo a bastardia, está querendo o delírio, a perversão – pensar o devenir. Então a história do pensamento ocidental, aí é um historiador de filosofia quem nos diz – que é o Deleuze – diz que a história do pensamento ocidental é o recalcamento do pensamento do devenir. O tempo inteiro o pensamento dos devenires recalcados, impedidos de subir. (Eu acho que foi bem, não foi?)

(Podem fazer mais perguntas! O que você achou, F.?)

Aluna: –?–

Claudio: Exato! Exato! Qual a pergunta? Deixem eu colocar uma questão para vocês entenderem:

Houve, na Grécia, umas figuras chamadas os “sábios gregos”. Esses sábios gregos não são exatamente os filósofos. Os filósofos têm origem nos sábios – mas filósofo quer dizer “amigo da sabedoria”; e sábio, “aquele que tem a sabedoria”. São diferentes! Platão não é um sábio – é um filósofo. Ele é o amigo da sabedoria. E a sabedoria, para ele, são as formas inteligíveis. (Entenderam?) O filósofo é aquele que atinge a sabedoria, atinge as formas inteligíveis. O sábio, não! O sábio carrega com ele a sabedoria. Você pode dizer que o sofista está muito mais próximo do sábio que o Platão. (Não sei se ficou claro…)

(Vocês entenderam?)

Essa é uma questão muito difícil, mas que eu vou melhorar para vocês da seguinte maneira:

– O que pretende a ciência que está nascendo com o platonismo?

Eu vou fazer uma pequena apresentação para vocês compreenderem com clareza isso daqui. Vou fazer uma história assim meio sofista, meio pervertida, para vocês entenderem:

Quando nós falamos, quando nós produzimos um discurso, existem duas coisas – o ato de falar e aquilo que é falado. Sempre que alguém fala, há o ato da fala e aquilo que é dito. O ato da fala chama-se enunciação. E aquilo que é dito chama-se enunciado. Então, sempre que eu disser alguma coisa, aquele que fala: sou eu. E aquilo que eu disse: é aquilo que eu disse.

Há um momento, na Grécia, que a verdade depende de quem falou. Por exemplo, eu digo assim: 2+2 são 5. Aí, o Bento pergunta: quem disse isso? Aí o L. responde: Foi o Claudio. Foi o Claudio? Então, é verdade!

Porque a verdade, nesse determinado momento da Grécia, pertence àquele que fala. É dependente de quem falou. Quem falou é que tem a verdade. Se [esse alguém] falou, é verdadeiro. Esse acontecimento chama-se “a verdade na enunciação”.

Quando nasce a cidade grega, a verdade sai da enunciação e vai para o enunciado. A verdade já não é mais daquele que falou. Mas aquilo que é dito. (Entenderam?)

Então, num outro momento eu sou um déspota e digo: “Os cachorros têm cinco pernas”. Aí o Chico diz: “Sem dúvida, você falou!”

Agora eu chego na cidade grega e digo: “Os cachorros têm cinco pernas” e o Chico me responde: “Prove!” Porque a verdade se deslocou da enunciação e foi para o enunciado.

No momento em que a verdade vai para o enunciado… quando os homens falam, falam afirmativa ou negativamente – ex.: eu falo: “Antônio tem barba”, “Antônio não tem barba”. Aí o Bento me diz: “Prove!” Os enunciados são afirmativos ou negativos, e aquele que ouve o enunciado quer demonstrações e provas. (Entenderam?) Isso é que se chama enunciado científico.

O enunciado científico é aquele que, quando é produzido, tem que ser demonstrado e tem que ser provado. (Eu não sei se vocês entenderam bem…) É exatamente esse o processo que se dá no campo platônico.

Para o sofista não é essa a questão. Para o sofista o enunciado não tem que ser nem afirmativo nem negativo – tem que ser problemático.

– Por quê?

Porque a palavra problema vem da palavra enigma, em grego. Enigma dá a palavra problema. E os sábios não eram aqueles que procuravam afirmações ou negações. Eles procuravam os enigmas. O mundo do sofista é o mundo dos problemas – e não o mundo das afirmações e negações. Por exemplo, vou voltar a contar uma história:

Dizem que Homero era um sábio. Homero era um sábio! O sábio não é aquele que afirma ou nega; quem afirma ou nega é a consciência científica. O sábio problematiza. Então, o que Homero queria conhecer eram os enigmas. Como um sábio, na hora que um enigma aparecia para ele – ele dava a solução. O mundo do sábio é um mundo problemático – e não um mundo das afirmações e negações. Tanto, que um dia fizeram um enigma para o Homero mais ou menos assim: “Aquilo que eu mato, eu deixo. Aquilo que eu não mato, eu trago.” É mais ou menos isso. Eu sei que o Homero não soube responder o enigma e se suicidou. Sabe o que era o enigma? Eram pulgas. “As pulgas que eu mato, eu deixo. As que eu não mato, eu trago.”

Os enigmas são triviais, são tolos. Como tudo o que acontece nas nossas vidas! Mas são inteiramente sérios. Porque –?– significam a nossa própria vida. O mundo é – simultaneamente – fútil e sério. Era isso que o sofista vivia e que o sábio vivia! Então, a questão do sábio não é a questão do Platão: afirmar / negar e provar. A questão dele é problematizar.

Exemplo: você pega a sexualidade hoje. O que a ciência faz com a sexualidade? Afirma ou nega determinadas proposições. O que faria um sábio com a sexualidade? Ele problematizaria.

(Foi difícil! Está aberto para o café. Tomem um café, que eu vou melhorar isso daqui. Problemas e afirmações e negações: ficou difícil! Ficou, não é? Eu retorno isso aqui. Tomem um café para eu melhorar isso.)

[Intervalo para o café]

Eu vou utilizar uma espécie de estratégia para você… porque há uma diferença muito grande em se dar uma aula de filosofia para o estudante de filosofia e uma aula de filosofia para quem não é estudante de filosofia. A gente desvia um pouco: não se pode perseguir determinados temas; não se pode fazer determinados trabalhos detalhados; tem-se que fazer determinadas aberturas… Isso não diminui a qualidade da aula. Apenas, você faz determinadas derivas. É como se fosse o nascimento de uma nova composição discursiva: não é a mesma composição entre o professor e o estudante de filosofia e entre o professor e o estudante que não é de filosofia.

[— pequeno trecho da fita com defeito —]

[…] e as formas inteligíveis. Vamos dizer que para o Nietzsche é a mesma coisa. Existe o mundo fenomênico e existe outro mundo. Só que enquanto o segundo mundo do Platão é um mundo de Formas Inteligíveis, o segundo mundo do Nietzsche é o Caos puro. É o Caos puro. Então, para o Platão, o mundo fenomênico se apóia nas Formas Inteligíveis. Para o Nietzsche, o mundo fenomênico se apóia no Caos. (Entenderam?) Um se apóia no Caos, outro se apóia nas Formas Inteligíveis. Mas tanto o Caos quanto as Forma Inteligíveis são aquilo que está fora do mundo sensível; está para lá do mundo sensível. Existiria o mundo sensível, o mundo fenomênico apoiado no platonismo pelas Formas Inteligíveis, e apoiado no Nietzsche pelo Caos. (Certo?)

Pegando-se o modelo platônico e pegando-se o modelo religioso, o homem religioso e o homem platônico:

Na hora em que o homem platônico quer fazer ciência, ele tem que se deslocar (não interessa como!) na narrativa mítica (não importa agora!). Para fazer ciência, ele tem que – de alguma maneira – se deslocar até as Formas Inteligíveis; ele tem que ir até as Formas Inteligíveis. E o homem religioso – nas suas práticas medievais, por exemplo – para fazer teologia tem que atingir Deus – que também está acima das formas sensíveis, acima do mundo fenomênico.

De certa maneira, portanto, há uma semelhança entre as Formas Inteligíveis platônicas e as Forma Religiosas do cristianismo – que é alguma coisa além do mundo fenomênico.

A questão nietzcheana é não destruir esse fora. Ele não destrói o fora – mas o despovoa de essências, formas inteligíveis e deuses: transforma esse fora num Caos. Há um fora, há um acima, há um para lá. Mas o para lá dele não são as Formas Inteligíveis – é o Caos.

Então, a partir disso daqui, nós podemos dizer que o homem platônico, quando vai fazer a sua episteme, a sua ciência, ele precisa se transportar para as Formas Inteligíveis. O homem religioso, nos seus momentos de angústia, nos seus momentos…

[virada de fita]

Só que as Formas Superiores religiosas são meros fantasmas, são ficções, são ilusões. O que o Nietzsche faz não é destruir isso. É apenas despovoar de Formas Inteligíveis e de Fantasmas. (Entenderam?) Ele despovoa.

Então, para o Nietzsche existe o fenômeno e o fora. O fora é o Caos.

Aluno: O que é que ele chama de Caos?

Claudio: O que ele chama de Caos? Eu vou tentar explicar, ao longo das aulas, (ouviu?) o que seria esse Caos do Nietzsche! No início é muito difícil! Porque, neste início, eu estou deslocando as Formas Inteligíveis platônicas ou o Céu religioso e transformando isso em Caos. Ainda não dá para dizer bem – espera mais um pouco, que depois eu digo melhor. É o mundo das forças caóticas – [mas assim] fica vago, fica tolo, fica idiota! Deixa eu montar melhor, para haver compreensão integral.

Neste instante, o que nós vamos fazer é apenas despovoar as Formas Inteligíveis do céu platônico e tornar este fora o mundo do Caos.

– O que vai acontecer aí?

O mundo dos fenômenos – e aí já é Aristóteles, não precisa mais ser Platão! – é o mundo onde nós constituímos o nosso saber. Eu concordo, o nosso saber se constitui no mundo fenomênico. (Certo?) Então, nós, os seres humanos seríamos seres históricos, incluídos dentro da história, que vamos fazendo mutações no campo do saber em função dos saberes fenomênicos. Assim, nós viveríamos!

Mas, para o Nietzsche, existiriam duas experiências do fora. A experiência do fora do Platão é a experiência epistêmica – chegar às Formas Inteligíveis. Para o Nietzsche, haveria duas experiências do fora; logo, duas experiências do Caos. No Platão, é a experiência da episteme, a experiência da ciência, a experiência da filosofia, das Formas Inteligíveis! Para o Nietzsche haveria duas experiências do fora – uma seria a loucura; a outra seria a subjetivação. Que é exatamente o modelo da aula que eu vou dar para vocês.

Nessa tese que eu estou passando para vocês, o homem enlouqueceria quando entra no Caos e é governado por esse Caos. Enquanto que ele constitui uma subjetividade – e aqui é fantástico e difícil! – uma subjetividade livre; e atinge o pensamento quando ele entra nesse Caos, mas não para ser governado por esse Caos – mas para pensá-lo. (Vocês entenderam?) As duas experimentações do fora. A experimentação da loucura – quando você é dominado pelas forças do Caos; ou quando você faz a experiência do fora – produzindo pensamento. Isso, na linguagem do Deleuze e na linguagem do Heidegger, chama-se dobra.

A dobra é quando você experimenta o Caos, mas constitui um pensamento; e a loucura, quando você cai dentro desse Caos. (Ficou claro, não é?) O melhor modelo para se entender isso é manter o platonismo. É mantendo o platonismo, que nós entendemos.

O que fica muito claro é que o Nietzsche foi um homem que viveu a vida nos limites: ele viveu a vida dele nos limites do saber e do fora. Ele viveu nesses limites! Ou seja: ele não parou de fazer a experiência do pensamento, da liberdade e da loucura.

Existe hoje, sobretudo no Rio de Janeiro, uma voga nietzscheana, uma — completamente idiota, onde se tenta fazer um combate ao racionalismo com o mais estúpido dos irracionalismos. O Nietzsche não é um irracionalista. O Nietzsche não combate a razão utilizando paixões, sentimentos e caprichos – não é nada disso! Ele combate a razão, tentando produzir um instrumento que vá além da razão – que ele chama de pensamento. E o que ele chama de pensamento é a experiência de uma subjetividade livre e —-.

É isso que vai ser o nosso curso: O que são essas experimentações do fora, o que é a constituição da dobra. Eu vou mostrar para vocês a razão grega, o pensamento barroco, o pensamento moderno, como é que ele vai constituir uma dobra; entender esse fora e produzir o pensamento; e ultrapassar a sujeição aos saberes. (Fui feliz? Fui, não é? Acho que fui!)

O modelo que eu vou seguir com vocês, olha, eu diria, é um modelo estratégico – mas… é esse o modelo possível! Pensando o platonismo, eu começo, inclusive, a colocar o Aristóteles – e eu vou ficar muito triste, porque o Aristóteles vai pesar um pouco para vocês. Mas vocês vão ter que entender a teoria da atribuição, a teoria da predicação, todas as questões que eu coloquei, senão vocês não vão perceber o que é a distinção de uma proposição para um problema, o que é a experimentação do falso, o que é a produção da liberdade, o que é a produção do pensamento novo, o que é a constituição de novos modos de vida – tudo isso vai-se perder, se eu não passar um Aristóteles para vocês. Então, ele vai ser obrigado a passar, viu? E quando a gente trabalha em Aristóteles, não há meios de a gente não ser inteiramente filósofo – é aquele negócio duro – lógica, metafísica pesada (não é?).

Muito bem!

A grande questão é que, para Platão, pensar é atingir as Formas Inteligíveis. Para Nietzsche, é inteiramente semelhante: pensar é pensar o Caos. Muito semelhante, muito semelhante! Nesse movimento de Caos e Formas Inteligíveis é que nós vamos ter a linha do nosso curso, que, agora, se eu consegui realmente passar isso para vocês, eu vou começar a explicar – viu? Vamos pensar que processos vão se dar aqui, a partir deste instante.

Neste instante isso não vai importar, mas na Grécia, em função de um poema de um pré-socrático chamado Parmênides, vão aparecer duas escolas – uma chamada megárica e a outra chamada cínica. Literalmente vão aparecer essas duas escolas: [ou seja,] duas maneiras de pensar. Essas duas escolas trazem a preocupação de nos explicar exatamente o que é pensar. Toda a questão da escola megárica e toda a questão da escola cínica – é nos ensinar a pensar. Então, essas escolas colocam que, quando nós pensamos, quando nós utilizamos o nosso pensamento, nós não podemos, de forma nenhuma, explicar ou definir alguma coisa com outra coisa.

Para essas escolas, por exemplo, se eu quiser dizer o que é a mesa, eu não posso dizer, com a cadeira, o que é a mesa – eu só posso dizer o que é a mesa com ela mesma! O que eles estão dizendo é que os enunciados do pensamento só podem ser enunciados da identidade pura. Eu nunca poderei dizer alguma coisa sobre algo que não seja aquele próprio algo. Eu nunca poderei dizer, por exemplo, que a mesa é branca. Porque se eu disser que a mesa é branca eu estou dizendo que a mesa é outra coisa que ela mesma. Então, o único enunciado que eu posso produzir é “a mesa é mesa”. (Vocês entenderam? Ou não entenderam?)

Aluno: –?–

Claudio: Eu precisava dar essa explicação porque eu tenho que começar a fazer vocês penetrarem, fazer com que vocês entendam o que é pensar a diferença; ou melhor – pensar é pensar diferente! Então, nós temos que dar conta do enunciado cínico e do enunciado megárico. Temos de entender o que eles estão dizendo!

É muito simples, por exemplo: eu pego a Eliane. E Ana me diz: ‘Claudio, me diga, por favor, o que é a Eliane?’ Aí eu digo assim: ‘Eliane é Chico’. Aí a Eliane diz assim: ‘Não, Claudio, não concordo! Você não pode dizer que eu sou uma coisa que eu não sou. Eu sou eu mesma!’

O que eu estou dizendo é que a condição megárica e cínica é que a única coisa que você pode afirmar sobre alguma coisa é aquilo que aquela coisa é. Ou seja: você colocar no conceito predicado aquilo que está no conceito sujeito – “a mesa é mesa”, “a cadeira é cadeira”, “a rosa é rosa”, e assim por diante…

(Fracassei novamente!)

Aluno: –?–

Claudio: O que eles estão dizendo é da maior facilidade: que a única coisa que você pode dizer de ‘alguma coisa’ – é aquilo que ‘aquela coisa’ é. Você não pode dizer que uma coisa é aquilo que ela não é. Ora, a mesa é mesa; branco é branco. Se eu disser que a mesa é branca, eu estou dizendo que a mesa é o que ela não é! Então, para o megárico e o cínico, eu só posso produzir um tipo de enunciado “a mesa é mesa”, “o branco é branco”, “a rosa é rosa”, e assim por diante.

É exatamente por causa disso que Platão escreveu sua obra chamada O Sofista. Ele escreve essa obra inteira para destruir os enunciados megáricos e cínicos – O Sofista; e o Aristóteles escreve uma “Física” e uma “Metafísica” para destruí-los. O Aristóteles escreve uma física e uma metafísica, escreve toda uma obra para destruir essas proposições cínicas e megáricas da impossibilidade da predicação. (Certo?)

Então, é esse tema que nós vamos entrar – e na próxima aula eu começo a dar mais devagar – para vocês entenderem o que é exatamente o processo megárico e o cínico. E eu trago um pequeno texto para vocês lerem (certo?). E a partir daí nós começaremos a entrar – e eu vou tentar facilitar – no que vem a ser a metafísica platônica em “O sofista” e no que é a proposição aristotélica, para romper com essas duas questões levantadas pelo megárico e pelo cínico. Nas soluções platônicas e nas soluções aristotélicas! Em seguida, mais para frente, nós trabalharemos nas soluções hegelianas e vamos pensar de que maneira Nietzsche, Lucrécio, e outros pensadores vão pensar a mesma coisa. (Certo?)

(Está bom por hoje, não está?)

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Aula de 11/03/1992 – A superfície infinita: Estoicos e Bergson

“A filosofia estoica está atrelada à doutrina do Eterno Retorno. A doutrina do Eterno Retorno é o fundamento da filosofia estoica. E se essa doutrina, como expliquei pra vocês, não necessita de nenhum princípio transcendente, de nenhuma mitologia – ela dá a eternidade ao mais vil dos elementos (um excremento ganha a eternidade!) -, então a vida humana ganha a eternidade sem a necessidade de transcendência. Esta é talvez a eternidade mais bela que possa existir! Pois é evidente que a eternidade que queremos é a eternidade que repete aquilo que nós somos. Ser eternos mas diferentes do que somos, não nos interessa. E a eternidade religiosa dirá que, na eternidade, nós seremos diferentes; porque o corpo desaparecerá, seremos só alma, seremos ungidos. Os estoicos dizem: não! A eternidade é a eternidade da sua intimidade. Ou seja, eu nunca perderei a infância na minha eternidade. Nem os gestos mais simplórios que fiz ficarão perdidos. Assim, para eles, a constituição desta doutrina do Eterno Retorno gera uma ética; uma ética, inclusive, de altíssimo nível, pois o que se repete pela eternidade é tudo aquilo que você é. Vamos chamar esta doutrina do Eterno Retorno de lei da natureza, campo de possibilidades, onde a repetição é absoluta…”

***

“A tese de Bergson é de que o cérebro é uma imagem no seio de um universo de imagens. Nós temos uma impressão tola, diz ele, de que o cérebro tem a capacidade de reter imagens dentro dele. Pensamos assim que o cérebro é mais potente do que o sistema de imagens, quando na verdade ele é apenas um ponto imagístico – sem a menor importância – ali dentro. Mas o cérebro está incluído no sistema de imagens e movimento. O cérebro, então, é matéria. Está ali, no mundo!”

Parte 1:
Parte 2:

Parte 3:
Parte 4:

 

Aula de 17/06/1992 – Lucrécio: verdadeiros e falsos infinitos

capa_aventura_do_pensamento_FB[Temas abordados nesta aula são aprofundados nos capítulos 2 (O Extra-Ser e a Similitude); 12 (De Sade a Nietzsche); 20 (Linha Reta do Tempo), do livro “Gilles Deleuze: A Grande Aventura do Pensamento”, de Claudio Ulpiano. Para pedir o livro, escreva para: webulpiano@gmail.com]

 

 

Parte I

[…] que é de uma beleza incrível! E iniciaria então a modernidade, pensando o tempo subjetivo. Em seguida, Husserl pega Franz Brentano, que fora seu professor, e analisa a fala desse filósofo acerca da origem do tempo, fazendo-lhe uma crítica – para em seguida dar início ao seu próprio trabalho. Mas a gente vê que ali se desencadeou uma questão centrada na oposição objetivo e subjetivo: a passagem do tempo objetivo para o tempo subjetivo. Se nós lermos Deleuze falando da filosofia antiga e da filosofia moderna em relação à questão do tempo, aparentemente veremos a mesma coisa. Só que Deleuze vai dizer que a filosofia antiga se preocupa com o movimento – e que o tempo ali aparece como uma consequência; enquanto que a filosofia moderna pensa o tempo, e o movimento apareceria como uma consequência. Então, a filosofia antiga teria feito o esquema movimento-tempo; e a filosofia moderna o esquema tempo-movimento. (Certo?)

A partir disso, nós temos uma instrução: que pensar a filosofia antiga é pensa-la a partir do movimento. E quando se fala em movimento tem-se que introduzir a ideia de móvel, no sentido em que o movimento é o ser; e o móvel, o ente: o móvel é aquilo que se move.

Então, pensar o movimento na filosofia antiga implica, necessariamente, o corpo: tem-se que pensar o corpo como aquilo que está envolvido no movimento. E a filosofia moderna pensaria o tempo como forma vazia, onde os corpos se introduzem.

A partir disso, temos um índice, que é exatamente o que eu disse: a filosofia antiga centrada no esquema movimento-corpo. E quando encontramos esse esquema, movimento-corpo, provavelmente, temos as três grandes filosofias que teriam se envolvido com o tempo: Aristóteles, estoicos e atomistas. E todas as três colocando o movimento como ponto de partida; e o tempo como efeito do movimento. No caso dos estoicos, o tempo como o intervalo do movimento; no caso do Aristóteles, o tempo como número do movimento; e, no caso dos atomistas, o tempo como sintoma do movimento. Então, nós teríamos esses três esquemas: intervalo, número e sintoma.

Ao longo de toda a sua obra (e que todo mundo confunde!), Deleuze trabalha com uma categoria que ele chama de plano de imanência. Plano de imanência ou máquina abstrata. Máquina abstrata é um conceito matemático, retomado pelo Chomsky. A noção de máquina abstrata não é física, é uma noção matemática, utilizada pelos matemáticos. Deleuze a retoma e introduz a noção de Plano de Imanência. Uma noção que veio pra ficar.

Plano de Imanência, com uma distribuição imensa, que eu passo a trabalhar com vocês. Plano de Imanência exatamente por causa do tempo, não é?

Então, na noção de Plano de Imanência ― o ideal, como didática, é começar na filosofia antiga, pra gente fazer o nosso desenvolvimento ― não tem outro caminho! E, evidentemente, se nós vamos pegar a noção de plano de imanência, é através desse percurso que vamos alcançar alguma compreensão. Então, o que nós vamos fazer, é alternar essas três filosofias ― de Aristóteles, dos estoicos e dos atomistas.

O atomista aqui seria evidentemente Epicuro, o grego; mas, sobretudo o Lucrécio, o romano ― que seria o mais fundamental para se compreender o que vai acontecer. Essa alternância, na minha observação, depois com a diminuição do Aristóteles, vai-nos dar uma boa noção do que vem a ser plano de imanência.

No caso dos estoicos ― o grande problema é centrar toda a questão na teoria das proposições, que nos leva para um trabalho muito difícil e cruel, porque é a passagem da teoria das proposições aristotélicas, centrada no princípio de atribuição, para uma teoria centrada no princípio de conjugação ― de que eu não preciso falar agora. (Depois eu falo, tá?)

E, nos atomistas, no caso o Lucrécio ― porque no Lucrécio nós entramos diretamente numa física. Então, o fato de ser uma física ― literalmente uma física ― quer dizer, há um campo referencial físico, forte, que faz com que o pensamento tenha um apoio para fazer o seu desenvolvimento com muita clareza. Então, primeiro, os nossos dois primeiros pontos de partida são exatamente a proposição estoica e a física do Lucrécio.

A física do Lucrécio tem como fundamento a ideia de átomo. Eu disse a ideia de átomo; eu não disse “a coisa” átomo. Eu disse “a ideia” de átomo. O átomo [tal como conhecemos atualmente], que é um nome ou um conceito muito presente na cultura do século XX, por causa da física quântica, não reproduz o átomo grego; porque o átomo da física quântica é uma estrutura. O que eu chamo de estrutura é tudo aquilo que é constituído por partes. Então, você encontra o átomo quântico e ele pressupõe elementos que o constituem: prótons, nêutrons, etc. Tá? E, aliás, a física quântica nunca ousou ― talvez sonhe! ― encontrar um elemento não estrutural, um elemento puro, e nunca encontrou…  os elementos são sempre estruturados. Então, o átomo da física quântica é uma estrutura. Que não é a mesma coisa que o átomo da antiguidade. Porque o átomo da antiguidade é uma unidade insecável e indestrutível ― no sentido de que o átomo é um elemento que não pode ser cortado.

Aluna: Átomo quer dizer isso: menor parte, não é?

Claudio: É. Você pode chamar de menor parte da matéria; mas assim ainda fica uma instrução fraca, viu? Mas é sim!… Ele é uma unidade indestrutível, insecável, incortável, porque ele não pode ser mexido, não pode ser destruído. No atomismo grego, e em Lucrécio, o átomo é algo muito surpreendente: ele é eterno; ou seja, está presente pela eternidade. O átomo (vamos dizer assim um pouco mal) é o elemento mínimo constituinte das coisas, dos corpos, etc., e, simultaneamente, ele é eterno. Mas, além de serem eternos, os átomos são infinitos. Eternos ― e em número infinito. É uma tese que quando a gente ouve inicialmente parece um jogo de palavras, mas não é isso que vai acontecer.

O átomo é eterno e em número infinito, mas se move. E aqui começa a aparecer uma coisa muito bonita! Se ele é eterno, em número infinito… e ele se move… Para que ele se mova, é necessário que haja um vazio, no qual ele se move.

Nesse momento, literalmente, eu dei pra vocês os dois únicos componentes da filosofia do Lucrécio: o átomo e o vazio. Não há mais nada!

Mas, junto a isso, apareceram dois infinitos: o infinito dos átomos; e o infinito do vazio. Átomos e Vazio formam, cada um, um infinito. E os dois juntos formam um terceiro infinito. Existem mais infinitos, mas nós não teremos necessidade deles. Nós, aqui, temos necessidade destes três infinitos: os átomos, o vazio, e a composição dos átomos com o vazio. Nós estamos em presença de três infinitos que, surpreendentemente, o Lucrécio vai dizer que são os verdadeiros infinitos. (Inicialmente, não sabemos por quê…)

Essa palavra, verdadeiro ― três verdadeiros infinitos ― tem muita importância, porque o conceito de verdade sempre foi associado com a finitude; e, aqui, o conceito de verdade está sendo associado com o infinito. E, mais gravemente (e aqui eu não vou expor inteiramente, porque não é o momento…), é que os atomistas estão falando em infinitos atuais; e o Aristóteles só falava em infinitos potenciais. Então, os infinitos atuais seriam infinitos reais: inteiramente reais! No sentido de que o potencial é que não seria real! Os infinitos atuais são: o átomo, o vazio e a combinação do átomo com o vazio.

Esses átomos se movimentam. Evidentemente, se movimentam no vazio. Não se pode identificar vazio com espaço. Espaço e vazio não são a mesma coisa. Porque se eu dissesse que o vazio é o espaço, eu diria que o vazio é constituído de alto, baixo, direita, esquerda ― ele não tem nada disso. (Certo?) Então, o movimento desses átomos é um movimento difícil de entender, pelo menos inicialmente. Nós sabemos que eles se movimentam; e que, além de se movimentarem, eles se chocam uns com os outros. Portanto, nós teríamos dois movimentos muito claros nos átomos: movimentos e choques.

Movimentos e choques!

Já é uma tese de Epicuro, que bastariam esses dois movimentos, o choque e a velocidade do átomo no vazio, para formar um sistema de pensamento. Mas o Lucrécio, que nitidamente vem do Epicuro, acrescenta um terceiro movimento, que ele chama de clinâmen.

clinâmen é bastante problemático. Nesse instante, vamos explicá-lo como “uma leve inclinação que o átomo faz a partir de si próprio”. O átomo se inclina. A inclinação seria algo como modificar a linha de movimento que ele estaria fazendo. E essa inclinação viria do próprio átomo.

Então, nós teríamos aqui, muito facilmente, a velocidade e o choque dos átomos no vazio. Esses átomos se encontram e, ao se encontrarem, começam a construir os corpos. A noção de corpo e a noção de átomo se distinguem, não são a mesma coisa. Um “corpo” é um “conjunto de átomos”. É impossível a um corpo ter uma existência eterna, porque o corpo está sujeito a choques e clinamens. E os choques e os clinamens desfazem os corpos. Por isso, aparece uma coisa muito bonita: os elementos ou germens que constituem os corpos são eternos; mas os corpos são duração ― nenhum corpo é eterno; todos os corpos duram: nascem e morrem. Isso daqui mostra que é impossível a qualquer corpo pretender a eternidade. Todo e qualquer corpo vai-se desmanchar necessariamente.

Mas agora aparece um quarto infinito. O quarto infinito é que todo átomo tem a sua configuração e tem átomos da mesma configuração ao infinito. Estranho esse fenômeno, que eu já vou mostrar o porquê deles estarem falando isso.

Mas nós chegamos a alguma coisa aqui… Nós aqui chegamos à compreensão do que são os mundos. Os mundos são constituídos pelos átomos. É indiferente… Eu posso até dizer que o átomo quântico nada mais é que um corpo. O átomo quântico é um corpo… (constituído pelos átomos do Lucrécio. Nítido, não é?). Todo e qualquer corpo é constituído de átomos ― átomos eternos, conforme Lucrécio está dizendo. Ora, a partir daí, os mundos são corpos que duram com os seus germens ou os seus elementos ― que são os átomos. Seria essa a organização do mundo que o Lucrécio constrói.

Em termos de átomos e corpos, uma catástrofe, uma destruição do mundo não seria nada demais: faria parte da própria Natureza! Mas, aqui, há um elemento, há um elemento aqui: a única coisa que pertence exclusivamente ao átomo é o clinâmen; o resto é a mistura dele com o vazio, não é? O clinâmen é absolutamente próprio do átomo. Evidentemente todos os corpos são constituídos por átomos (este maço de cigarros é um corpo, logo é constituído por átomos…) e, estranhamente, esses corpos, seja quais forem, todos os corpos que existem têm um processo de emissão: todos os corpos emitem… Mas emitem o quê? Ele poderia emitir duas coisas: vazio ou átomos.  Não se emite o vazio! Então, todos os corpos emitem átomos. Uma flor, por exemplo, perfuma o jardim porque emite átomos. Ou seja, não há sequer um corpo que não faça essa prática de emissão de átomos.

Essa emissão de átomos nos levaria quase imediatamente a concluir que um corpo, de tanto emitir átomos, tenderia a desaparecer… Mas isso não ocorre, porque…  (agora aparece uma doutrina muito difícil!) porque esses átomos estão banhados por átomos da mesma configuração, ao infinito. Então, há as emissões e há substituição. Não sei se vocês entenderam… Isso aqui, inclusive, é muito claro no pensamento das moléculas modernas. Para você pensar uma molécula, a molécula é uma estrutura constituída de partes, de elementos, e esses elementos são constantemente trocados. É a mesma coisa que Lucrécio está dizendo: que um corpo pressupõe átomos e a substituição desses átomos por outros. Por isso, nós passamos a entender que um corpo só se torna apreensível, que ele só pode ser apreensível se ele emitir átomos. Ou seja, o que nós apreendemos de um corpo é aquilo que o corpo emite. Se um corpo não emitir (provavelmente o buraco negro dá conta disso!). Se um corpo não emitir, você não o apreende. Parece muito claro isso: você não o apreende.

Então, todos os corpos são emissão. Ora, a partir daí, eu posso fazer uma doutrina dos cinco sentidos. Uma doutrina da sensibilidade humana; uma doutrina da sensibilidade viva. A sensibilidade nada mais do é que a apreensão da emissão dos corpos. O que torna a doutrina dos corpos do Lucrécio uma doutrina muito sensual. Nós olhamos e tocamos corpos. Tocamos pelo menos a emissão que é feita por esses corpos. As emissões que são feitas pelos corpos são chamadas de simulacros. Os corpos emitem envelopes, cascas, simulacros… Cascas, envelopes, simulacros são exatamente os átomos que eles emitem.

Então, Lucrécio vai fazer uma doutrina das emissões e dizer que existem emissões de profundidade e emissões de superfície. Os corpos são emissores de superfície e emissores das profundidades: átomos que vêm da profundidade, átomos que vêm da superfície. Ele constrói essas duas espécies de simulacros. O que eu estou chamando de simulacro é exatamente esse campo de emissão: todos os corpos emitem. Emitem! O que torna o corpo algo semelhante a uma cascata: fonte permanente de emissões. O corpo não para de fazer emissões. Em momento nenhum para de emitir. O corpo é uma fonte: fonte de emissões.

Agora, essa fonte de emissão dos corpos, que é ininterrupta, pode ser ou não apreendida por uma sensibilidade. Por isso, as emissões que os corpos fazem vagam no infinito do vazio. E ao vagarem no infinito do vazio, vai nascer a terceira espécie de simulacros, que o Lucrécio chama de fantasmas. O fantasma é o simulacro, emitido pelos corpos, distante das fontes.

Aluno: Corpos, aí, inclui indiscriminadamente matéria ou vida!?

Claudio: São átomos, átomos da mesma forma: tudo é átomo, não há mais nada.  Porque o que eu estou dizendo, literalmente, é que se eu pegar esta mesa que está aqui [Cláudio bate na mesa] e pegar o teu corpo, os elementos que compõem esta mesa são os mesmos elementos que compõem o teu corpo. Um ladrilho e o teu corpo também é a mesma coisa: os elementos atômicos são os mesmos, não têm diferença nenhuma! Então, é isso que eles estão dizendo: os elementos que compõem um corpo são os elementos atômicos. Agora, esses corpos emitem, são fontes ininterruptas. E quando eles emitem, determinadas emissões ― aquelas que não são apreendidas ― vagam, caminham pelo infinito. E ao caminhar pelo infinito, se transformam em fantasmas.

Fantasmas são as emissões distantes das fontes e sem possibilidades de renovação. Elas não se renovam. O Lucrécio vai chamar esses fantasmas de teológicos, oníricos e eróticos, que vagam e misturam-se pelo universo.

Aluna¹: Sem que sejam emissores de átomos…

Claudio: Os fantasmas não emitem! Eles não emitem!

Aluna²: Os fantasmas já não são emissões?

Claudio: São emissões, são emissões… Eles já são emissões!

Aluna²: Toda ideia de simulacro… isso aí para mim, eu acho que eu já resolvi pra mim… É que quando se vai avançando na explicação do Lucrécio, lá pelas tantas a gente perde o pé de que todo simulacro já é emissão, não é?

Claudio: Já é emissão. São emissões!…

O importante aqui, eu acho, é que a característica fundamental desses fantasmas é a ausência de renovação. Eles não têm mais renovação. Eles não se renovam. Não se renovam, e também se misturam!

Aluna¹: Porque Cláudio, o fato deles já serem emissões, eles não poderiam emitir?

Claudio: O emitido…?

Aluna¹: É. É isso que eu quero saber.

Claudio: Aquele que é emissão é aquele que se destaca da fonte emissora. Não sei se você entendeu… Destaca-se da fonte. Ele próprio não é fonte. Ele mesmo não é fonte!

Aluna¹: Entendi.

Claudio: Ele é como se fosse… Por exemplo: eu escrevo uma carta para você. Vamos dizer que se eu fosse um corpo lucreciano. Eu escreveria cartas para você de um em um minuto… mas as cartas não teriam possibilidade de escrever cartas… O que o corpo emite são cartas. Cartas, literalmente cartas.

Aluna²: Quer dizer, então, que na realidade essa ausência de renovação só pertence aos fantasmas ou ela pertence a todo simulacro?

Claudio: É que o fantasma é apenas o simulacro que não é apreendido. Ele se distancia da fonte. Isso é realmente muito problemático. Ao se distanciarem das fontes, eles se tornam assim como se fossem gases ― vão perdendo as formas e vão se misturando. Certo?

Aluna³: Eles se misturam, mas também não se extinguem…

Claudio: Olha, eles podem perder a configuração, podem. Pode-se fazer um exemplo assim de uma nuvem: de tanto se distender acaba se perdendo. Acabam sumindo, ficando apenas uns vagidos deles. Acabam sumindo… Mas não para ― porque não para, não é? Você vê que os simulacros de terceira espécie têm uma fonte infinita ― que são os corpos. Só se os corpos desaparecessem é que eles desapareceriam. Mas como os corpos não desaparecem… eles não param de voar por aí, não é?

Aluna²: Não para de haver emissão de fantasmas…

Claudio: Não para! É uma quantidade tão grande de emissões que é uma coisa terrível.

(Entenderam bem aqui?)

Bom. Esses fantasmas vão ser chamados de teológicos, oníricos e eróticos. Há uma narrativa do Michel Tournier que se aproxima disso aqui, porque o Michel Tournier é muito lucreciano.

Esses simulacros, esses fantasmas são a razão ― razão aqui traduzindo causa ― do mito. A emergência do mito, da superstição, estaria nesses fantasmas. Vejam bem: eles são distanciados da fonte.

No livro A gota de ouro do Michel Tournier, ele narra a história de um povo árabe que tem uma narrativa, no seu interior, dizendo que os ventos do norte trazem a morte. Segundo Michel Tournier, esses ventos do norte eram, na antiguidade, os povos nômades que habitavam o norte, que cavalgavam e destruíam tudo. Esses povos do norte desapareceram e, no mito, se transformaram no próprio vento. Nada mais houve que um distanciamento da fonte. A fonte se distancia e o mito emerge.

Então, o mito é um produto dos fantasmas ou dos simulacros de terceira espécie. E, segundo Lucrécio, a filosofia só tem um inimigo: o mito. O mito é inimigo da filosofia, é inimigo do pensamento. Mas aconteceu uma coisa terrível aqui. Esses mitos não são produto de um sujeito; esses mitos são absolutamente reais. Porque esses fantasmas de terceira espécie são absolutamente reais. Eles pertencem ao campo da Natureza. Se eu usar uma linguagem deleuziana, eles pertencem ao campo de imanência. Ou seja, o plano de imanência é penetrado de miragens: uma névoa que percorre esse plano. A miragem, a névoa que percorre esse plano, são exatamente os fantasmas de terceira espécie. São penetrados nesse plano.

Aluno: Claudio, os fantasmas de terceira espécie são os corpos ou os simulacros oníricos, teológicos e eróticos?

Claudio: São os simulacros!!! Emitidos pelos corpos e distanciados deles ― e sem a possibilidade de renovação.

(Entenderam?)

O que vai acontecer agora de terrível, é que as emissões ― de profundidade, de superfície e dos fantasmas de terceira espécie ― são velozes; mas a velocidade dos três é diferente: cada um traz sua velocidade. O mais veloz de todos são exatamente os fantasmas de terceira espécie: são eles! A alternância de velocidade produz três tipos de tempo diferentes. Porque o tempo é um efeito, uma propriedade da velocidade dos corpos. Então, o tempo seria alguma coisa que se originaria exatamente na velocidade de movimento desses simulacros, mas aqui nós começamos a encontrar o tempo como uma multiplicidade. O tempo só é unidade no dicionário. (Entenderam?). O tempo é múltiplo! É a paixão pela multiplicidade que está passando na obra de Lucrécio.

(fim de fita)

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Parte II

(…) a teoria do acontecimento. O caminho que nós temos que seguir é chamar o acontecimento de tempo: o acontecimento é o tempo. Ou seja, o acontecimento nada tem a ver com os corpos. Nada tem a ver com as velocidades. O acontecimento é um efeito. É um efeito: é isso o acontecimento! E a explicação que Lucrécio vai dar, é que são esses fantasmas que produzem o envenenamento e a tristeza da vida. Por isso, a filosofia torna-se um “para que serve?”.

― Para que serve a filosofia? Exatamente para destruir os fantasmas de terceira espécie. A filosofia passa a ser denunciativa: ela denuncia os fantasmas de terceira espécie. Porque o fantasma de terceira espécie é aquele que gera o seu séquito, os seus titulares, que são os homens religiosos. Os homens religiosos vivem a vida deles em torno desses fantasmas. Por isso, o religioso só se sustenta se produzir tristezas, paixões tristes. E as paixões tristes são produzidas por esses fantasmas. A exposição é essa.

Lucrécio escreveu a obra dele como uma física. (É uma obra dificílima!) Uma física que se pretende uma compreensão da Natureza. Compreender a Natureza. Mas a obra do Lucrécio não tem objetivo físico, não tem objetivo epistemológico. Toda a obra dele tem um objetivo prático, tem um objetivo ético. E, diz ele, se nós não afastarmos os fantasmas de terceira espécie, nós viveremos com as nossas almas perturbadas. Toda a perturbação da alma se origina nesses fantasmas de terceira espécie. A perturbação da alma atinge nível tal que, diz Lucrécio, este livro que eu estou escrevendo, De Rerum Natura (Sobre a Natureza) tem um objetivo estranhíssimo: provar que depois de mortos nós estamos mortos. Provar isso.

Por que provar que depois de mortos nós estamos mortos? Porque esses fantasmas de terceira espécie vão gerar os falsos infinitos. Aqui é o problema da nossa aula: a geração dos falsos infinitos. Os falsos infinitos têm origem na ilusão, que nós temos, da capacidade infinita dos prazeres do corpo e na duração infinita da alma. Seriam esses os dois falsos infinitos.

Olha o que aconteceu aqui:

Aluna: Você pode repetir os dois falsos infinitos, por favor?

Claudio: Capacidade infinita dos prazeres e duração infinita da alma. Depois eu vou trabalhar isso, não é? Vou fazer uma associação disso tudo com Espinosa.

Aluna: Claudio, posso fazer uma pergunta? Não sei se essa relação está certa, mas será que essa ideia de combater os falsos infinitos, como efeito da produção dos simulacros-fantasmas, teria a ver com uma leitura do Lucrécio de toda a mitologia grega? Porque, até do reino de Hades como (…)

Claudio: Mais grave do que isso, ele está colocando Platão como produto do fantasma da terceira espécie.

Aluna: Pois é, porque em Platão que vai aparecer essa (…) da imagem…

Claudio: O Ser, o Uno, a Totalidade, tudo isso, são conceitos de fantasma da terceira espécie. É um negócio de uma radicalidade terrível, terrível!!!

Eu acho que o importante aqui é nós gravarmos essas duas ideias que o Lucrécio passou: verdadeiro infinito e falso infinito. Aqui é a grande questão: verdadeiro infinito e falso infinito. Por quê? Primeiro, é que ele está trabalhando com as ideias de verdadeiro e falso. E ao trabalhar com essas ideias, ele introduz o infinito como predicado do verdadeiro e do falso. Estranho isso: verdadeiro e falso infinitos! Nós sabemos que todas as filosofias gregas trabalhavam com o verdadeiro e o falso… Sempre trabalharam com o verdadeiro e o falso. Mas o verdadeiro e o falso não estariam associados com o infinito. No caso do Lucrécio, é uma associação com o infinito… Isso vai nos levar para um caminho! Eu acredito inclusive que esse verdadeiro e falso, que o Lucrécio está levantando, se aproximam muito do verdadeiro e do falso problema do Bergson. Por quê? Porque as noções de verdadeiro e falso são noções que mostram, de um lado, a positividade do pensamento, quando o pensamento se liga com o verdadeiro; e, de outro, a negatividade do pensamento, quando o pensamento se liga com o falso.

Todas as filosofias colocaram a positividade e a negatividade ao lado do pensamento. Ou seja, todas as filosofias introduziram a noção de negativo. O negativo como o falso. O falso é o negativo. A existência do positivo e do negativo, o falso sendo o negativo, implicou um método. Os filósofos construiriam métodos para afastar o falso. Mas sempre que um método é construído, o filósofo tem que, anteriormente, construir uma imagem do pensamento.

Imagem do pensamento é “como” funciona o pensamento ― como ele funciona; com o que ele lida; e o que ele quer.

Em Aristóteles é muito claro: o pensamento quer a verdade. Quer a verdade! Mas que verdade? Que verdade é essa? Estranho, isso: que verdade o pensamento quer? Em Aristóteles, o pensamento examina o real e no real ele busca o verdadeiro; mas o real é penetrado de falsidade. E o pensamento se equivoca: às vezes, toma o falso como verdadeiro. Por isso, constrói-se um método, que é a lógica demonstrativa do Aristóteles ― para responder ao que é o verdadeiro, ao que é o falso. Na verdade, a construção dessa lógica aristotélica, desse método aristotélico mostra que as coisas não falam: quem fala é o sujeito humano. É ele que produz a verdade.

É preciso produzir um sistema de pensamento para gerar a verdade. Isso daqui é importante, porque a partir da epistemologia ou da teoria do conhecimento nós teremos a verdade. O falso e o verdadeiro não seriam do campo ontológico, seriam epistemológicos. (Não sei se foi bem aqui!?)

Enquanto que o Lucrécio está falando que o verdadeiro e o falso são reais. Verdadeiro e falso reais. Reais, ontológicos. Nós estaríamos envolvidos nesse verdadeiro e falso. Então, não há como evitar a presença do fantasma de terceira espécie: eles estão presentes aí. Inteiramente presentes! Não há como evitá-los.

O único modo que nós temos para lidar com eles é entender as leis da natureza pra saber que eles são nada mais e nada menos que fantasmas de terceira espécie. E aí, em vez de nos provocarem terrores e medo, nós passarmos a rir com eles.

Provavelmente, o que está sendo dito aqui é que se esses fantasmas de terceira espécie forem tomados como o motivo do pensamento, vai nascer a religião. Se nós os tomarmos como elementos que podem nos dar prazer, provavelmente vai nascer a arte. Provavelmente será isso: fazer a mutação desses fantasmas do campo da religião para as artes.

O importante é que a partir daqui a gente vai começar a construir o plano de imanência. (Foi bem até aqui, não foi?)

(intervalo para o café)

Aluna¹: Me diz uma coisa, (…) esses fantasmas são distantes da fonte, não é? A partir do momento em que eles são pegos ou pela religião ou pela arte… uma para provocar tristeza, outra para provocar prazer… eles não estão de novo ligados a uma fonte?

Claudio: Não, é o uso que você vai fazer deles.  É uma pragmática: é o uso que você vai fazer deles.

Aluna¹: Então, é irreversível: eles jamais têm condição de se ligar a uma fonte?

Claudio: Jamais, eles são isso que eu acabei de dizer, a ontologia deles é essa!

A primeira questão que eu coloco é se seria possível ou não aproximar esses fantasmas de terceira espécie da imaginação de Hume. Por que eu estou perguntando isso?

Porque a imaginação do Hume é exatamente a mesma coisa. É o movimento nas imagens, inteiramente caótico, inteiramente livre, inteiramente inconstante, que se dá na imaginação. É a completa inconstância que se dá ali dentro! Da mesma maneira que o Lucrécio aponta que cavalos alados e dragões de fogo vêm dos fantasmas da terceira espécie, Hume, da mesma maneira, diz que eles vêm da imaginação. Então, não há nada que me impeça de fazer essa aproximação. E ao fazer essa aproximação, eu coloco a imaginação de Hume como o negativo do plano de imanência dele e os fantasmas de terceira espécie como o negativo do plano de imanência de Lucrécio.

E o que é que eu estou chamando aqui de plano de imanência?

É que eu não necessito de nada mais que a própria natureza para tudo isso que eu estou construindo. Nada mais! Eu não necessito de nada mais! Vocês notaram que eu estou construindo tudo isso apenas com dois elementos, os átomos e o vazio? Não precisamos de mais nada. Eu não introduzi nenhum conceito absurdo pra falar sobre isso. Átomos e vazio, eu estou dando como (…).

Muito bem!

De outro lado, vai aparecer essa questão que também vai permitir que penetremos no pensamento estoico: a questão do pensamento. Porque quando o Lucrécio fala em átomo, a noção de átomo é terrível ― porque o átomo não é um objeto sensível; ele é um elemento abstrato. O átomo é um abstrato, no sentido de que não há meios de apreensão do átomo pela sensibilidade. Não por causa de uma deficiência instrumental. Não seria a falta de telescópio que faria Galileu não encontrar o átomo de Júpiter. É que o átomo, enquanto tal, não pode ser apreendido pela sensibilidade; o átomo é um elemento do pensamento.

Aluna: Ou seja, só a emissão que o átomo faz pode ser apreendida pela sensibilidade.

Claudio: Exatamente! Só os objetos sensíveis: os corpos enquanto tais.

Aluna: O átomo é a gênese…

Claudio: O átomo é a gênese, mas ele é um abstrato. Ele é um elemento do pensamento.

Eu acredito que agora podemos construir que o real, enquanto tal, é constituído de concretos e abstratos. O abstrato é o eterno. O concreto é a duração; é o sensível. Na verdade, o mundo em que nós vivemos é um mundo de ilusões. O real enquanto tal é apenas o abstrato. Nós estamos envolvidos num mundo de ilusões. Cercados por essa névoa quase enlouquecida de ilusões. E é com isso que o pensamento vai lidar.

O Lucrécio aqui está diante do problema do pensamento: o que é exatamente pensar. Pensar não pode ser nada diferente do que se dá na realidade. E o que se dá na realidade são as sínteses atômicas; as composições dos átomos. Por isso, o Lucrécio vai ser diferente de toda a tradição do pensamento grego. Porque o pensamento grego constitui uma lógica atributiva. Aqui eu vou começar a te responder, ouviu —? O pensamento grego constrói uma lógica atributiva. Lógica atributiva é atribuir-se um predicado a um sujeito. E [acrescente-se que] a lógica atributiva é constituída pelo domínio do verbo ser na terceira pessoa do singular. É assim que se constitui uma lógica atributiva ― “o homem é bonito”, por exemplo.

E o Lucrécio, com essa figura dos átomos, constrói uma lógica conjugativa ou conjuntiva. Ele substitui o verbo ser pela partícula “e” ― tudo se conjuga!

Há, aqui, uma grande diferença. Por que uma grande diferença? É exatamente o que eu citei do Aristóteles. Quando o Aristóteles constrói o seu sistema de pensamento, o constrói numa lógica atributiva. Nós estamos entrando num momento muito difícil: Aristóteles constrói seu sistema de pensamento numa lógica atributiva.

(Está indo bem assim?)

― O que é exatamente uma lógica atributiva?

Atribuir é atribuir predicados ao sujeito.  E há duas maneiras de atribuir predicados ao sujeito: atribuir predicados essenciais e predicados acidentais. São os dois predicados que você pode atribuir ao sujeito. Por exemplo: o homem é um animal racional, ou melhor: André é um animal racional, alto, magro, etc. Quando eu digo assim, animal racional é a essência de André; mas alto e magro são acidentes. Então, os acidentes são apreendidos pela experiência. E a essência é apreendida pela razão. Na verdade, a essência nem é apreendida pela razão: ela é produzida pela razão. E só pode haver ciência dos atributos essenciais. Só há ciência do atributo essencial, que é produzido exatamente pela razão; logo, é uma projeção do sujeito sobre o mundo.

Enquanto o Lucrécio diz que o pensamento não projeta nada: ele entra no mundo; e diz o mundo exatamente como ele é. Parece que, aqui, ao romper-se com essa lógica atributiva e ao entrar-se nessa lógica conjugativa ― que é a morte do verbo ser na terceira pessoa do singular, pode-se assistir, na história do pensamento do Deleuze, à incrível briga que ele tem com esse verbo, a ponto de chamá-lo de ‘verbo tarado’. Por que ele faz isso? Porque esse verbo realmente prende o pensamento, ele segura o pensamento. E toda a história do pensamento…

(atenção que isso daqui é de uma beleza incrível, hein?)

O ser, em Aristóteles, é atributivo. O ser, em Lucrécio, é conjugativo: é conjugado; no outro, é atribuído. Isso se chama distribuição do ser. A distribuição do ser leva Aristóteles a fundar a doutrina das categorias.

Estamos começando a entrar numa dificuldade imensa: na doutrina das categorias aristotélicas. Essa doutrina das categorias aristotélicas se fundamenta na distribuição atributiva do ser ― e é isso que Deleuze vai chamar de fixo e sedentário.

(Mas ficou muito difícil! É só pra gente ir colocando o pé, para poder entrar.)

A distribuição fixa e sedentária é exatamente a atribuição. E a distribuição nômade é exatamente a conjugação. Seriam dois tipos de distribuição: duas maneiras de pensar a realidade. Praticamente, a constituição da obra do Deleuze vai ser em torno dessa diferença. A distribuição atributiva é o que ele chama de bom senso. Então, o bom senso é necessariamente fixo e sedentário, constituinte de categorias, etc.

Bom. A ideia de abstrato se opõe, é claro, à ideia de concreto. Mas a ideia de abstrato foi sempre alguma coisa pertencente à razão. A razão abstrativa constrói os elementos abstratos, por esse processo chamado abstração. Toda a história do pensamento coloca o abstrato no interior da razão. Enquanto o abstrato de Lucrécio é um abstrato real. Ora, se é um abstrato real, nós passamos a encontrar duas linhas na realidade: a abstrata e a concreta. O abstrato e o concreto ― que seriam duas realidades.

Essas duas realidades fazem uma marca radical no pensamento. Porque a razão aristotélica só tem um mecanismo: a abstração. Ela tem um funcionamento abstrativo. (Vou me servir do que eu dei:) Ela apreende os fantasmas sensíveis, que a imaginação lhe dá, e os transforma em fantasmas inteligíveis. Pelo processo de abstração, a razão abstrai a semelhança dos fantasmas sensíveis que a imaginação-memória lhe oferece ― e aí constrói os conceitos.

No caso do Lucrécio, o processo não é abstrativo. Ora, se não é abstrativo, ele precisa ter uma razão diferente da razão aristotélica. É uma razão que, digamos, é capaz de intuir: entrar em contato direto com o real. Então, nós temos aqui um mecanismo de pensamento completamente diferente. Nós não ficaríamos prisioneiros dessa razão abstrativa, que seria uma razão necessariamente dominada e determinada pelo mundo sensível. Essa razão lucreciana entra em contato direto com o mundo abstrato.

(Não sei se vocês entenderam bem isso, se ficou muito difícil o que eu disse! Eu agora preciso de informação sobre o entendimento de vocês, porque esse ponto vai-me levar adiante, vai desencadear o que vem na frente. Ficou muito obscuro o que eu disse? Eu acho que ficou!…)

Aluno: Quando você fala em “entrar em contato com o abstrato”, você está falando de um contato com esses simulacros de terceira espécie?

Claudio: Não, filho; estou falando de entrar em contato com o átomo! O que eu estou dizendo é que o real é literalmente átomos. Os corpos são compostos. A sensibilidade apreende esses corpos, mas o que o pensamento apreende são os átomos.

Aluna: Quando você diz, falando de infinito, que a ideia de verdadeiro e falso do Lucrécio se aproxima da teoria dos verdadeiros e falsos problemas e quando você diz que a razão em Lucrécio tem um princípio intuitivo, é o mesmo sentido da intuição que tem em Bergson?

Claudio: É mais ou menos a mesma coisa.

Isso daqui… é isso que eu digo pra vocês, que cada aula que a gente tiver, a gente tem que ter muita noção do que está sendo dito, e às vezes vocês podem me considerar um pouco chato, porque eu repito: Oh, vocês entenderam? Isso daqui eu estou comparando ao Kant, porque eu insisti desesperadamente que a intuição no Kant é só intuição sensível. Aqui está aparecendo uma intuição intelectual, que é completamente diferente! Porque, se a gente não fizer essas associações, a aula não tem sentido! Então, vamos fazer uma pequena pausa aqui, só para vocês entenderem.

As duas noções aristotélicas de fantasma sensível e fantasma inteligível:

― O que é exatamente fantasma sensível em Aristóteles? É uma associação que o Aristóteles faz entre a sensibilidade e a imaginação-memória. A sensibilidade apreende alguma coisa no mundo. A sensibilidade apreende os indivíduos, que permanecem na imaginação mesmo na ausência desses indivíduos. É muito simples: eu apreendo a Márcia, fecho os olhos, a [imagem da] Márcia continua dentro de mim. Então, os indivíduos ― menos a existência deles ― chamam-se fantasmas sensíveis. O fantasma sensível é aquilo que está na imaginação. É dos fantasmas sensíveis que a razão vai abstrair o fantasma inteligível. O fantasma inteligível é a geração do conceito. O conceito é o fantasma inteligível. Ou seja, o fantasma inteligível é uma ideia geral.

(Não sei se foi bem aqui…)

O que é uma ideia geral? É o fantasma inteligível. Ele só se constitui a partir dos fantasmas sensíveis. Vejam que esses dois fantasmas são fantasmas da subjetividade. Um é sensível ― as imagens na ausência dos indivíduos reais; logo, a imaginação pressupõe uma memória, que os conserva; e a razão entra ali e faz uma prática de abstração.

A prática da abstração é muito fácil: ela extrai dos fantasmas sensíveis o que neles é semelhante. E aí constrói o conceito. O conceito emerge como gênero. É um conceito genérico. (Não sei se está indo bem aqui…).

(Você entendeu Eduardo?)

 Estão nascendo os universais. E como em Aristóteles isso é completamente confuso (e dá motivos para as maiores confusões), isso vai gerar a famosa querela dos universais, na Idade Média. Ockham. Contra Ockham, exatamente por causa disso. Mas o objeto da razão passa a ser o universal ― o gênero. É isso que se chama conceito. Conceito e gênero é a mesma coisa. Então, a razão trabalharia com esse conceito ― que é o conceito genérico. E Deleuze, na obra dele, chama o gênero de conceito, (certo?). Mas a razão, além de produzir os conceitos genéricos, vai ter a necessidade de produzir os conceitos específicos ― e aí aparece o que se chama diferença conceitual.

― O que é a diferença conceitual? É um conceito genérico mais a diferença específica. Apareceu o conceito de diferença. O conceito de diferença, na especificidade. (Tá?)

A obra do Deleuze visa a encontrar não a diferença conceitual, mas o conceito de diferença, ou seja, um conceito que tenha no seu próprio interior o diferencial.

(Não ficou muito bem, não ficou não!)

Aluno¹: Claudio, isso está bem, mas você falou isso com o propósito de esclarecer ideias abstratas.

Claudio: A ideia de abstrato é que o pensamento pensa com átomos. Ao pensar o átomo, está pensando o próprio real. Ele não está representando, ele está pensando o próprio real.

Aluno²: Claudio, sabe o que ficou confuso? É quando você diz que pensar o simulacro, nesse caso, seria pensar o real…

Claudio: Não é o simulacro, é o átomo!

(final de fita)

 

Parte III

(…) Contacta…  O elemento do pensamento é o átomo. Na verdade, o átomo é a ideia. É a própria ideia; não é uma representação do espírito. É uma ideia.

Aluno¹: Seria um abstrato ontológico!?

Claudio: Ontológico! O que é importante para mim, neste momento, é nós admitirmos que o real é constituído pelo sensível e pelo abstrato. Isso que é importante para mim. Isso que é importante! Isso que eu quero ter como fundamental!

Fala lá, Jorge:

Aluno: Os simulacros oníricos, sexuais e teológicos são ontológicos?

Claudio: Eles são ontológicos! Mas eles são um negativo. Eles são aquilo que envolve o pensamento numa ilusão.

Aluno: Mas é necessário que haja um entendimento sobre eles para que isso possa se…

Claudio: Não. A única maneira de você se libertar deles é se você entender o funcionamento da Natureza.

Aluna: Eu acho que a diferença é a seguinte: você estava falando no princípio ético, não é? Que o princípio ético do pensamento tradicional grego, Platão e Aristóteles, é caçar o simulacro, é expulsar. O princípio ético do Lucrécio não é caçar, é compreender.

Claudio: É compreender ― compreender a lei da Natureza.

Aluna: Compreender. Cuidar do simulacro para não se prender nos buracos que ele causa…

Claudio: É simples! Eu acho que aqui é simples. É a coisa mais simples do mundo, Eduardo. Você pega um homem religioso e ele se submete aos fantasmas de terceira espécie. Você pega o pensador, o físico, ele quer entender a lei da Natureza. Entendendo a lei da Natureza, ele compreende a formação dos fantasmas de terceira espécie. Porque… Vocês não estão compreendendo a formação do fantasma de terceira espécie?

Aluna: Sim.

Quem os está levando a compreender os fantasmas de terceira espécie é o pensamento. Se não tivesse o pensamento, vocês não compreenderiam o fantasma de terceira espécie. Vocês diriam que o mundo é habitado por cérberos, centauros, dragões de fogo, rios Aquerontes, deuses, infernos, tudo isso estaria aqui neste mundo. É o pensamento que é capaz de gerar a compreensão do fantasma de terceira espécie. Por isso, para Lucrécio ― e aí ele é altamente espinosista ― toda a questão é o fortalecimento do pensamento. Fortalecer o pensamento: o pensamento é o instrumento que nós temos para atravessar esse plano de imanência.

Aluna: [aluna ri] É Espinosa que é altamente Lucreciano, não é?

Claudio: Dá no mesmo! As inversões são justas!…

Aluna: É verdade!

(Não entendeu não, Eduardo?)

Aluno: Eu entendi. O que fica confuso é o seguinte: é que o caminho desses simulacros se dá numa espécie de virtualidade. Nas sombras, não é?  Quando você falou onírico, a gente imagina aquela coisa caminhando no sono…

Claudio: O que eu disse é onírico, erótico e teológico. O que eu disse é o seguinte: quando nós sonhamos, diz o Lucrécio, os nossos sonhos não são produto de nossas memórias (ele não disse assim, mas eu posso dizer!). Os nossos sonhos são que esses fantasmas de terceira espécie penetram dentro de nós. Eles penetram, porque a nossa atenção está enfraquecida. Por isso, os nossos sonhos são de uma velocidade excessiva e uma mistura dos mais estranhos seres.

(Não sei se vocês entenderam…)

Não é você que está produzindo; aquilo entra em você. Agora, o problema é você passar a ser dominado por eles: jogar no bicho no dia seguinte, querer interpretar ― é isso que ele está dizendo! Você tem que conviver com aquilo alegremente; e não se submeter àquilo. Submeter-se é a prática do religioso ― que é o criminoso, o ávido, o cúpido.

Aluna: É a mesma coisa quando Nietzsche coloca os sacerdotes como formadores da má consciência…

Claudio: Muito parecido… Muito parecido, em outro plano de imanência. É muito parecido! Eles têm planos muito semelhantes.

Esses fantasmas, o fantasma onírico você não pode ver. Só quem pode apreender esses fantasmas oníricos é o nosso corpo no estado especial do sono. Eles são tênues, são finos; então, só o sono muito profundo o apreende. E aí você sonha: sonha e confunde esse sonho com alguma coisa real.

Aluna²: E a arte, Claudio?

Claudio: O que eu chamei da arte é alguma coisa que você não encontra em Lucrécio, ouviu? Que não tem muito explícito nele. Mas é alguma coisa ― e eu estou dizendo isso de modo um pouco arriscado ― que você encontra, trabalhando também com essas ficções. A arte trabalha com as mesmas ficções. Mas os objetivos da arte não são os mesmos da religião. São objetivos diferentes…

Aluna: Mas em Lucrécio não há menção da arte porque talvez, pra experiência dele, a arte estivesse misturada com a religião, não?

Claudio: É possível, é possível que naquela época não tivesse da mesma maneira…

Aluna³: No sono, no sonho o grande funcionamento seria essa intuição abstrata?

Claudio: Não, o sono apreende esses fantasmas. Porque, se vocês lerem uma teoria do cérebro ― vocês podem ler O cérebro consciente do Steven Rose, que tem tradução para o português ― vocês vão ver que no sono o cérebro adquire uma estrutura diferente de quando está na vigília. Ali entram determinadas coisas que não entram na vigília. O que entra são exatamente esses fantasmas de terceira espécie. Mas, a partir disso, você faz previsões, faz teorias, “foi mensagens de Deus”, não é? Não é nada disso! Você só começa a compreender e a se livrar do domínio desses fantasmas a partir do entendimento da lei atômica. Entendendo a lei atômica, essas coisas começam a desaparecer. Não é que o fantasma de terceira espécie vá desaparecer: você não vai deixar de sonhar, você vai continuar sonhando; mas não vai mais jogar no bicho por causa do sonho. Como, por exemplo, a história que o Guattari conta ― e que é muito bonita… Uma história assim, eu presenciei nos meus netos! O sonho contado por uma tribo primitiva, diz o Guattari, é uma narrativa de discurso indireto livre: Um primitivo começa a contar o sonho que ele teve, por exemplo: “eu sonhei que um dragão vinha me atacando”. E aí, outro primitivo interfere: “aí o Dragão mordeu a tua bunda, não é?” Eles começam a interferir, e transformam aquilo numa narrativa alegre.

O engraçado é que os meus netos contando um sonho faziam a mesma coisa. Quer dizer, é um processo em que a própria vida usa esses fantasmas de terceira espécie de uma maneira muito bonita. Mas vai ser dominado pelo religioso e tornar-se causa de paixões tristes.

Bom. A obra do Lucrécio ― por causa do falso infinito ― é constituída pelo medo da morte. Nunca um filósofo deu tanto realce a essa figura chamada “medo da morte”. O medo da morte como o constitutivo do luxo, do frenesi do capitalismo (como hoje se costuma dizer), das riquezas excessivas, da guerra… isso tudo vem do medo da morte! Esse medo da morte, então, é fundado exatamente pelos falsos infinitos. Se nós entendemos as leis da natureza, não é que o medo da morte não prossiga, mas ele vai ser pensado de uma maneira diferente. O medo da morte passa a ser a causa, a raiz de todos os sistemas despóticos: o reacionário, a violência, assim como a constituição de ciências originárias nos fantasmas de terceira espécie. As ciências a serviço do medo da morte. Eu aí apontaria para vocês lerem Massa e Poder do Elias Canetti. O Canetti é muito bonito para isso. Ele mostra ali até que ponto o homem é levado pelo medo da morte.

Aluna: E os verdadeiros infinitos?

Claudio: Os verdadeiros infinitos são o real, o pensamento os apreende! A questão do Bergson é distinguir o verdadeiro e o falso problema. A do Lucrécio é distinguir o verdadeiro e falso infinito. Precisa distingui-los. É isso que vai nos levar para constituição do homem livre. Eu não disse que é uma ética? A ética é a liberdade; a constituição do homem livre é a libertação dos falsos infinitos.

Agora vamos ver o que o Deleuze diz:

Aluno: É no capítulo Lucrécio e o simulacro na Lógica do Sentido?

Claudio: É.

É claro que o pensamento do Lucrécio é um pensamento dificílimo. Eu vou me ajeitar com ele utilizando o Espinosa, senão eu não consigo.

É uma beleza isso aqui. Olha aqui:

 “É aí que intervém uma teoria epicureana muito bonita [mas] muito difícil” (Lógica do Sentido, 1974, p. 280). Que é a teoria dos simulacros: muito difícil! É difícil de entender. Bom. “O tempo se manifesta com relação ao movimento”. (ídem, p.283). Vocês me desculpem insistir nisso. “O tempo se manifesta com relação ao movimento”. A importância disso é muito grande: foi nisso que as filosofias antigas se fundamentaram. O tempo sempre se manifesta com relação ao movimento. Deleuze, na obra dele, no Cinema 2, diz uma coisa surpreendente: que o tempo só começa a se libertar do movimento através dos movimentos aberrantes. Isso é surpreendente! É preciso que haja movimentos aberrantes para que o tempo comece a se libertar do movimento. Ora, movimento aberrante, movimento dos fantasmas de terceira espécie: absurdamente aberrante, de uma velocidade assustadora, e etc., tá? Então nós temos que verificar esse fato, que eu estou dizendo aqui, nas sínteses do tempo (que é o nosso trabalho). Esse fato de que na filosofia antiga o tempo está sempre se manifestando em relação ao movimento. Sempre! Ora, se o tempo se manifesta em relação ao movimento e se o movimento implica corpo, (porque você não pode pensar o movimento sem o móvel), o movimento sempre implica o corpo, o movimento é o presente no tempo. Isso é fundamental! Isso é que vai dar o rigor e a compreensão para a gente: o movimento é o presente no tempo.

(Vocês entenderam?)

O movimento é o presente no tempo. E é evidente, se o tempo é uma relação com esse movimento, o passado e o futuro vão emergir desse movimento. O passado e o futuro são as dimensões que surgem a partir do movimento. Não que elas estejam em movimento, mas surgem a partir dele.

Aluna: O movimento só está no presente.

Claudio: O movimento é o presente.  O movimento pode ser identificado como… A única maneira de se compreender o movimento é compreendendo o agora: o presente no tempo.

Uma tese muito difícil começa, então, a aparecer. E, a partir desse movimento, o passado e o futuro. É exatamente aí que vão começar a haver as distinções das filosofias. “É por isso que falamos de um tempo do pensamento com relação ao movimento do átomo no vazio…” (ibidem).

O tempo, o movimento, é constitutivo dos acontecimentos. O acontecimento…

                (As coisas ficam cada vez mais difíceis, e vocês têm que me dar notícias para eu saber o que eu estou fazendo. Eu tenho que saber o que eu estou fazendo!).

… O acontecimento é constituído pelo movimento. Aparece a ideia de acontecimento. O acontecimento é aquilo que se opõe ao atributo. O acontecimento é aquilo que se opõe à lógica atributiva.

Aluna¹:

Aluna²: Não é fixo, é acidental…

Aluna³: Pois é, porque quando você dá o atributo a algum corpo, você fixa esse corpo num conceito.

Claudio: É.

Aluna³: Enquanto que quando você está trabalhando com uma lógica conjuntiva, você não fixa, mas você cria nesse corpo a possibilidade de mistura com outros corpos.

Claudio: Eu acho que até o melhor que nós poderíamos fazer aqui seria opor acontecimento a propriedade.

Porque, não adianta, chega um momento de aula em que não adianta eu fingir pra vocês que sem isso vocês vão aprender ― sem isso vocês não vão aprender: [a questão] é opor acontecimento e propriedade.

Acontecimento agora passa a ser predicado oposto à propriedade. São dois predicados que você tem: de um lado, o predicado propriedades essenciais e propriedades acidentais; e de outro lado ― o acontecimento.

Está começando a possibilidade de você pensar de um modo diferente. Pensar de outra maneira. Pensar de outra maneira é pensar no nível do acontecimento e não no nível da propriedade da essência. Mas todo o modelo da lógica é o das propriedades de essências e acidentes. Essa posição conjuntiva ou conjugativa ― à diferença da lógica atributiva ― é o modelo do pensamento científico moderno. É o que se chama pensamento das relações. Já não se pensa mais atributivamente. Só se pensa agora em termos de conjugação.

“Como impedir a ilusão…” (idem, p.284).  O que quer dizer isso ― impedir a ilusão?

Nem é o problema de impedir a ilusão. É o fato de a ilusão estar inscrita num plano de imanência. A ilusão está inscrita num plano de imanência. O negativo está inscrito.

Vamos dar um exemplo: há uma teoria da consciência em Espinosa. E, segundo ela, todo o conhecimento que a consciência tem é um conhecimento inadequado. Todo o conhecimento dela é inadequado, exatamente porque a consciência é submetida às ilusões. Ela não é capaz de ultrapassar as ilusões porque é preguiçosa; é da própria essência da consciência a submissão às ilusões. Ela se submete a essas ilusões!

O Espinosa vai construir um método (Aristóteles também construiu um método…). Espinosa vai construir um método ― chamado método reflexivo ou formal ― com o objetivo de fortalecer o pensamento, para ultrapassar as ilusões em que a consciência está envolvida. Senão a consciência vai viver eternamente sob esse regime das ilusões ― com o conhecimento inteiramente inadequado. Por isso, diante do homem da consciência, “sai da frente”: lá vem asneira; só asneira! Porque o mundo dele é uma inadequação essencial.

Então, a questão do Espinosa ― que é exatamente a questão lucreciana ― é desqualificar os poderes da consciência, apontando que a consciência nunca poderá ter um conhecimento adequado da Natureza. Conhecimento adequado da Natureza, no caso do Lucrécio, é a consciência que se submete o tempo inteiro a esses fantasmas ― ela é inteiramente submetida a esses fantasmas.

Então, nitidamente, o criminoso, o religioso… O religioso não é só o homem da igreja: o religioso é o homem da consciência, produtor de superstições e de ignorância. A ignorância deixa de ser o que era antes: ignorância é o ser da consciência. A consciência ignora as leis da Natureza. Ignora completamente as leis da Natureza. Ela não tem como penetrar nas leis da Natureza. Então, o esforço que tem que ser feito é pra quebrar essas formas da consciência.

É um pensamento dificílimo, como eu estou mostrando pra vocês, em que a gente vai tentar fazer um trabalho.

Eu vou fazer aqui uma pausa ― em que eu vou dar uma pequena orientação. Não sei se o melhor seria vocês já lerem diretamente o Lucrécio ou pegarem algum livro secundário, que aponte para determinados elementos no Lucrécio, para a gente poder trabalhar. Quer dizer, isso apressa o nosso trabalho. Eu não precisarei dizer determinados conceitos simplórios, a gente já vai passando mais forte. Existem muitos de literaturas secundárias, que eu posso indicar pra vocês, dizendo os temas fundamentais do Lucrécio, para se entender isso que está acontecendo aqui.

Algo de definitivo aconteceu. De definitivo! Há uma ilusão que percorre o plano de imanência. Há uma ilusão imanente. Essa ilusão pode nos pegar, ela pode nos dominar. É preciso fortalecer o pensamento para ir além dessa ilusão.

Aluna: O que significa libertar o pensamento da consciência…

Claudio: Libertar o pensamento!

Mas isso daqui é um negócio assustador, assustador! Sempre que eu trabalhei nessas questões de plano de imanência, eu encontrei as respostas no Espinosa. Eu consegui dar conta disso por Espinosa. Realmente, aqui eu ainda me enrolo; lá no Espinosa eu consigo me resolver. É o Espinosa fazendo questão de mostrar as duas figuras: conhecimento adequado e conhecimento inadequado. Mostrando claramente a prisão que a consciência está envolvida.

Olhem como está começando a ficar rico: no momento em que o Espinosa vai fazer a construção da inadequação da consciência, ele introduz uma teoria do signo. Introduz uma teoria do signo. Por Espinosa, nós vamos chegar numa teoria do signo. Começa a aparecer uma teoria do signo para ele explicar o que é exatamente essa inadequação da consciência.   Eu insisto com vocês: o problema aqui é a consciência. Como a consciência ― por sua própria inadequação ― vai ser a condutora da nossa infelicidade. A linguagem do Deleuze em O que é a filosofia? é a opinião ― que é a mesma coisa: a opinião é a condutora da nossa infelicidade.

Bom, eu acredito que no Lucrécio não há mais nada a dizer hoje.

Aluna: Você falou que ia dar umas leituras…

Claudio: É. A literatura de apoio.

Claudio: De Rerum Natura a gente vai ler, mas a literatura secundária eu vejo depois!…

Aluno: Claudio, você destacou um ponto novo, que é a forma aprisionada. Eu antes pensava no simulacro, por exemplo, um cavalo se encontra com um homem e forma um centauro, uma coisa de imagem. Agora você liberou a coisa da forma aprisionada.

Claudio: A forma aprisionada, como?

Aluno: Como uma imagem…

Claudio: Não, eu apliquei Espinosa e disse que pelo Espinosa você vai verificar que a consciência é prisioneira desses fantasmas. Não tem como escapar!

A consciência é prisioneira.

Aluno: Essas formas aprisionantes, quando você entra no campo social, elas já se encontram presentes.

Claudio: É mais do que campo social, tá na Natureza, na Natureza!!! No plano de imanência. Ela é tão presente quanto os átomos! O negativo do pensamento é [algo] presente aqui dentro do mundo.

Bom. Chega de Lucrécio por enquanto, tá?

Aluno: Posso só falar uma coisinha, Claudio? O interdito do incesto seria uma forma natural desse…

Claudio: Não uma forma natural, uma forma convencional!

Aluno: No caso dos primitivos, por exemplo, quando eles produzem essa lei, já seria uma realidade ontológica, que ela já nasce de uma…

Claudio: Não, segundo Levi Strauss, seria um processo do inconsciente pra passar pra cultura. Segundo Deleuze, não. Mas eu não entendi por que você falou em interdito aí, fiquei um pouco perdido.

Aluno: Eu estava pensando nesse simulacro como uma coisa ontológica, uma coisa real, uma coisa que existe na natureza, fazendo parte dela.

Claudio: É real. A natureza tem uma névoa de negativo. Essa névoa está aí na Natureza…

Aluno: É muito fácil entender isso enquanto artifício, que a gente já conhece…

Claudio: Não, é da Natureza: a Natureza produz isso. Nós estamos envolvidos nisso, nesses fantasmas.

Claudio: Eduardo, é só você entender isso como real, é só isso! Não há nenhum problema…

“O falso infinito é o princípio da inquietação da alma” (idem, p. 285). A alma humana é inquieta. É sofrida, atormentada. É esse tormento da alma humana que é a questão do Lucrécio. Toda a questão que ele tem. Por que essa alma inquieta? Como ultrapassar a inquietude da alma? É o domínio desses fantasmas de terceira espécie.

Aluna: São as paixões tristes de Espinosa.

Claudio: São as paixões tristes de Espinosa… É o nascimento do homem religioso, o criminoso, tudo isso.

Nós não estamos seguindo o caminho ideal desta aula. Temos que seguir o caminho ideal da aula… O falso infinito ficar definitivo como sendo uma coisa real, e a partir daí a gente fazer um caminho!…Acho que está bem dado, Eduardo. Acho que alguma coisa está te prendendo…

Aluno: Você libera questões aqui que ficam muito marcantes!  O medo da morte como sendo uma das questões cruciais do Lucrécio. Gerando a vontade de poder. Então, o medo da morte gerando a vontade de poder, dá a impressão de que isso é uma coisa que é produzida pelo próprio homem… uma manipulação… Mas não é isso!

Claudio: Não, não é uma manipulação. É o próprio medo da morte mesmo! O medo da morte é que leva o homem a fundar muralhas, etc. Leva-o ao sedentarismo. É o medo da morte!

Aluna: Ele supõe que a morte pode ser afastada ou adiada por qualquer…

Claudio: Sobretudo por essa tese do Lucrécio, de que depois de mortos nós estaríamos vivos. É esse o grande medo da morte: depois de mortos, estarmos vivos. A capacidade infinita dos prazeres e a infinitude da alma. Isso é que produz o grande medo da morte. Se essas questões forem suprimidas, o medo da morte desaparece.

Aluna: Agora, me diz uma coisa: isso aí não vai ter uma consequência, não tem aí uma leitura crítica da teoria da reminiscência de Platão? Porque, olha só, o que funda a teoria da reminiscência de Platão não é transmigração das almas?

Claudio: Todo esse fantasma de terceira espécie vai ser identificado a Platão. Platão é produto disso.

Aluno: Pois é, porque essa duração infinita das almas se liga na…

Claudio: É claro! É isso! Todo fantasma de terceira espécie explica as filosofia do ser, do todo, da totalidade… Todas essas filosofias viriam do fantasma de terceira espécie. Isso daqui é de um naturalismo radical, radical! É uma filosofia assustadora, porque ela coloca todas essas questões que foram levantadas na história do pensamento como produtos dos fantasmas de terceira espécie. A questão que parece que está ficando…

(fim de fita)

Parte IV

Claudio: Bem, eu preciso abandonar isso aqui.

(Não sei se eu fui bem… Como é que vocês foram?)

Aluno: Claudio, eu só não entendi, mas eu estou trazendo uma coisa que não é da aula de agora, é de uma aula ontem, —, que é então a existência de três tempos distintos nesses três…

Claudio: Qual é o primeiro tema que você tem aqui. O tempo deixa de ser uma unidade, ele passou a ser múltiplo. Você já tem uma coisa nova, que é a multiplicidade do tempo. Muito semelhante ao Proust. Proust não fala em Tempo Redescoberto, Tempo Perdido, etc.? O tempo começou a ganhar o campo da multiplicidade.  É uma expressão do Nietzsche muito bonita, quando ele critica o Schopenhauer. Shopenhauer diz que “A vontade é X”. Nietzsche diz: “Não existe ‘A vontade’; existem vontades!” ‘A vontade’ é apenas no dicionário. “O tempo” é uma ficção de fantasmas de terceira espécie. Você começa a quebrar todas essas ficções e começa a gerar um pensamento do múltiplo; o pensamento da diversidade. É essa questão do tempo que eu levantei. (Certo?). É essa a questão! É você ter agora uma compreensão do tempo como múltiplo, que é uma compreensão muito difícil! Porque nós somos dominados pela ideia de que o tempo é uma unidade! Aqui, no Lucrécio, a unidade desaparece: não tem mais unidade. Todas as unidades desapareceram. Nós estamos regidos por um princípio ― o da diversidade!  É este o princípio que nos rege!

Veja bem: a razão abstrativa não pode aceitar essa tese. Ela não tem como aceitar essa tese. A razão abstrativa tem que partir para a unidade. É preciso quebrar a razão abstrativa como sendo também produto de fantasmas. E não são? Fantasma sensível e fantasma inteligível? É só entender! A razão abstrativa precisa de fantasmas para se alimentar. É você começar a verificar como a história do pensamento é penetrada por esses fantasmas.  Eles penetram o pensamento.

Aluna: Tudo que é da ordem da consciência é penetrado por esses fantasmas!

Claudio: É penetrado por esses fantasmas…

Há um texto lindíssimo do Marcel Conche sobre o medo da morte. Eu tenho uma tradução para o português de má qualidade. Não é muito boa…

Aluna: Como é o nome do texto?

Claudio: Lembra aí, S, o nome do texto? É um texto do Marcel Conche só sobre o medo da morte.

S: O nome é Religião e Saber…

Aluna: É Religião e Saber!

Claudio: A tradução não é muito boa. Mas o texto é de uma beleza excepcional, porque está mostrando essa questão do medo da morte.

[Claudio prossegue com a leitura da Lógica do Sentido:]

“O fim ou o objeto da prática é o prazer” (Incrível, isso: a Natureza é tão sábia, que nos ensina imediatamente que nós devemos procurar o prazer e fugir da dor. A prática é de uma facilidade incrível: busque o prazer, fuja da dor!) “Ora, a prática, nesse sentido, nos recomenda apenas todos os meios de suprimir e de evitar a dor”. (A prática é suprimir e evitar a dor. Que coisa bonita!) “Mas nossos prazeres têm obstáculos mais fortes que as próprias dores: os fantasmas, as superstições, os terrores, o medo da morte, tudo o que forma a inquietação da alma” (Ou seja: o que é mais perigoso para nós não são as dores físicas, são as inquietações da alma.) “O quadro da humanidade é um quadro da humanidade inquieta, aterrorizada mais do que dolorida” (Ela sente mais inquietação que dor. A vida do homem é a vida da inquietação. É praticamente uma impossibilidade de viver. A gente brinca que pode viver: corre pra lá, corre pra cá, faz isso, vai ao cinema, faz não sei o quê…, a inquietação é violenta! É isso que ele está dizendo. Produzir um homem livre, fora dessa inquietação.) [“Mesmo a peste…”] (Isso daqui é tão nosso!…) [“Mesmo a peste se define não apenas pelas dores que transmite, mas pela inquietação generalizada que institui”]. “É a inquietação da alma que multiplica a dor; é ela que a torna invencível, mas sua origem é outra e bem mais profunda” [Lógica do Sentido, pp.279-80]: é o falso infinito!

Então, eu acho que está muito definitivo, não é? Muito definitivo! A tese dele está nítida. O que apareceu para nós? Isso eu não dei pra vocês, é o fato de o Lucrécio ter produzido o infinito real. O infinito é real; coisa que o Aristóteles não teria tido condições de colocar. Teria produzido um infinito potencial. Lucrécio produz um infinito real. E nesse infinito ele produz como falso e verdadeiro. E a experiência do pensamento é essa distinção.

Aluna: Deixa eu te fazer uma pergunta? Eu sei que a gente está falando o tempo todo e você está sempre remetendo para uma tradição no pensamento. Mas quando a gente trabalha Platão, Platão tinha a noção de infinito real, mas que o pensamento não poderia dar conta desse infinito real. Que o infinito era vago, ou múltiplo, [Claudio: Impossível dar conta dele] e que, portanto, era preciso [Claudio: Expulsá-lo] criar uma categorização sobre o infinito. Mas ele intuía que havia um infinito real?

Claudio: Ele intuiu o falso infinito. Ele nunca admitiu um infinito que pudesse ser pensado.

Aluna: Pois é. E o Aristóteles faz uma reversão desse infinito, transformando esse infinito numa ideia de abstração, não é?

Claudio: O que Platão faz desse infinito foi soterrá-lo… Soterra-o!

Aluna: E o Aristóteles manda esse infinito pra…

Claudio: Porque o Aristóteles é o herdeiro de—. Aqui a questão foi fantástica:

Nós passamos da impossibilidade do infinito ser pensado, para a única maneira de produzir a liberdade ser a de pensar o infinito! O infinito torna- se a questão do pensamento. Essa passagem para o infinito é a modificação generalizada do pensamento. Você entra no infinito e abandona as finitudes que eram o governo do pensamento.

Aluna²: Quem vai fazer isso é o Leibniz?

Claudio: Não, nós não estamos dizendo aqui que é o Lucrécio?

Aluna²: Lucrécio, sim, mais depois?

Claudio: Se vão aparecer outros filósofos que vão pensar assim? Siiiiiiiiimmmmmmm.

Aluna²: Você falou: aí vem o Aristóteles e, enfim, acaba montando outro sistema, para poder organizar a forma de conhecer. Então, como é que isso volta. Porque você falou que atualmente as ciências físicas já estão trabalhando novamente em cima desse conceito. Quem é o responsável por toda essa volta?

Claudio: Volta de quê?

Aluna²: Quem reintroduziu o infinito no modo de pensar?

Claudio: Não parou nunca, nunca parou de passar! Nunca parou de passar!

Deleuze, na obra dele, faz a distinção entre pensamento sedentário e  pensamento nômade: o sedentário expulsa esse infinito; e o nômade, não. Nunca parou de passar!

Bom. Em síntese, o pensamento lidando com o infinito… As consequências são gravíssimas, gravíssimas! Sobretudo na história do pensamento [busca-se] fazer uma prática de definição. Definir é definir o finito. O pensamento vai, necessariamente, abandonar a definição. Esses conceitos que vão aparecer em Deleuze: rizoma, etc., são originários nessa distinção. O pensamento lidando com o finito não teria nenhuma dessas questões.

Aluna¹: Ou seja: a explicação torna impossível ou torna possível

Claudio: A definição.

Aluna: E a explicação também… se a explicação passa a ser num certo sentido o…

Claudio: Olha, a explicação, não. A explicação difere da definição. A explicação tem origem no campo causal. A explicação é sempre causal. E se você encontrar uma causalidade na complicatio, você encontra uma explicação do infinito. Encontra uma explicação do infinito, que é a questão do Espinosa.

(Foi bem essa aula? O que vocês acharam? Foi bem, dentro dos limites de possibilidade? Não era até onde eu queria ir. Mas eu acho que foi bem! Dentro do possível, foi bem. O Eduardo se enrolou um pouquinho, não é Eduardo?)

Nós temos que começar a nos esforçar para aceitar certos tipos de pensamento e dar conta deles. Temos que começar a fazer isso, para fazer as passagens, senão a gente não faz.

Bom, como resto disso tudo, aqui vai ser dito que esse pensamento do Lucrécio se constituiu porque um pensador grego, Arquimedes, teria feito um método de exaustão. É um processo muito semelhante à revolução científica. O que é o marco da revolução científica é o Galileu, por exemplo, ter compreendido que com a matemática ele poderia dar conta do mundo. É a associação entre a matemática e o mundo. É fazer uma passagem do pensamento para o mundo. E não ficar preso na caixa do pensamento por processos abstrativos. É entrar no mundo!  Vias de passagem no mundo. Através desse pensamento, está surgindo aqui o problema do cálculo diferencial. Porque o Lucrécio vai pensar movimentos infinitesimais, velocidades infinitas, e, para isso, ele vai precisar de instrumentos teóricos que o conceito clássico aristotélico não dá conta.

(Foi bem assim, não é?)

Existe uma revista, em português, onde há uma explicação do método de exaustão. Uma revista, que eu não sei o nome, Silvia. Aquelas verdes…

S: Não sei o nome.[i]

Claudio: Procura explicar o método de exaustão. Porque aí vocês teriam que estudar número ― e número é muito cansativo de estudar; mas estudar a teoria dos números, compreender o que é número real, número racional, número complexo, para começar a entender essas passagens. O pensamento fazendo novas passagens; e lidando agora com o infinito!

Eu não vou falar nada mais hoje, porque eu acho que eu não fui muito feliz nessa aula. Acho que eu fui mais ou menos.

Aluna: Foi feliz, sim.

Claudio: Então está bom. Eu já estou muito cansado. Está bom!

Aluna: Está ótimo!

Fim.

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[i] Claudio refere-se aqui a uma pequena coleção de revistas publicadas pela editora da UNB: Curso de História da Matemática, Origens e Desenvolvimento do Cálculo, de Baron, Margareth E. – tradução do prof. José Raimundo Braga Coelho, 1985.

Aula de 26/05/94 – Corpos e Incorporais: o mundo da ciência e o mundo da filosofia

Parte I

(…) [Os estóicos foram] um escândalo na filosofia, porque eles constituíram a filosofia do EXTRA-SER. (Não é isso, Chico?). Essa afirmativa tem que se transformar em ideias, em pensamento, porque para muitos (talvez até para a maioria) é apenas um conjunto de palavras. Mas não; não é assim!

O tema [da aula] é: Platão e Aristóteles faziam a filosofia do ser − e o Ocidente herdou esse modelo. Ao lado disso, passaria outro tipo de filosofia ― no caso aqui eu escolhi a dos estóicos ― que eu chamei de FILOSOFIA DO EXTRA-SER. (Certo?)

― Qual a novidade introduzida pelos estóicos?

A novidade é que os estóicos não abandonam a filosofia do ser; mas acrescentam, à filosofia do ser, a filosofia do extra-ser. Essa maneira de falar, que eu estou empregando, permite-me entrar teoricamente no Platão-Aristóteles e seus herdeiros; e nos estóicos e seus herdeiros. O tema específico que eu pretendo que vocês dominem é REPRESENTAÇÃO e EXPRESSÃO.

(Eu não posso fazer de outra maneira. Eu vou tentar minorar a força desse discurso, mas eu tenho que apresentá-lo, porque não se trata de meras palavras, é muito mais do que isso!).

A FILOSOFIA DO SER coloca o indivíduo como ONTOLÓGICO; e diz que o indivíduo é qualquer coisa que esteja aqui individuado: copo, cadeira, mesa… Para essa filosofia do ser, portanto, o indivíduo seria toda a REALIDADE − no sentido que indivíduo e real se recobririam mutuamente.

O que é REAL? O indivíduo. O que é o INDIVÍDUO? O real. Nesse mecanismo, eu constituo uma ONTOLOGIA DO INDIVÍDUO − que em linguagem filosófica chama-se ONTOLOGIA DA SUBSTÂNCIA PRIMEIRA. (Vocês vão ter necessidade dela!) Então, ontologia do indivíduo ou ontologia da substância primeira. Mas, no ser, vão aparecer também as FACULDADES.

― As faculdades aparecem no…? Ser!

(Atenção para o que estou dizendo, hein, para depois vocês não perderem:)

Nesta teoria, tudo aquilo que existe é indivíduo.

Alª: Logo, também é ser!?

Cl: Logo, é ser!

Tudo o que existe é ser, logo, o ser recobre o indivíduo.

(Vejam se entenderam…).

Alª: O indivíduo é ser; e o ser é indivíduo, é isso?

Cl: É isso!

Agora, nessa filosofia do ser (e isso é clássico em filosofia!) você sai da ontologia do ser ― que é o indivíduo; e entra nas faculdades ― que é o que se chama GNOSIOLOGIA. A função das faculdades é conhecer o ser. (Certo?).

E o ser está se apresentando de duas maneiras: platonicamente, SENSÍVEL ou INTELIGÍVEL. Então, a filosofia do ser estabelece, por exemplo, que o sujeito humano tem a capacidade de entrar em contato com os indivíduos reais. E quando o sujeito humano entra em contato com os indivíduos reais, o sujeito humano cria a REPRESENTAÇÃO SENSÍVEL e a REPRESENTAÇÃO INTELIGÍVEL. (Marquem isso!).

― Então, nesse instante, quantas representações eu coloquei? Duas: a sensível e a inteligível.

Agora, as faculdades do sujeito humano estão do lado do ser: também pertencem ao ser.

― Então, a inteligência é ser ou não-ser? Ser! Por quê? Porque as faculdades pertencem ao ser. E a função das faculdades é apreender o ser. Ela é ser e a função é apreender o ser. Então, aparece a grande divisão: representação sensível e representação racional.  Ou seja, uma faculdade sensível apreenderia o ser enquanto indivíduo vivo; e uma faculdade de inteligência, intelectual, apreenderia o ser em termos de inteligibilidade.

(Ficou muito difícil, assim? Ficou, Vera? Fala lá…).

Alª: Eu queria que você falasse de novo sobre essa representação sensível e essa representação inteligível… de onde elas…

A representação sensível vem da filosofia do ser. O que é o ser, qual o sinônimo de ser? Indivíduo! Agora, nesse ser, nesse campo do indivíduo, aparece o SUJEITO HUMANO. O sujeito humano emerge no campo dos indivíduos. E o que esse sujeito humano vai fazer? Representar o ser.

Então, o ser é representado numa faculdade? É. Em duas faculdades: na SENSIBILIDADE e na RAZÃO − porque as faculdades também são ser. Elas são ser. Então, de um lado, tem-se ser igual a indivíduo; (tá?) e também igual a existente. Só pode existir o individual − e as faculdades do sujeito têm a função de apreender esse individual.

Então, por exemplo, este copo que está aqui é um indivíduo; mas é um indivíduo físico. Quem o apreende? As minhas representações sensíveis: eu represento este ser dentro de mim.

― Por que eu estou dizendo e insistindo nisso? Porque as faculdades são tão corpos quanto o ser. As faculdades são reais, assim como o ser é real. Então, as faculdades têm a função de representar o ser dentro delas.

(Está bem assim?)

São duas as representações: SENSÍVEL e INTELECTUAL. Representação sensível e intelectual.

Vejam se está correto o que eu vou dizer:

Eu disse que quem habita a ontologia é o indivíduo, que tem a existência ― indivíduo é sinônimo de corpo. Todas as representações, ou melhor, toda a ontologia [é ontologia do corpo].

― O corpo é real? O corpo é real e pertence ao ser. Agora, vai aparecer um CORPO PRIVILEGIADO. Esse corpo privilegiado é o HOMEM ― que tem a capacidade de apreender o ser pelas representações sensíveis e pelas representações inteligíveis ou racionais. Logo, o intelecto e a sensibilidade são ou não corpos? Sim, são corpos.

(Entenderam aqui?).

Alª: Onde é que essa inteligibilidade habitaria?

Cl: Olha, aqui você teria dois processos ― que eu não estou dando a menor importância. Por exemplo, no Platão a representação racional são as idéias contempladas pela alma. No Aristóteles, essa representação intelectual é um processo que o sujeito humano faz no sensível, abstraindo do sensível o inteligível. Ele abstrai do sensível o inteligível.

(Ficou bem assim?).

O importante que eu estou dizendo aqui é que as faculdades são corpo, elas são corpo. Da mesma forma que objeto sensível e objeto inteligível são seres, ambos são seres. Quantos seres há em Platão? Dois. Duas metades. Agora, há uma faculdade, há uma série de faculdades que pertencem ao sujeito humano e a função dessas faculdades é apreender o ser. E o ser vai aparecer de duas maneiras: como sensível é inteligível. (Está certo?) Ele aparece dessas duas maneiras.

Quando nós vamos para os estóicos, eles acrescentam à filosofia do ser a filosofia do extra-ser. Nos estóicos o ser não é o suficiente, há outra metade. Essa outra metade é o extra-ser. Agora, quem apreende essa outra metade?

Alª: O pensamento.

Cl: Mas o pensamento aqui está do lado do ser. O pensamento não é um incorporal − o pensamento é tão ser quanto qualquer outra coisa.

(Ficou difícil, não é?).

Alª: Mas como é que ele vai apreender???

Nós temos que ver como! Mas o que eu estou dizendo é que as faculdades, todas elas, são necessariamente ser.

Alª: Mas aí estaria colocando o pensamento como uma faculdade? Não, não é?

Cl: Como faculdade, sim; como não? O que você entende por faculdade, Vera?  Não é Faculdade Estácio de Sá, não. Aí é outra coisa: faculdade são as forças do sujeito para apreender aquilo que está fora dele. Então, eu apreendo o ser pela sensibilidade, pela memória, pelo intelecto… apreendo-o de várias maneiras… porque eu sou dotado de faculdades! Mas essas faculdades ― isso que é o importante ― elas são corpo. As faculdades são corpo.

(Eu não tenho nenhuma pressa disso daqui. Porque a pressa vai arrebentar com vocês, e comigo também.).

Então, eu estou dizendo que do lado do ser estariam as faculdades? Que as faculdades estão do lado do ser? Claramente? E o que mais está do lado do ser? O indivíduo. Ou, numa linguagem filosófica, a substância e o acidente. Então, quando você quer falar do ser, você fala da substância, do acidente e das faculdades. (O que você achou?).

Então, toda faculdade é corpo. Toda faculdade é corpo; logo, toda faculdade é… ser.

Alº: Aí, então, ser, corpo e indivíduo no caso do Platão e Aristóteles é… sinônimos?

Cl: Se eles estão de acordo? Estão, tranquilamente!

― Agora, os estóicos não colocam o extra-ser?

(Não, Marcelo. Você não pegou bem aí?)

Alº: Eu não peguei quando que você fala que a faculdade é uma coisa para apreender o que está fora dela.

Cl: Fora dela. A faculdade é um corpo que apreende os corpos… Por exemplo, a minha faculdade de sensibilidade está te apreendendo agora. Eu estou te apreendendo e você está me apreendendo. As faculdades também são corpos.

(Esse que é o tema fundamental! Eu não posso nem abandoná-lo, enquanto vocês não entenderem!)

Porque o SER é sensível e… inteligível. Segundo quem? Segundo Platão.

Agora, tem que haver faculdades para apreender esse ser. Se não houver faculdades, como apreender o ser? Então, eu estou dizendo que as faculdades também são corpos.

― A inteligência é corpo? Sim. A memória é corpo? Sim. E o pensamento? Também. Mas acontece que nos estóicos vai acontecer uma coisa terrível: porque o pensamento ― que é corpo ― vai ter que entrar em contato com os incorporais, o extra-ser. Ou seja: o pensamento é que tem que apreender esse extra-ser; logo, o pensamento vai fazer uma viagem para o universo incorporal.

Para Aristóteles, isso é um escândalo, porque o Aristóteles só admite o… ser. Só admite o ser! Então, para Aristóteles não tem o menor problema: tudo é ser!

Agora, os estóicos estão levantando a idéia de extra-ser. Essa idéia de extra-ser, que é o… (foi bem —– a semana passada, não?) Esse extra-ser é o indivíduo? Não! É corpo? Não! Ele não é nem corpo nem indivíduo. Então, é evidente que, se no universo do ser só existe aquilo que é corpo ou que é individual, o extra-ser não cabe aí. E esse foi o grande procedimento teórico que abalou o universo aristotélico. Porque os aristotélicos só compreendiam três coisas: a substância, o acidente e as faculdades.

(Bom, o que vocês acham disso? Está uma perfeição, não está não? Fala, Lula:)

Alº: Quando você falou que as faculdades são corpos… foi no sentido literal. Então, isso me surpreendeu, porque eu sempre tive a impressão de que as faculdades são do corpo.

Cl: Mas não são corpos?

Alº: É porque eu sempre concebi as faculdades como uma atividade… do sujeito.

Cl: Atividade do sujeito: atividade corporal do sujeito!

Alº: Então, eu fico surpreso como uma atividade pode ser, em si, um corpo. Ela seria do corpo.

Cl: Não, não, ela não é do corpo: ela é corpo!

Alª: Mas ela não habita o corpo?…

Cl: Habita: um corpo que habita outro! Esse corpo, que são as faculdades, você não vai encontrar no homem da mesma maneira que você vai encontrar na formiga. Mas o mais difícil seria se você dissesse que as faculdades não seriam corpo. Descartes dizia isso; e morreu dizendo essa bobagem. As faculdades são corpo e elas vão ter como objeto delas um corpo… corpo.

Alº: Cláudio, eu poderia dizer que justamente por elas serem corpos é que elas podem apreender os outros corpos?

Cl: Exatamente! Se as faculdades não fossem corpo, elas não poderiam apreender o corpo de jeito nenhum! Porque o que está sendo dito aqui na filosofia dos estóicos ― e isso é definitivo! ― o que eles perguntam é: o que existe? E eles respondem brilhantemente: os corpos! E alguma coisa mais existe, não? Só existe o corpo.  Então, as faculdades existem? Sim, porque são… corpos. Então, é esse o universo do ser. É o ser, com as faculdades que o apreendem. Agora, quando os estóicos produziram o extra-ser, nasce uma pergunta: quem é que vai apreender esse extra-ser?

(Não sei se vocês entenderam…).

Alº: Tem que ser o extra-corpo, não é?

Cl: Não, tem que ser o corpo! Aí que vem a grandeza: tem que ser um corpo. Ou seja, os estóicos fazem a filosofia do ser, fazem a filosofia do extra-ser, mas colocam o apreensor do extra-ser como corpo. Então, nós teríamos aqui…

Alº: Isso é um desdobramento do pensamento no homem?

Cl: Não entendi, repete!

Alº: Você diz assim: até os estóicos se pensava o ser. A partir dos estóicos o homem começa a pensar com o seu pensamento, que é corpo, outra substância que é extra-ser?

Cl: Não, Não!

Alº: Precisa de uma faculdade para isso?

Cl: Precisa. O homem… as faculdades do homem estão preparadas para apreender o ser. A função delas é apreender o ser.  O que estou lançando aqui é um paradoxo: eu estou dizendo que existe uma faculdade que não vai apreender o ser, vai apreender o extra-ser ― mas é uma faculdade!

Al: Estou perguntando se teria sido desenvolvimento do pensamento…

Cl: aristotélico?

Alº: humano. Não sei se aristotélico…

Cl: Não… É esse “humano” que eu estou perdendo aí, Hailton. Eu estou perdendo a questão do humano.

Alº: Quer dizer: a produção de um pensamento de uma época… Os aristotélicos, os estóicos, os…

Cl: Não. Veja bem. Os aristotélicos dizem: o ser é sensível e inteligível, mais as faculdades. Pronto! Eles dizem isso. Os estóicos dizem: só existe… Qual a única coisa que existe para os estóicos? O corpo! Então, eles dizem: só existe o corpo! Então, o homem, assim como os outros seres vivos, está preparado para apreender esse corpo, está preparado para apreender o corpo. Agora, o fantástico, que o estóico vai dizer, é que existe alguma coisa que se chama extraser. Mas, se o extra-ser existe, o extra-ser é corpo; porque tudo que existe é corpo! Por isso, os estóicos vão dizer: o extra-ser não existe − ele não existe!

Alº: Foram eles que lançaram isso…?

Cl: Foram eles que lançaram isso!

Alº: Para negar…

Cl: Não, eles não queriam negar, negar não. Negar o quê? Eles queriam a positividade da vida deles. Você calcula um estóico, um homem de 95 anos de idade, vai querer negar alguma coisa! Não quer negar nada! Quer afirmar a vida dele! Não tem tempo pra negativo… não tem tempo pra dialética, não. A dialética fomos nós, que estávamos muito preguiçosos “aqui no século XX”, aí podemos fazer dialética. Agora, naquele tempo não havia dialética, não. Tinha que fazer comida, cuidar do dedão do pé… (risos…)

(Entendeu, Pepe? Então, veja…).

Literalmente, o ser, nos estóicos, é corpo.  É isso que vocês têm que tomar conta, se ainda não entenderam, eu recoloco: o ser nos estóicos é corpo.

Perguntem-me: é um corpo? Eu respondo: é o ser! [Perguntem-me:] É o ser? [Eu respondo:] É um corpo!

Alº: Então, os estóicos criaram alguma coisa que não existe?

Cl: Se eles criaram alguma coisa que não existe? Não acredito que eles tenham “criado”; acredito que eles tenham “encontrado”.

Alº: Encontrado alguma coisa que não existe?

Cl: Sim, encontrado alguma coisa que não existe!

Então, no caso de uma filosofia do ser, essa coisa que não-existe não interessa: [se] não existe, não interessa!

(Mas agora, vamos voltar: vamos ver se eu fortaleço vocês!)

Alº: Claudio, esse existir, o que seria esse existir, essa existência, a categoria de existência?

Cl: A categoria de existência… numa resposta, não de definição, mas numa resposta de exposição: a categoria de existência é sinônimo da categoria corpo. Só existe aquilo que for… corpo! Deus existe? Então, ele é… corpo!  Nada pode existir sem corpo: nada! Tudo que existe é corpo. Por isso que os estóicos, quando falam em filosofia do extra-ser, eles dizem: o extra-ser não-existe, INSISTE. Começam a aparecer categorias assustadoras, porque o extra-ser, o surgimento do extra-ser, é simultaneamente o surgimento de um paradoxo; e evidentemente os paradoxos são aquilo que as faculdades rejeitam.

(Entenderam?).

O maior inimigo das faculdades que foram dadas na filosofia do ser é o paradoxo: elas não aceitam, a razão não aceita o paradoxo. Mas o que eu estou colocando é que foi constituída, então, a filosofia do extra-ser. O extra-ser não existe ― ele insiste. Vou dar um exemplo:

Eu posso desenhar… se eu tivesse aqui um quadro-negro, eu poderia desenhar um quadrado? Se eu tivesse giz? Posso. Se esse quadrado aparece marcado nesse quadro-negro, significa que esse quadrado existe! Por que existe? Porque está aí, nós estamos vendo! Ninguém vai ter coragem de dizer que aqueles elementos que aparecem na tela do Mondrian não têm existência… Têm existência, claro! É corpo, pode ser desenhado.

(Entenderam?)

Então, é exatamente isso que é a filosofia do ser, é tudo aquilo que existe. Agora, você pega, vamos tentar pra vocês me responderem:

― Por essa definição que eu dei, o quadrado existe? Existe!

(Marcelo, você entendeu?)

Então, os estóicos vão colocar a seguinte questão: o círculo quadrado existe?

(Respondam como vocês quiserem. Vê se alguém acha que existe.)

Olha, ele não existe, não é? Mas eu posso dizer que as duas propriedades do círculo quadrado são o circular e o quadrado? Ou não?

(Não ficou bem? Não ficou bem? Esses dois aqui não entenderam. Vejam bem:)

― Eu posso desenhar um quadrado? Posso. Tudo que eu posso desenhar, da maneira mais fácil possível, tem um sinônimo: existência; aquilo existe!

Agora, um círculo-quadrado… Tentem desenhar no quadro um círculo quadrado… ou no papel, aí… Não pode; por quê? Porque o círculo quadrado não existe, não é corpo. Embora ele não exista, ele tem duas propriedades: o círculo e o quadrado.

(Vejam que coisa empolgante!)

Alª¹: Então, ele é um extra-ser.

Cl: Ele é um EXTRA-SER!

Alª¹: Ele não existe, mas tem propriedades.

Cl: É isso que é fantástico: ele não existe, mas tem propriedades! E tudo aquilo que tem propriedade é real. Então, está aparecendo um REAL NÃO-EXISTENCIAL.

(Ficou bem?).

O real não-existencial. Esse real não existencial (vocês marquem se quiserem) é chamado por Bergson de VIRTUALIDADE. É chamado pelo Husserl de NOEMA. Então, vários tipos de filosofias vão lidar com esse incorporal, vão lidar com ele. E a primeira coisa, a coisa mais majestosa, é saber que o círculo quadrado não-existe, mas tem propriedades.

(Então, agora, prestem atenção:)

― Eu posso dizer que o quadrado que eu desenhei no quadro é real? É real. Então, aquilo que foi desenhado no quadro é real.

― Agora, o círculo quadrado é real? Atenção!

Cl: É! Mas só que não é o real individual, é o real singular: são DOIS reais. Prestem atenção!

Alº¹: Porque.. é… o extra-ser…

Cl: Espera aí, Ricardo, pra você entender bem, pra você entender: o ser e o extra-ser marcam uma diferença. Todo filósofo vai dizer que o ser é real; e não vai dar importância a outra coisa que não seja a realidade. Os estóicos não, os estóicos dizem: o real é o corpo e também o incorporal. Mas o corpo existe, e o incorporal não existe. E o incrível, que eles vão fazer, é que eles vão dar privilegiar essa filosofia ― a filosofia do extra-ser. Fundando uma filosofia da linguagem… fundando uma teoria do tempo… porque eles estão jogando essa figura chamada extra-ser, que não tem nenhuma existência, para o universo do pensamento.

(É dificílimo, não é?)

Alº²: Mas é real.

Alº¹: Então, círculo quadrado pode ser real, mas ele não existe!

Alª: É um real não-existente.

Cl: Real não-existencial.

Alª²: Cláudio, se eu desenho um círculo é uma atualização do círculo quadrado?

Cl: Não, você não consegue atualizar o círculo quadrado de jeito nenhum!

Alª²: Não, não, não. Mas o círculo e o quadrado…

Cl: Não, não. O círculo…

(fim de fita)

Parte II –

(…)

A filosofia clássica identifica o real à existência. Mas os estóicos disseram que o real tem uma metade existencial e uma metade não existencial.

(Agora, atenção para isso. Atenção!).

Se um objeto existe no mundo independente da minha vontade; essa xícara, por exemplo, existe independente da minha vontade. Se ela existe independente da minha vontade, ela é real ― porque ela existe nela mesma: não precisa de mim para existir. Agora, aí vem a confusão do Aristóteles:

― E o círculo-quadrado, pode existir no real? Não. Não, o círculo-quadrado não existe, não tem consistência para isso.

― Mas ele pode habitar a minha representação? Pode? Não, também não. Porque a minha representação não consegue produzir um círculo quadrado. Ela não pode representá-lo. O círculo-quadrado é irrepresentável: não há como representar “montanha sem vale”, “círculo-quadrado”, “Collor inocente”… (Risos)… porque são categorias que se opõem; não entram: não é possível!

Então, é exatamente o ser dessa figura ― o exemplo é o círculo quadrado ― que vai habitar esse extra-ser. Usando uma linguagem melhor para nós: no ser está o indivíduo, a substância, o acidente e as faculdades. Isso é do ser.  No extra-ser só está o incorporal. Dois exemplos de incorporal, para nós começarmos, dois exemplos só: o tempo e o vazio.

Alº: E o incorporal?

(Foi bem assim? Foi bem, Hailton?).

Alº: Você tem outros exemplos?

Cl: Além do círculo quadrado?

Alº: Não, além do tempo e do vazio…

Cl: Tem mais, sim. Eu não posso introduzir já, mas tem mais. Tem um que é fundamental. Um dos incorporais é o SENTIDO. E isso daí abala a teoria da psicanálise, porque a psicanálise constitui a linguagem em função do significante e o significante é um… corpo. É um corpo existente, é um corpo existencial. (Está bem, Cláudia?).

Alª: O significante é corpo?…

Cl: É corpo! O significante é corpo. Olha, você é capaz de ouvir uma palavra?… Vou falar para o Pepe, [que é argentino]: Maradona. (Está certo?). (Risos). Eu produzi essa palavra [Maradona] e essa palavra é um corpo. Ela é um corpo. Por isso a teoria que Lacan adotou é tornar a linguagem um corpo e o significante é o princípio e o fundamento da significação. Está teoria que eu estou fazendo mostra que o significante não é fundamento de nada, não é fundamento de nada! Nós teríamos dois setores: o setor do ser e o setor do extra-ser.

― Quais são os dois elementos com que eu preenchi o campo do extra-ser? O tempo e o vazio.

Mas acontece que os estóicos agora vão fazer a coisa mais bela da obra deles. Eles vão pegar as três dimensões do tempo: presente, passado e futuro. Pegam essas três dimensões, passam uma linha e botam de um lado, o presente; e, de outro lado, o passado e o futuro. Ou seja, tudo aquilo que existe, existe no mundo presente.

(Tentem agora comigo, por favor!).

Tudo aquilo que existe, existe no… presente. (Certo?). O que está fora do presente não-existe: não tem existência. (Certo?)

Então, o problema começou a surgir agora, porque se nós mantivermos essa posição, com a maior tranqüilidade ― a identificação da existência com o corpo ― as coisas vão ficar muito fáceis, muito fáceis. E é a existência do corpo que vai permitir a figura chamada representação: Representação sensível e representação inteligível. São as duas representações que você faz do real.

Mas, digamos que os estóicos fossem pintores; seriam pintores enlouquecidos! Porque a pintura trabalha com o quê? Com o ser, a pintura é ser, é uma massa: se botar a mão suja, você sai todo sujo de amarelo, de vermelho… Então, qualquer coisa que aparece numa tela pictórica é ser. Qualquer coisa que aparece na música é ser. Mas os estóicos vão dizer: o ser não é recoberto pelo indivíduo. Então, está lá o extra-ser. O extra-ser está aí.

Então, é preciso pensar esse extra-ser. E é isto que nós vamos fazer. É isso que nós vamos tentar fazer no momento em que eu me sentir mais seguro de que vocês já têm bem dominado o pouco que eu dei, é claro, da filosofia do ser. Que vocês a têm dominada, sabendo-se que ser é igual a corpo, e é invariável. (Certo?). E agora, do lado do extra-ser apareceu o tempo e o vazio.

― Agora, há tempo do lado dos corpos?

Alª: Presente, passado e futuro.

Cl: Não senhora, só o presente. Vera, você imagina que lá, no passado, está o cavalo Albatroz, que ganhou o Premio Brasil, acho que em 1950, que ele está lá no extra-ser? Não, minha filha: sendo corpo só pode estar no presente. Aí você me pergunta: e se inventarem uma máquina do tempo? Tudo bem, tudo bem. Quando o seu corpo aparecer lá no futuro, futuro para ele é presente. Ou seja, a pele do presente é a pele do corpo. O corpo, necessariamente, está incluído no presente do tempo.

Alº: Passado e futuro são representações do corpo presente?

Cl: Passado e futuro… Sim e não. Sim e não. A única coisa que eu posso dizer agora é que tudo que está do lado do passado e do futuro não existe. Não existe.

(Estão indo bem? Hein?)

Alª: Eu acho que sim.

A alma, por exemplo, para o cristianismo, é incorporal. Os estóicos quando ouviam isso morriam de rir, literalmente, de tanta asneira, tanta asneira! Porque esse pensamento é pra romper com a asneira, arrebentar com a asneira.

Então, o corpo é o ser, e é exatamente o corpo ― que é o ser ― em que o pensamento tem que penetrar para fazer ciência. A ciência é sempre ciência dos corpos. (Certo?) Evidentemente que, quando a matemática vier, no século XV, século XVI, século XVII, se juntar à física para fundar a física-matemática, a matemática também é corpo, também é um corpo. Corpo que você pode, inclusive, fazer uma equação e demonstrá-la.

Alª: Claudio, só existe corpo no presente…?

Cl: Se os corpos não desaparecem?… Essa é uma pergunta quase que fundamental em todas as filosofias. Você está envolvendo o corpo na teoria da CAUSA EFICIENTE.  Como é que um corpo pode se manter existindo? Descartes teve uma dúvida terrível e produziu a seguinte solução: os corpos estão sempre existindo, porque Deus não para de criar. A cada instante Deus está criando.

Alª: Sim, mas aí existiriam corpos diferentes —–Porque… com essa teoria de Descartes ele estaria explicando o nascimento dos corpos novos, mas não a permanência dos corpos.

Cl: Não, Descartes está pensando a permanência.

Alª: Então, ele está o tempo todo produzindo esta cadeira.

Cl: Não, esta cadeira existe independente dele.

Alª: De Deus?

Cl: Ah! No caso de Deus?… No caso de Deus, sim.

Alª: A explicação que Descartes deu para isso é que Deus estaria criando o tempo todo? Não é isso?

Cl: É. Isto se chama CRIAÇÃO CONTINUADA. (Podem até marcar:) criação continuada.

Mas o importante aqui, e vocês não estão se remetendo, é o extra-ser. Saber o que é exatamente esse extra-ser. Porque pelo extra-ser é que nós vamos entrar numa filosofia diferente, não vamos ficar no regime aristotélico. Então, eu acho melhor, estou vendo que é melhor, apertar mais um pouco Platão e Aristóteles e voltar com os estóicos de maneira mais poderosa. Acho que é a melhor maneira que eu posso fazer. E aqui fica muito fácil:

― A filosofia platônica fez uma divisão do ser. Ela faz essa divisão em sensível e inteligível. E Aristóteles a retoma integralmente! Então, Aristóteles vai ser um pensador do REAL CORPORAL.

Mas os estóicos lançaram uma figura nova ― o VAZIO e o TEMPO ― chamada EXTRA-SER. Eles lançaram essa categoria. E essa categoria nova tem tempo; mas passado e futuro. O presente está do lado do lado dos corpos. Você começa a cortar: o presente do lado dos corpos; e o passado e o futuro do lado dos incorporais. (Essa passagem vai ser difícil!) E os estóicos vão começar a construir os operadores teóricos para o entendimento do incorporal: do que é, exatamente, o incorporal!

(Como é que está esta aula, hein? Você acha que está indo bem? Cláudia, Cacau, está bem aí?).

Eu coloquei dois elementos no extra-ser. Coloquei passado e futuro; e o vazio.

Alª: Tempo e vazio.

Cl: É, você pode dizer tempo e vazio. Você usou uma frase ideal: tempo vazio do lado dos incorporais; tempo cheio do lado dos corpos. O presente é cheio de corpo. Todos os corpos que existem estão no presente. Inclusive, aqueles que estão na Rússia, estão no Japão, estão em Bogotá, estão em Hollywood… Tudo está presente. (Romário está lá). [Nota: esta aula foi dada em maio de 1994]

Alª: Tempo vazio e tempo cheio…

Se nós começamos a liberar essa questão do extra-ser significa que, queiramos ou não, nós temos que entrar nele. Mas eu vou entrar muito devagar, usando meus processos pedagógicos por causa da diferença nítida de interesses desse grupo que está aqui. Tem de tudo aqui, (não é?): físico, matemático, teórica e prática das artes visuais ― a admirável Márcia. (Ela não gosta que eu fale, mas é fantástico o trabalho dela!). Tem arquiteto, tem gente de cinema aqui e todo mundo tem que dar conta disso nesse caminho. A função de ficar com tudo é minha: eu escolhi esse martírio.

Então, nós vamos entrar na filosofia do extra-ser.

(E, agora, eu peço o seguinte: sempre que alguma coisa do ser vier preocupá-los, digam para mim, que eu vou resolver).

A partir do século XIX os estudantes de filosofia fizeram uma marca ― que a filosofia começa por Platão. Então, aqui está o Platão e o que está para lá de Platão. O que está antes de Platão, chama-se pré-socrático. O que o pré-socrático é basicamente? Anterior a Platão. (Certo?) Mas quem é o fundador da filosofia é Platão. Isso é muito estranho! Eu não vou me interessar por isso já. Vou me interessar pelo fato de que, no Platão, tem o sensível e o inteligível, e as faculdades apropriadas para isso. E os estóicos lançaram a “existência” do extra-ser ou incorporal. Então, o mais problemático aqui, que eu já estou sentindo que eu vou ter que variar muito nessa aula, é que ― aquilo que apreende o incorporal é o corpo. Incrível! Quem apreende o incorporal é o corpo. Agora, perguntem aos estóicos: a alma existe? Eles vão responder: existe. Logo, é… CORPO. É corpo. E eles dão lindos exemplos:

Se você fizer um galanteio para uma moca tímida, ela vai ficar toda ruborizada. Esse rubor vem do corpo dela. (Certo?).

Agora, o que não é corpo é incorporal. E é esse incorporal com que nós vamos navegar ― não sei por quanto tempo ― para fazer uma nova teoria das artes, uma nova teoria da literatura, uma nova teoria da arquitetura, uma nova [investida] pela matemática através dos incorporais. Ou seja, a filosofia que introduz o extra-ser.

O extra-ser é aquilo que não existe. Evidentemente que vocês têm que ter uma curiosidade e a gente distinguir o que existe e o que não existe. (Certo?).

Alº: Aquilo que insiste: que não existe, mas é real.

Cl: É real. Nós vamos chegar lá… Vamos chegar! Há uma chave muito forte, porque foi dito pelos aristotélicos, platônicos ― e eles não vão abrir mão disso ― que o que existe é o individual. Só o indivíduo existe. E isso vocês deviam marcar, porque é o fundamental.

― O que existe? O indivíduo!

― Então, o gênero e a espécie existem? Não é indivíduo, não existe; e isso é radical! E é verdade mesmo, não estão brincando. O que está aqui no mundo são os indivíduos físicos e os indivíduos biológicos. Se vocês quiserem ouvir uma linda aula sobre isso, o Luiz Alberto, que é um físico quântico, pode dar.

Então, o indivíduo é real; ou melhor, é o único real. Todo corpo é… individual.  E os estóicos, então, lançam essa figura chamada extra-ser ― e no extra-ser não pode haver indivíduos.

(Como é que está, Marcelo? Olha, lá, hein? Quando estiver ruim, avisa).

Então, no extra-ser não pode existir… indivíduos. Mas o extra-ser tem alguma coisa lá dentro ― que nós vamos chamar de SINGULARIDADE, para começar o nosso trabalho. O indivíduo do lado do ser; a singularidade do lado do extra-ser.

― Com que forma do tempo mexe a singularidade? Passado e futuro.

― Com que forma de tempo mexe o indivíduo? Presente.

Então, vamos colocar assim, que vai dar uma clareada fantástica para nós: vamos dizer que o mundo dos corpos existentes é o mundo da ciência; e o mundo dos incorporais inexistentes é o mundo da filosofia.

(Não sei se foi bem aqui).

A ciência trabalharia com… corpos. Sempre com corpos! Enquanto que no extra-ser não haveria nenhum corpo, seriam as singularidades. Essas singularidades e o individual… Todo individual é… existente. Tudo que existe tem uma FORMA. (Isso é literal!). Logo, o que está do lado do extra-ser é AFORMAL.

(Está bem assim, Márcia? Eu achei que sim, não é?).

Alº: O que está do lado do extra-ser é aformal, não pode ser representado…

Cl: Não tem forma nenhuma. Não pode ser representado, é aformal, porque o que fundamenta o extra-ser (vai ser bastante difícil aqui!) é a potencialidade elevada ao grau máximo. Eu ainda não posso explicar isso.

Por que eu não posso explicar? Porque o indivíduo tem uma forma. E esse extra-ser não tem forma. Então, ele é apavorante, porque a noção de singularidade é ― literalmente ― aquilo que não existe e não tem forma.

(Eu acho que vocês deveriam marcar!)

Isso tudo vai gerar uma mutação imensa na forma do pensamento. Inclusive, se você for um literato e for mexer com esses incorporais, você vai ter que modificar o diegético e a… descrição. São dois mundos diferentes, mas são dois mundos diferentes em que um necessita do outro.

(Vocês estão preparados para entrar, vocês acham, pela explicação, que já está dando para entrar? Porque senão a gente deixa isso pra a aula que vem, melhora um pouco mais essa questão do ser. Certo?).

Uma coisa vai ser muito clara… Olha só, eu disse que o pensamento é que tem que dar conta do extra-ser. Ele que tem que dar conta, não tem jeito. O extra-ser não tem nada a ver com os corpos. Mas… esse extra-ser, é ele que vai ser a GÊNESE do indivíduo e do sujeito do conhecimento.

(Que temática dificílima que eu coloquei agora!)

― Existe uma causa para que os indivíduos estejam aí? Existe uma causa para que um sujeito humano esteja aí? Sim, as singularidades! Porque essas singularidades são GENÉTICAS, são PRODUTORAS ― mas não têm nenhuma forma.

Então, sempre para melhorar a nossa compreensão e o nosso instrumento de trabalho, vamos colocar: os corpos têm como propriedade a EXTENSÃO. A extensão é uma propriedade do corpo (Certo?). Agora, no incorporal não há extensão, mas há INTENSIDADE.  (Então, só pela maneira que eu estou dizendo, vocês estão vendo a dificuldade). Então, a categoria de intensidade e a categoria de extensão não se recobrem ― o ser intenso é o incorporal.

Alª: Então, a gênese dos seres é o extra-ser?

Cl: É o extra-ser! Que, numa linguagem mais moderna, chama-se TRANSCENDENTAL. (Marquem isso!).

Porque, então, eu estou dizendo para vocês que o mundo não se esgota no ser, não se esgota no indivíduo, implica também a presença do extra-ser. Mas o extra-ser… (O que é? Fala lá).

Alª: Onde é que entra o transcendental? O transcendental é o quê, o extra-ser?

Cl: É o extra-ser. Porque aqui vocês têm que começar a verificar uma coisa interessantíssima que estou dizendo: o real é constituído de indivíduos (certo?), mas eu posso fazer uma representação desses reais dentro de mim. Eu posso representá-los. Agora, o incorporal é IRREPRESENTÁVEL: ele não pode ser representado. É o que se chama a IMAGEM VAZIA DO PENSAMENTO. Ele é um vazio ― e você tem que dar conta dele. Tem que entrar para dar conta. Isso eu chamei de transcendental, então, eu posso dizer agora, não à maneira platônica, que existiriam dois mundos: o mundo do individual; e o mundo do transcendental. O mundo empírico e o mundo transcendental.

Vamos dizer que eu… vamos dizer a Vera. A Vera é uma literata; ela vai escrever sobre um indivíduo, um sujeito ― ela, aí, está fazendo uma literatura dos corpos. Agora, se ela quiser fazer uma literatura fora do mundo dos corpos ― ela tem que mergulhar nesse incorporal, mergulhar na intensidade. Intensidade não é uma coisa muito difícil de entender…

Alº¹: Claudio, nesse caso literário…

Alº²: Vem cá, se eu digo que o presente são os corpos, (tá?) e o tempo é incorporal, a pele do presente é a pele do corpo, não é? Então, as singularidades, nesse passado e futuro, habitando esse passado e futuro, é que fariam a intensidade do presente?

Cl: Sem dúvida, sem dúvida! Só que você colocou a “intensidade do presente”, e aí complica um pouco ― porque a intensidade não está no presente. Não está!

Alª: Você não ia dar um exemplo de intensidade?

Cl: Não, eu vou trabalhar [nessa noção]! É porque eu não tenho nenhuma pressa: quanto mais vocês dominarem, melhor pra mim.

Alº¹: Você começou a falar sobre a literatura… de não ter forma… tem um exemplo prático??

Cl: Olha só… vamos ver aqui, vamos ver. Fernando Pessoa criou uma figura que o imortalizou. Qual foi? O HETERÔNIMO. Essa figura do heterônimo imortalizou o Fernando Pessoa. O que é exatamente um heterônimo? O que é isso? O heterônimo é um conjunto de singularidades. O heterônimo é a intensidade, é a força. Há uma preocupação muito grande dos grandes leitores, dos poderosos leitores do Fernando Pessoa, para distinguir a intensidade do extenso, fazer essa distinção. Porque a intensidade está do lado do incorporal. O incorporal ou heterônimo… quando eu produzo um heterônimo, se eu fosse Fernando Pessoa e estivesse produzindo um heterônimo, esse heterônimo não existe, nenhum heterônimo existe. Mas, em compensação, o heterônimo é um conjunto de singularidades. Inteiramente autônomo em relação a mim, [ou a quem o produzir].

Então, a teoria da heteronímia, a heteronomia é um componente não corporal da vida. É só ler o Fernando Pessoa… Leiam o Livro do Desassossego ou, então, a Metafísica das Sensações do José Gil e imediatamente vocês vão compreender. Porque quando o Fernando Pessoa construía os heterônimos, ele não estava construindo pseudônimos, ele estava trabalhando com o ser; mas, você bota um binóculo, bota uma faquinha ou, então, um preparado químico para segurar o heterônimo, que você não segura! Por quê? Porque ele não existe! Não adianta você querer operar o heterônimo, você não consegue, ele não existe. Não existe! Mas nós vamos verificar que a marca brilhante da literatura inglesa, a grande literatura do universo, é que ela trabalhou em excesso com heterônimos ― que é alguma coisa completamente diferente de indivíduo existencial.

(Está indo bem?)

― Então, o indivíduo é um existente, dotado de forma? Necessariamente todo campo do individual é formal.

E, aí, quando eu digo é formal e eu vou trabalhar no campo das singularidades, as singularidades são A-FORMAIS. Mas o aformal não é o negativo, é uma POSITIVIDADE.  Ou seja, a positividade não se esgota no indivíduo. Essa foi a frase fundamental destes dez minutos finais, hein? A positividade; eu não estou falando em dialética, em tese, em antítese, em nada disso! Eu estou dizendo que existem duas positividades: a positividade do individual e a positividade do singular. O indivíduo é um sistema: sistema esse que só pode emergir em função das forças singulares.

(Vamos tentar aí. Acho que eu vou tentar… Eu vou ter coragem e vou tentar, ver se dá certo, se não der, eu volto outra vez . Tá?).

Há uma afirmação que se chama ESPIRITUALIZAÇÃO DO REAL. Isso é um enunciado do Leibniz: espiritualizar o real. Ou seja, não dizer que o real é constituído de matéria, e só! É um enunciado contra o materialismo! (Dizem os maus leitores: é um enunciado idealista. Não é nada disso!). É porque o Leibniz está construindo uma filosofia em que o pregnante é o ESPÍRITO ― não a matéria! Chama-se a “espiritualização do real”.

Agora, quando o Leibniz faz essa espiritualização do real, em seguida, ele FRAGMENTA o espírito. O real é uma espiritualização fragmentada. Logo, cada espírito que existe é uma MULTIPLICIDADE de MÔNADAS.

(Ninguém fique preocupado com mônadas, eu vou explicar tudo!…).

São as mônadas. Então, é um conjunto de mônadas, que, como sinônimo, pode ser chamado de EU LARVAR. Quem já ouviu falar em Samuel Beckett? Toda a obra de Samuel Beckett é para falar dos eus larvares.  Por isso que um homem [comum] ao assistir a uma peça do Samuel Beckett só aguenta doze minutos. Enquanto dura a pipoca, ele está no teatro. Acabou a pipoca, ele vai embora. Compra outra na rua e vai embora! Então, cuidado com os comedores de pipoca, porque eles não vão até o fim. Não têm pique para ir até o fim. (risos)

(Não sei se vocês entenderam…)

Nós temos, então, dois reais: o indivíduo e o singular. Suponhamos, como exemplo, que um literato vá tentar falar do singular. Vocês têm um exemplo, Virginia Wolff. Que ela vá falar dessa singularidade. Nós temos que ter sempre os dois quadros abertos: o do lado do indivíduo e do sujeito; e, do outro lado, essa singularidade. Então, essas singularidades… isso que você chamou a atenção foi sobre o quê, para falar sobre a singularidade?

Alª: Sobre intensidade!

Cl: Intensidade. A espiritualização do real foi feita por quem? Leibniz. E ao espiritualizar o real ele fragmentou o espírito? Ele fragmentou em quê? Em mônadas. Nós vamos ter que estudar as mônadas.

Alª: Essas mônadas têm alguma coisa a ver com os eus…

Cl: larvares? É a própria!

Alª: Sim, mas com os animistas?

Cl: AH! sim, com o animismo, claro! Claro! Olha, quando a gente começar a trabalhar no animismo, quem vai-nos ajudar muito é o Luiz Alberto. Mas, sim, o eu larvar é animismo. Então, o que está sendo dito, pelo Samuel Beckett e, muito estranhamente, esse francês, o Robbe-Grillet, também diz a mesma coisa, é que você pode fazer uma literatura do indivíduo ou uma literatura do singular. Se você quer fazer uma literatura do singular, mergulhe no tempo. Você vai ter que, necessariamente, libertar o tempo das prisões feitas por Aristóteles e Platão. Tornar o tempo livre. O que nós fizemos com o tempo? Passamos uma linha, colocamos uma dimensão de um lado e duas dimensões do outro.

(Não foi isso, Ricardo? Foi isso.)

Então, do lado da linha você tem o presente do tempo, você tem o corpo, você tem o indivíduo, você tem as tensões físicas, tem as qualidades e tem a ação e a paixão…

― Quem é que age e padece? Para agir, o que você tem que ter?

Alº: Um corpo.

Cl: E para você sofrer?

Alº: Também.

Então, as singularidades nem agem nem padecem. É quase enlouquecedor! As singularidades não agem nem padecem, porque a ação e a paixão são componentes do corpo. Vamos dizer, se daqui a um mês ou um mês e meio nós conseguirmos um desenvolvimento muito grande e passarmos a entender isso, necessariamente eu vou fazer um texto de singularidade para a Márcia dançar pra gente: a dança do singular. Será que Carolyn Carlson fazia isso? É capaz!

(Claudio trocou os nomes, corrigiu e, rindo muito, comentou que, certa vez, ao falar de Ricardo III, do Shakespeare, numa conferência. chamava-o insistentemente de Ricardo Teixeira. (Risos, risos). Depois acrescentou: porque passa… porque as palavras são arbitrárias, você está viajando no espírito, aquilo vai passar mesmo.

(Está bem assim?).

Alª: Você falou que o corpo age…

Cl: Age e padece.

Alª: Age e padece. O singular, então, vai contemplar. É isso?

Cl: Ele contempla. Olha, foi a melhor resposta que você deu. É exatamente isso!  Nós temos que fazer o quê? Eu estou acostumado com os meus alunos. Eu não vou chegar aqui e disparar uma singularidade. Se eu disparar uma singularidade, morrem vocês e morro eu. Eu vou governar o problema do indivíduo, da existência, do corpo, para depois nós sairmos disso. Vou governar, para nós termos o domínio integral disso.

Alª: O tempo estava no presente, aquilo é corpo

Cl: É corpo. Do lado oposto? Passado e futuro.

Alª: Mas aí, o que mais?

Cl: Inicialmente o incorporal… (isso eu vou explicar, vocês vão entender perfeitamente), não há presente no incorporal, só há passado e futuro. (Talvez eu já explique isso hoje!). O que mais existe no incorporal? “Existe” (entre aspas), porque lá nada existe. O VAZIO e… agora vem a bomba… O SENTIDO. Então, necessariamente, a fundamentação disso que estou dizendo vai implicar numa teoria da literatura, numa teoria da linguagem, talvez até numa teoria pictural…

Alº: O vazio e…

Cl: O vazio, o tempo, ― enquanto passado e futuro ―, e o sentido.

Alª: E o atemporal?

Cl: O atemporal é a eternidade. (Certo?) O atemporal é a eternidade.

Você quer saber se os estóicos estão mexendo com a eternidade? Não, eles estão mexendo com o TEMPO PURO e com o TEMPO PRESENTE. Quem vai mexer muito com a eternidade é Proust, etc. A questão dos estóicos é essa separação que eles fizeram: de um lado está o presente, de outro lado…?  Passado e futuro. Vou ler o texto:

Alº: O que é sentido?

Cl: Vamos entrar, vamos entrar…

Alª: Por aqui você vai dar uma entrada na questão dos passageiros e dos reféns…?

Cl: Aquilo é, mas é muito fraco! Tem que ser mais poderoso… Assim não dá!

Alguém aí tem a Lógica do Sentido?

(Vamos entrar no incorporal, não faz mal se a dificuldade for muito grande. Não liguem para isso, eu vou arrumar! Eu vou entrar no incorporal, porque senão a gente fica perdendo tempo.)

(final de fita – perdemos a leitura do texto!!!)

início fita (…)

Todo indivíduo vivo, necessariamente, pertence a uma espécie. Todo indivíduo vivo pertence a uma espécie. Por exemplo, passou um cachorro aqui, ele é um indivíduo vivo que pertence à espécie cachorro. Todo indivíduo vivo pertence a uma…? Espécie.

(Intervalo para o café: vou descansar dois minutinhos… Tive um abatimento súbito!)

Parte III –

(— esse —) na filosofia, o melhor é nós entrarmos no incorporal. Aconteça  o que acontecer, nós vamos entrar. Temos que entrar, não tem jeito! Quem não conseguir, não estiver acompanhando, é só fazer perguntas, para a gente poder organizar bem isso).

Torna-se algo demoníaco para o pensamento, a presença de alguma coisa a mais que o ser. É diabólico: o pensamento perde a sua comodidade. O pensamento tinha uma comodidade muito grande porque ele raciocinava a partir de três princípios, que ele pressupunha para compreender as coisas. O pensamento lidaria com o princípio de identidade, o princípio de não-contradição, o princípio do terceiro excluído e também com o princípio de causa eficiente. Mas… se nós vamos abandonar o corpo, não vamos abandonar o corpo, vamos partir para o incorporal, o que nós vamos ter que aprender, esse aprendizado é imediato: se um componente serve para o corpo, não serve para o incorporal.

− O “Princípio de contradição” serve para o corpo?

Alº: Serve.

Cl: Logo, não é incorporal. “Ação e paixão” ― serve pra quem?

Alª: Corpo.

Cl: Logo, não é incorporal.

Chamam-se as definições negativas, que são processos muito brilhantes para se compreender alguma coisa. Jogos de crianças: as crianças jogam muito essas coisas. Por adivinhações… fazem adivinhações, excluindo determinados elementos… Pra você compreender aqueles elementos que você não tem condição de dar definições positivas. Então, você começa a fazer definições no sentido de: não é isso, não é aquilo, não é não sei o quê…

Então, nós chegamos aqui: o incorporal não é corpo, o incorporal não existe. Isto não define o incorporal.

Alº: Por eliminação, não é?

Cl: Vamos dizer que seja. Não define, mas por eliminações você vai começando a entrar.

Então, esse incorporal contém dentro dele vazios, contém dentro dele o tempo puro (certo?). É vazio (prestem atenção! Não faz mal se vocês não compreendem completamente!…), vazio, passado e futuro chama-se ACONTECIMENTO. O acontecimento é um fenômeno corporal? É um fenômeno do corpo?Não. O acontecimento é um fenômeno incorporal. Incorporal.

Alº: Vazio, passado e futuro…

Cl: Não tem corpo.

Alº: Qual a definição que você deu?…

Cl: Eu não dei nenhuma! Eu trabalhei com a negação.

Alº: Você deu uma palavra…

Alª¹: Incorporal

Alª²: Acontecimento.

Alº É um acontecimento!

O acontecimento é uma figura do pensamento que nada tem a ver com os corpos, mas os corpos não existiriam se não fosse ele. Ele nada tem a ver com os corpos, mas ele é o fundamento dos corpos. Eu vou dar um exemplo pra vocês.

Alª: O acontecimento é a gênese?

Cl: É. É. É a gênese. O acontecimento é alguma coisa genética, sem duvida nenhuma, mas ele não é corpo.

Alª: Ele é antes do corpo…

Cl: Antes do corpo.

Al: Pré-vida, no caso. É a intenção…

Cl: Não. Intenção, não. Intensidade. Márcia, intenção (quer escrever?) escreve-se com ç. Intensidade é com s. Intenção é uma coisa; intensidade é outra. Então, essa intensidade pertence à singularidade, não pertence aos indivíduos.

Nós temos é que pegar o incorporal e povoá-lo. O que quer dizer povoar? Que elementos podem penetrar dentro desse incorporal? Eu tenho dois aqui: passado e futuro. Olha, se o tempo está do lado do incorporal, ele vai para o passado e vai para o futuro… ao mesmo tempo?

(Não entenderam?).

O tempo, segundo o modelo do presente, é a flecha do tempo. Quer dizer…

Al: Num sentido só.

Cl: Num sentido só! Por causa desse sentido só, a Márcia, tendo 21, não pode fazer 20 anos: ela só pode fazer 22. Por quê? Porque a flecha só vai pra frente. Quer dizer: não há meios de se diminuir o tempo corporal, que é o presente. Se você tem 30 anos, vai fazer 31.  Ou seja, a flecha do tempo, ou o presente do tempo, caminha numa única direção.

(Não sei se vocês entenderam… Está bem claro, hein, Tatiana? Caminha numa direção só.

Agora, no incorporal o tempo é assim. Ele é assim. [gesto apontando duas direções] Então, eu faço ao mesmo tempo trinta e trinta e dois anos. Eu tenho trinta e um, faço trinta e trinta e dois ao mesmo tempo. Por quê? Porque no incorporal o tempo são duas linhas, duas linhas infinitas.

(Entenderam aqui?).

Enquanto que o tempo, no regime dos corpos é presente; é o presente!

Al: Não é uma bifurcação não, não é?

Cl: Não entendi o que você falou…

Alª: Se o tempo no incorporal é bifurcação?

Cl: Ele é, é bifurcação. Claro, é claro! Olha, o que nós vamos fazer não vai ser muito difícil. Nós vamos dar conta do incorporal, vamos dar conta do corpo e vamos descobrir uma coisa: que nós não podemos pensar nada sem o incorporal. E ele está trazendo para nós umas figuras muito fortes que são passado e futuro… Vamos lá:

― O passado existe? Não, o passado não existe.

― O futuro existe? Não.

Mas agora, o que eu estou colocando para vocês… Vejam o paradoxo: eles não existem, mas insistem. É essa que vai ser a dificuldade para a gente passar. Porque é isso que os estóicos levantaram, que Bergson levantou, o próprio Heidegger se aproximou disso. É… as duas leituras do tempo. Nós vamos ter uma fixação obsessiva nisso, ― fazer as duas leituras do tempo ―, para dar conta.

Alguém tem aí Diferença e Repetição?

Este livro que está aqui: Diferença e Repetição é o livro mais exuberante de teoria da ciência e da filosofia que existe. Então, o elemento fundamental desse livro é o tempo. Pensar o tempo! Então, quando nós estamos pensando o tempo nós temos, de um lado o presente e do outro lado, passado e futuro.

Alguém me perguntou sobre bifurcação. Quem foi? Foi Vera? O tempo incorporal bifurca. Bifurca e ― segundo a Cacau, e eu concordo com ela ― ele é coexistente: ele não passa! Ele não passa, tem uma coexistência. O que estou dizendo aqui? É que nós sempre pensamos o tempo segundo o modelo do presente. Nós vamos sair do modelo do presente, para dar conta do tempo no passado e no futuro. E, através daí, nós vamos compreender o que é o vivo, o que é o sujeito do conhecimento, etc. Porque não se consegue entender essas questões fora do incorporal. Aqui neste livro…

― Vê se a pág.361 é o Boltzmann… Alª: É!

(Ponto, hein? Vou ter que dar uma mexida muito grande aqui! Senão, não vamos dar conta.)

Nós agora temos que falar (pouco importa se ficar vago!) sobre uma prática chamada SÍNTESE DO TEMPO.

No século XVIII, um filósofo chamado Condillac vai tentar explicar a gênese do psiquismo. O que quer dizer “gênese do psiquismo”? É explicar de que maneira aparece essa estrutura psíquica que nós temos. Quem vai fazer isso, com brilhantismo, é esse autor chamado Condillac. Ele vai construir uma estátua: “a estátua de Condillac” − o que vai se tornar um sintagma altamente repetido. Ele constrói uma estátua, vamos dizer, de mármore e dessa estátua ele vai extrair o psiquismo. Diante dessa estátua, ele vai mostrar como é que nasce o psiquismo. Ao fazer isso, ele vai colocar duas categorias fundamentais para o nascimento do indivíduo: a REPETIÇÃO e o HÁBITO.

(Vamos agora tentar um pequeno trabalho nisso aqui:)

― O que vocês entendem como hábito? Hábito é um poder de contração. Há expressões mais fáceis: contrair o quê? Contrair matrimônio. Vai contrair matrimônio, meu filho, você vai entrar num caminho de repetição. Então, hábito é aquilo que…? Contrai.

― O que o hábito contrai? Suponhamos que existem (não temos ainda como sustentar…) multidões de EUS LARVARES. A função do EU LARVAR é fazer uma SÍNTESE. Fazer uma síntese é juntar o que na realidade estava separado. (Não entenderam?). A síntese passiva é o poder que tem essa estátua de Condillac de juntar o que na realidade estava separado.

Alª: Contrair o que na realidade estava separado.

Cl: CONTRAIR. Contrair é juntar. Junta. A contração é a junção de dois elementos. Numa prática fácil: o hábito é responsável pelo nascimento do sujeito humano. É o responsável pelo nascimento do sujeito. Então, o hábito é uma prática de contração; e o sujeito humano vai aparecer no momento em que ele consegue contrair determinados elementos que no real estão separados. Então, o nascimento do psiquismo é feito pela prática chamada contração. A contração é um elemento do eu larvar.

Alª: A contração seria o acontecimento?

Cl: Não. Não é. Depois eu falo em acontecimento.

A contração é o poder que a alma tem de juntar elementos que na realidade estão separados. É essa junção que vai ser feita que vai ser o nascimento do psiquismo.

― Então, o que é o psiquismo?

Alº¹: Simbolizar?

Cl: Não!Não!

Alª: Aquela história do Raio e do Trovão? (—) associação de idéias…

Cl: É isso mesmo!

Alº¹: Duas coisas que estavam separadas, não é?

Cl: Ah! Você está dizendo, à maneira de Lacan, que o símbolo são duas metades. É isso?

Alº¹: Não sei… eu estou perguntando…

Cl: É… a teoria do símbolo é essa, são duas metades. Mas eu não estou falando do símbolo, não. (Certo?). Mas o pensador do símbolo trabalha com duas metades.

Então, eu vou fazer o seguinte: eu vou dar uma embelezada na aula, mas colocar um patamar mais fácil de botar o pé. Eu estou sentindo que vocês estão com muita dificuldade de entrar.

Uma das vias de se entrar na literatura é trabalhar naquilo que o teórico de literatura chama de estranho, maravilhoso e fantástico. Vamos ver o que é isso. A partir dessa explicação, eu volto aos eus larvares.

Você pega uma narrativa e a narrativa que você está lendo… fadas que transformam abóboras em carruagens ou… homens que caminham depois de mortos. Estas práticas literárias chamam-se práticas da MARAVILHA, práticas MARAVILHOSAS. E maravilhoso é… por exemplo, Branca de Neve, é o quê? Maravilhoso! O Maravilhoso é tudo aquilo que na narrativa de um narrador aparece como um fenômeno milagroso. (É bom anotar isso daí, porque isso é fortíssimo!). Uma fada transformando uma abóbora em carruagem é um acontecimento milagroso!

A segunda prática da literatura chama-se ESTRANHO. O estranho é a mesma coisa que maravilhoso, com uma explicação final racional.  Por exemplo, a fada madrinha não transformou a abóbora em carruagem, foi uma impressão minha! Aqueles mortos que no começo da história andavam, realmente não estavam mortos. Exemplo: Edgar Alan Poe. É a noção de estranho. A noção de estranho quer dizer: você tem impressão de que é uma coisa, mas é outra.

(Vocês entenderam o que é o estranho e o que é o maravilhoso?).

Existe um texto de uma novela do Henry James, chamada Outra Volta do Parafuso…(nesse texto… literalmente eu vou fazer um trabalho forte nisso, hein?). É a noção de FANTÁSTICO.

Cl: É… Falei do maravilhoso e falei do estranho. Agora, o fantástico, sem explicação ainda, ele não é nem maravilhoso nem estranho, é outra categoria.

Existe um conto do Henry James, chamado Outra Volta do Parafuso, que deu origem a um filme chamado Os Inocentes. (Sempre passa na Globo…). É a história de uma mulher, jovem, bonita, que vai ser governanta de um casal de crianças belíssimo, um casal de uma beleza incrível, crianças de onze anos, dez anos, os dois…  E ela vai, para servir de governanta, na Inglaterra do século XIX. Chega lá, ela ouve a narrativa de que antes dela aparecer, essas crianças eram dirigidas por um jardineiro mau caráter e uma governanta bonita. E esta mulher começa a notar que uma das crianças, que é o rapazinho, está ficando muito pálido. Então, ela fica muito preocupada em tomar conta da criança. Mas, um dia, ela junto da criança, no cair da noite, olhou para fora e viu um rosto. Ela gelou, protegeu a criança, saiu e foi perguntar à cozinheira sobre o que poderia ter sido aquilo. A cozinheira pediu a ela que descrevesse o rosto visto por ela. Ao descrever o rosto, ela descreve o rosto daquela personagem que existia antes dela: o jardineiro. (Entenderam bem?). Nesse momento aquela mulher está envolvida com o…? Maravilhoso!… Porque, se fantasma existisse, era maravilha!…Ou não entenderam? Isso é maravilha, certo? Ou não?

(Ou não entenderam?). Isso é maravilha. (Certo? Ou não?).

Alº: Não sei…

Cl: Como é que não, Ricardo?

Alº: Maravilhoso, aqui, é quando você diz que a fada vai transformar a abóbora em carruagem.

Cl: Se aparecer um fantasma na janela, o que você acha?

Alº: Eu acho estranho.

Cl: Quer dizer, você acha que aquele fantasma não era fantasma, era um homem?

Alº: É, sei lá! Ou eu não vou conseguir explicar…

Cl: Ah! Se você não conseguir explicar, se você estivesse perto de — ele te afogava. Então, você não vai pensar? Tem que pensar!…

Eu estou dizendo que maravilhoso é a presença de alguma coisa que nega a racionalidade do real. É isso! Isso que é o Maravilhoso! A fada madrinha, fazer uma carruagem de uma abóbora não nega totalmente a realidade, a racionalidade do real? Se não negasse eu tenho certeza que a Ford ia fazer uma série de carruagens de abóbora… aí, tinha que ter plantações de abóbora por tudo quanto é canto (Risos). (Tá?).

Então, o maravilhoso é; ela acreditou que era um fantasma − era… maravilhoso. Mas os americanos, que adoram uma grana, verificando esse conto do Henry James e um filme que foi feito, chamado Os Inocentes, os americanos fizeram um filme anterior à governanta indo para aquele castelo. Quer dizer, nós vamos encontrar no outro filme, o jardineiro e a governanta mau caráter. (Entenderam?). Isso daí é uma tentativa de explicar pelo estranho. É o estranho. Parece que é uma fantasmagoria, mas não é. Então, a governanta principal fica oscilando entre um e outro, entre o maravilhoso e o estranho. Até que um dia, olha pela janela, o fantasma estava lá. E ela se volta para a criança…  a criança estava morta! Parece que o maravilhoso venceu.

Mas acontece que o Henry James, provavelmente o mais brilhante dos escritores que existem por aí, não faria um trabalho no maravilhoso, ele fez um trabalho no fantástico. O fantástico não é nem o maravilhoso, nem o estranho. Aquele fantasma que aparece ali, ele está dentro do mundo dos incorporais.

(Não sei se vocês conseguiram compreender.).

O fantástico não revela a maravilha, nem revela o estranho. Nada disso. O mundo do fantástico é um mundo muito semelhante ao do extra-ser. (Vocês entenderam, essa explicação que eu dei?)

Se vocês lessem o livro a Outra Volta do Parafuso, vocês me dariam um presente de magnificência! É magnífico vocês lerem esse texto. Vocês vão compreender claramente que a governanta está no campo do fantástico. Embora, todo o tempo você fique em dúvida: é maravilhoso? É estranho? É maravilhoso? É estranho? Vocês vão ver que não. Ela está produzindo exatamente o fantástico. Esse fantástico eu vou aliá-lo ao extra-ser. O fantástico aliado ao extra-ser.

Então, é a experimentação que o Henry James fez na vida dele. O Henry James não parou de fazer experimentação no fantástico. Existe um texto dele que se chama, Os papéis de Aspern. Aquilo é fantástico, é fantástico! Aquilo não é maravilhoso. Você vê claramente que não é maravilhoso!

Eu vou dizer que a teoria dos incorporais é um fantástico.

Logo,existe uma experimentação racional e existe uma experimentação fantástica. A experimentação fantástica é penetrar no TRANSCENDENTAL.

(Eu acho que eu dei uma melhorada!)

Alº: Eu queria só esclarecer melhor a diferença entre o maravilhoso e o estranho. Eu anotei aqui: o estranho tem-se a impressão de algo que parece maravilhoso, mas você consegue explicar racionalmente.

Cl: —- faz isso: os mortos estão andando… Ah, não eram mortos eram catalépticos! Saí do maravilhoso e entrei no estranho.

Alª¹: Cortou o barato do maravilhoso.

Cl: Cortei o barato do maravilhoso: entrei no estranho… O Poe usa muito isso!

Alª¹: Mas ele não! Tem alguns contos que ele usa…

Cl: Não estou dizendo que ele usa sempre; mas que ele usa muito! Nunca mude a palavra que eu disse: isso me dá uma irritação que você não pode imaginar!

Alª¹: Não, não!

Cl: Eu acho isso um golpe de baixo nível!

Alª¹: Não, não!

Cl: Mas é! Se eu ficar quieto parece que o que você disse é que é certo. Já é a terceira vez que você faz isso. Eu não consigo entender! É a terceira vez; a quarta, eu vou dar um estouro total! Botar na minha boca o que eu não disse!

Alª¹: Não, eu disse!

Cl: Eu já começo a ficar nervoso! Eu não disse isso, entende? Você nunca bote na minha boca o que eu não disse!

Alª¹: Tá, tá.

Então, esse fantástico se aproxima do ACONTECIMENTO. Ele não é, de modo nenhum, alguma coisa que você pode fazer a experiência no mundo empírico. É uma experiência inteiramente diferente. Eu vou ligar este extra-ser a fantástico.

Cl: Foi bem, não é?

Alª²: Foi ótimo!

Esse fantástico se aproxima do acontecimento. Do acontecimento. Ele não é de modo nenhum alguma coisa que você possa fazer experiência no mundo empírico. É uma experiência inteiramente diferente. Então, eu vou ligar esse extra-ser ao fantástico.

(Fui bem, não é?).

Tempo. Tempo. O Bergson chama o tempo de DURAÇÃO. O apelido do tempo no Bergson é duração.

― O que é exatamente duração? A duração é a extensão de uma linha de tempo. Quando você tem a duração significa que nós temos uma linha… onde tem o passado, o futuro e o presente ― isso que é duração.

A duração é constituída como síntese do espírito. O espírito faz uma síntese − e emerge o que estou chamando de duração. Então, na duração você vai compreender uma coisa interessantíssima. Vamos dizer que essa aula que estou dando, que começou às nove horas e são dez e dez, essa uma hora e dez de aula é uma duração, que tem um passado e tem um futuro. Nós começamos a entender o tempo como sendo uma pequena extensão: a duração. A duração é exatamente o momento em que o tempo aparece. Então, na hora em que o tempo aparece, ele aparece como duração. Essa aula que estou dando pra vocês é uma duração, ela está vindo do passado e vai se completar no futuro. Mas eu, que estou dando essa aula, eu vou viajando nesse passado e no futuro, como se fosse uma bolinha do presente. Eu não saio do presente.

(Não sei se vocês entenderam…).

É um capítulo lindíssimo! O passado e futuro fazendo isso [Claudio faz um gesto abrindo-se em duas direções] … e eu no presente esquartejando o meu corpo: Dionisius. O corpo esquartejado de Dionisius é exatamente a experiência desse tempo. Ele é esquartejante: aquilo esquarteja. Vai um pedaço para um lado e um pedaço para o outro. Isso é o TEMPO AIÔNICO. (Ficou difícil, não é?) Isso quer dizer o quê?  Que no interior desse tempo está o presente que vai indo pra frente, vai indo pra frente. (Acho que ficou muito difícil…).

Alª: É como atravessar um rio, é isso?

Cl: É.

Alª: Algo assim encapsulado, não é?

Cl: Olha, para a gente fazer uma boa compreensão disso, aquele filme, The Nigth of the Hunter. Como é o título dele em português?

Alº: A noite do caçador.

Alª: Não, esse nome é uma tradução, em português tem outro título.

Se vocês virem esse filme… é uma obra prima. Para vocês terem uma noção, esse filme foi feito por uma ator, que nunca dirigiu filme nenhum – Charles Laughton – aquele que fez O Corcunda de Notre Dame em que a Esmeralda é aquela menina bonita de cabelo vermelho, Maureen O’Hara.

Alº: Faz o advogado no filme com a Marlene Dietrich e o Tyrone Power.

Cl: Qual o filme?

Alº: Testemunha de acusação.

Cl: Mas você sabe que o filme do Charles Laugthon provocou uma inveja eterna no Hitchcock? Perguntavam assim ao Hitchcock: E aquele filme do Charles Laughton? O Hitchcock: Porcaria! Aí ficava de noite só vendo o filme, o tempo todo. Tinha um encanto, uma coisa belíssima!…

Então, é possível que um filme desses nos dê a ideia de acontecimento, nos dê a ideia de passagem, porque há um momento, que é o momento supremo do filme, em que ele constrói um rio, acho que é rio de estúdio, não sei, e um céu estrelado e as crianças fugindo das sombras gigantescas de Robert Mitchum.

Alª: O nome em português é O Mensageiro do Diabo.

Cl: O Mensageiro do Diabo! Se vocês puderem apanhar esse filme… vocês me dariam uma alegria enorme se vocês o vissem. Ele é resplendor puro.

Alº: Tem em vídeo?

Alª: Tem, tem.

Agora, voltando ao fantástico: os americanos fizeram um filme que se passava no tempo anterior do romance do Henry James. E esse filme do tempo anterior é com Marlon Brando. (Tremendo Marlon Brando! Marlon Brando é uma coisa fascinante!) Então, ele vai fazer o papel do jardineiro. E ele e a governanta anterior só transavam sadicamente, era sado-masoquista (Isso é a maior besteira, viu? Isso não existe!): pancada pra lá, pancada pra cá! E as crianças começaram a ver aquilo e começaram a gritar… Então, esse filme está tentando transformar o maravilhoso em estranho. Mas esse filme era de uma idiotia total, porque o texto do Henri James não era nem uma coisa nem outra.

(Então, na próxima aula, eu fortaleço mais. Mantenham maravilhoso, estranho e fantástico, (viu Cacau?). Vai ser uma maneira para a gente entrar nessa questão do extra-ser. E vejam o filme!

Agora, acho que pela própria dificuldade que eu estou tendo para explicar, eu vou pedir para vocês pegarem os componentes do extra-ser sem maiores explicações.

É do extra-ser:

No extra-ser não há presente: por quê? Porque o presente é corpo. Então, no extra-ser não há presente ― só há essa distensão permanente do passado e do futuro. (Esse é o primeiro elemento que eu colocaria pra vocês…)

E agora, com certa licença do Luiz Alberto, eu vou falar de INDIVIDUAÇÃO FÍSICA e INDIVIDUAÇÃO DO VIVO. É a penetração num campo de saber poderosíssimo! A individuação do físico, o Luiz Alberto já deu diversas aulas (se for necessário a gente pede para ele dar outra vez), é a individuação do cristal: é o físico sendo individuado. Então, quando o físico é individuado, o tempo que está ali dentro é o tempo presente.

(fim de fita)

Parte IV –

(…) Ou, melhor ainda, no acontecimento… O acontecimento não é uma entidade física; não é uma entidade biológica; é uma entidade incorporal: é inteiramente do incorporal.

O vivo vai aparecer num universo onde não existia vida. Então, a pergunta é… “O vivo também tem um princípio de individuação?”

(Eu estou dizendo grosseiramente, não é Chico? Dá para perceber que eu estou passando tudo com uma facilidade extrema!)

Se há um princípio de individuação no vivo? Há. Mas os vivos só serão entendidos a partir das singularidades.

― Qual foi a definição que eu dei de singularidade? “Não existe!” isto é: “A singularidade não existe”.

Você só vai compreender o vivo se você fizer uma descrição das singularidades. Por exemplo: o ser vivo está aí, porque ele junta passado e futuro. Então, é uma explicação muito difícil, mas ela que vai nos conduzir para a compreensão de todo esse procedimento: esse procedimento em que a inclusão do incorporal vai produzir uma grande perturbação no pensamento, porque a nossa razão só sabe trabalhar com o princípio de identidade e o princípio de não contradição. E na hora em que começam a entrar os paradoxos e as violências do fantástico, a razão abandona o navio. Ela diz: “Comigo não! Comigo não vai ter esse negócio de paradoxo: eu não aceito isso!”

Então, nós tentarmos nos conduzir dentro desse incorporal, é um momento superior da história do pensamento: conduzirmo-nos dentro dele e tentar construir alguma coisa.

O conto e a novela ou mesmo o romance, por exemplo, não poderão ser explicados se nós não entendermos a teoria dos incorporais. Portanto, essa teoria dos incorporais, essa teoria do extra-ser ― que eu não entrei, não consegui! Eu tentei ― BÁ-BÁ-BÁ-BÁ  ― fui barrado o tempo todo…  Não por vocês, por mim mesmo. Porque, quando eu sinto que eu ainda não tenho campo teórico suficiente, eu não prossigo, eu não dou aquilo. Só entro nesses procedimentos quando o campo teórico está muito poderoso e todos poderão apreender o que eu estou dizendo.

A tese que eu estou fazendo é que nós vamos pensar, vamos dar conta da história do pensamento, juntando duas metades; mas não as duas metades platônicas. As duas metades platônicas são o sensível e o inteligível. E as nossas duas metades serão: o presente; e o passado e o futuro. Passado e futuro de um lado; presente de outro lado. Essas serão as duas metades que nós vamos trabalhar. Ou seja, nós vamos entrar de corpo inteiro dentro do tempo.

Existem outros textos, como o Mrs. Dalloway, da Virginia Woolf, que vocês podem ler. É um texto fantástico, mas a gente vai pegar todos esses ingleses magníficos: pode ser o Thomas Hardy, (Judas o Obscuro), Henry James, o mais notável de todos… para nós podermos, sem nenhuma tolice na cabeça, começar a entrar nessa questão do incorporal.

Alº: O Orlando também trabalha com o tempo, não é? Cl: Muito menos! Trabalha com o tempo de uma maneira um pouco idiota. Idiota, porque… quem vem marchando o tempo? O ser! No extra-corpo não tem ser!

Alº: Mas que também muda, não é?

Cl: Todo ser muda: um dia vem com barba, outro dia vem sem barba…

Alº: Muda de sexo, muda de…

Cl: Pode mudar de sexo, a Roberta Close mudou… Não é isso que eu estou falando!  (risos)

O que eu estou falando, é que nós vamos penetrar no que se chama A BIFURCAÇÃO. Nós vamos entrar no jorro do tempo. Nós vamos penetrar no íntimo, no coração do tempo. Penetrar no coração do tempo é fazer música, é fazer literatura, porque não se faz música, não se faz literatura se você não estiver no coração do tempo. Então, é isso que nós vamos tentar, cada vez mais poderosos!

Hoje eu falei: e o extra-ser… e o extra-ser… e o extra-ser… mas não entrei. Não há por que eu entrar! A única coisa que eu fiz, de muito válido para esta aula, foi que eu disse que o acontecimento não tem nada a ver com os corpos… Agora, então, para finalizar:

O ACONTECIMENTO está do lado dos incorporais; o FATO, do lado dos corpos.

Baqueada total, cansei! Quatro horas de aula, falei mais do que…

Eu pensei, inclusive, em falar hoje algumas coisas de dança, de arquitetura, de cinema, em termos desse incorporal, mas não deu. Não deu, porque não é brincadeira, não é? Não é brincadeira! Porque no momento em que, por exemplo, você pretende fazer música: como é que Shönberg ousou ir para a música atonal? Alguma coisa passou ali por dentro, passou ali por dentro! Nós, inclusive, pensávamos que a escala cromática, com que nós convivíamos, era invariável: não podia sair aquilo. Nós confundíamos natureza com hábito! Então, essas práticas, a entrada no incorporal vai-nos dar muitas possibilidades…

Fechando: o incorporal é o INCONSCIENTE. O famoso inconsciente. Deleuze chama de SUPERFÍCIE METAFÍSICA.

Alº: O Lacan diz que o inconsciente é estruturado feito uma linguagem, dando um corpo ao inconsciente. Como seria esse inconsciente…

Cl: Esse inconsciente sobre o qual eu estou falando?

Alº: É.

Cl: Ele é vulcânico. Ele é uma violência… porque ele é a potência dessas singularidades. Ele não tem nem aceita nenhuma estrutura. Quem tem estrutura é a consciência.

Alª: Mas Claudio, há umas aulas atrás você falou que para liberar as singularidades…

Cl: Eu não disse isso. O que eu disse é o seguinte: a regra de prudência é algo de importância vital nas nossas vidas. Regra de prudência, quer dizer, conselhos!… As pessoas não estão sempre nos aconselhando? “Ai, meu filho, não faça isso, que bobagem, não faça isso…” As regras de prudência são regras que não estão sustentadas por nenhuma racionalidade… mas estão sempre nos servindo na vida. Então, provavelmente, eu usei regra de prudência para compreender isso… Regra de prudência no sentido: “por favor, não delire!” Porque o delírio está o tempo todo nos ameaçando, não é? Ele nos ameaça, ele não para de passar dentro de nós. Então, esse pensamento que eu estou produzindo é altamente rigoroso, mas não é rigoroso no princípio de não-contradição, nem no princípio de identidade. É rigoroso lá no incorporal.

Alº: Rigoroso na sua disciplina de pensar…

Alº: Essa coisa com a palavra, não é?

Cl: É porque a questão das palavras… Eu acho que a qualquer momento eu interrompo o caminho que eu estou dando, e sigo aquele caminho da aula passada, em que eu comecei a perguntar sobre o judicativo, o conceitual, o silogismo…

Alª: Ah, sim, o judicativo…  o consciente…

Cl: Eu vou fechar a aula. Deixe-me falar uma frase…. que eu fecho.

O Hailton falou sobre símbolo… e isso gera uma confusão na gente e uma preocupação muito grande sobre o que é símbolo!

A noção de símbolo é uma noção antiqüíssima. Provavelmente ela está presente na história dos homens há mais de 40.000 anos. O símbolo é sinônimo de LEI DA HOSPITALIDADE ― que é o seguinte:

Há 30.000 anos, já havia comércio entre as nações. Não havia o kapélikè, que é o pequeno comércio. Na hora em que o pequeno comércio nasce, lá Grécia, em seguida vai haver a compra e venda de terra ― está aberta a via para o nascimento do capitalismo. Eu estou falando de um comércio em que caravanas vinham da Suméria e se dirigiam ao Egito. Então, esses mercadores, que faziam essas caravanas, necessitavam de aliados nas cidades em que eles iam, porque senão… um bando de ladrões chegava e tomava tudo! Então, eles formavam aliança com alguém das cidades que eles visitavam. Essa aliança (é a coisa mais simples do mundo:) você quebra um pedaço de pau em dois ou rasga uma carta em duas, cada um fica com a metade dela. Certo? Passam-se anos e após 200 anos um herdeiro do primeiro viajante, ao voltar a essa cidade, apresenta o pedaço de pau que ele possui. O outro apresenta a sua metade e as duas metades se juntam… Foi constituída a LEI DA HOSPITALIDADE e construído o SÍMBOLO.

Símbolo quer dizer: união de duas metades. Mas agora, para vocês compreenderem, como é fácil entender isso… no séc. IV d. C., lá na Alexandria, existia uma perseguição enlouquecida aos cristãos. Provavelmente, havia pouca comida para Leão, não é? (risos) Os cristãos, então, tinham um problema gravíssimo: tinham que se comunicar com outros cristãos, mas não deixar que a comunidade soubesse que eles eram cristãos. Então, quando havia uma reunião de muitos homens e eu, por exemplo, dizia assim: “céu azul”. Quando digo “céu azul”, qualquer um que está aqui faz uma imagem de céu azul. Qualquer homem desprevenido, você produz um enunciado: “céu azul”, “céu estrelado” e imediatamente você faz aquela imagem.

Mas os cristãos não fizeram isso: Eles tornaram certos discursos uma metade. Por exemplo, “céu azul” para eles é uma metade, que só se completa quando o outro diz lá: “terra vermelha”. Os dois discursos, “terra vermelha” e “céu azul” se juntam e aí você já sabe que aqueles dois são cristãos. Porque eles não se prenderam na imagem. Eles se prenderam no símbolo; porque o símbolo é aquilo que remete para outro símbolo.

(Entenderam?)

Alº: Os maçons usam isso.

Cl: Claro, você devia ler isso no Foucault; porque o segundo capítulo [de A verdade e as formas jurídicas] do Foucault trata disso o tempo todo.

Vocês entenderam? Entendeu Cacau? Já está caindo, não é?

O símbolo se compreende por duas metades e ele é a lei da hospitalidade.

Alº: Confirma uma identidade…

Cl: Como?

Alº: Uma coisa tem a ver com a outra.

Cl: Certo, os dois se juntam, porque… eu parto duas metades. Enquanto eu estou com uma metade separada da outra, a minha metade não vale nada: aquilo é um pedaço de pau velho. Unindo um pedaço ao outro, aí nasce a lei da hospitalidade. Chama-se SYMBOLON. Então, símbolo é um signo que não pretende produzir imagens, mas remeter-se a outros signos. Chama-se a isso Lei da Hospitalidade. [Ele era usado para produzir o reconhecimento entre os descendentes de duas famílias, garantindo hospitalidade entre seus membros, sempre que as duas metades se encontrassem].

Ponto Final. Tá?

Alº: No usual?

Cl: No usual, o símbolo ainda é pensado como substituto: uma representação. Mas eu quis mostrar para vocês que o símbolo tem um nascimento político-social.

Alº²: O poder usa o símbolo para arrebanhar as pessoas, não é?

Cl: O tempo inteiro! O símbolo é um instrumento poderosíssimo, porque ele não forma imagem.

… relativo ao que o Hailton falou, que, no Lacan, o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Eu estou dizendo para vocês: o inconsciente não tem estrutura nenhuma; ele é anárquico. Ele é anárquico, potente, mas estrutura ele não tem.

Então, na próxima aula a gente prossegue, porque agora eu estou cansado.

Fim

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Aula de 06/12/1993 – Deleuze e os estoicos: a quarta dimensão é a singularidade

Parte 1:

 

Parte 2:

 

A aula começa com o som baixo e com ruídos, mas após 2 minutos a voz se estabiliza.

Aula de 19/05/1994 – A filosofia do ser e a filosofia do extra-ser: Platão, Aristóteles e os estoicos

[…]

Bergson morreu em 1941, mais ou menos aos oitenta e um anos de idade ― façam os cálculos para saber quando ele nasceu. Freud nasceu e também morreu mais ou menos na mesma época que Bergson.

Aluna: Freud morreu em 39, bem pertinho.

Claudio: E Edmund Husserl, alemão, também viveu nessa mesma época.

Bergson, desencadeador desta aula, escreveu um livro, chamado Matéria e Memória, que pode ser considerado a obra prima dele ― esse livro existe em português. Num determinado momento do nosso curso, ele vai ser lido ― alguma coisa dele vai ser lida. Neste texto, Matéria e Memória, algo de muito original vai acontecer.

(Prestem atenção como há uma originalidade e uma dificuldade nisso que eu vou dizer.)

O Bergson vai começar falando sobre o mundo antes de a vida aparecer; como se pode falar de alguma coisa que não se experimenta? Geralmente, quando se fala de alguma coisa que não se experimenta, chama-se a essa coisa de METAFÍSICA.

Então, o Bergson começa por falar do mundo, do universo anterior ao surgimento do ser vivo. Eu não falei homem, falei ser vivo. Então, ser vivo pode ser uma molécula… Se o vírus for vivo, pode ser o vírus. O Bergson está falando de antes da aparição do ser vivo. Então, antes do ser vivo só existiria, no universo, matéria sem vida. Vamos marcar esse nome: classicamente, a matéria sem vida é chamada de MATÉRIA DESORGANIZADA. Mas o Bergson vai fazer alguma coisa de muito forte. Ele vai identificar MATÉRIA a LUZ. Então, quando o Bergson falar matéria, ele está, ao mesmo tempo, falando luz: para ele, matéria e luz seria a mesma coisa! Mas agora, utilizando Bergson e dizendo que o universo anterior à vida é matéria ou luz ― logo matéria iluminada ― então, para o Bergson, antes do surgimento da vida, o que existiria seria MATÉRIA ILUMINADA. E matéria iluminada é a mesma coisa que IMAGEM. Porque se vocês abrirem a televisão o que vocês vão ver vai ser matéria iluminada. Então, para o Bergson, antes da vida aparecer, o que existia era… matéria iluminada ou … imagem.

(Vocês entenderam?)

E essa imagem seria… como se diz a televisão. Mas eu posso adiantar mais para vocês; é quase que um excesso: imagem, mas imagem simultaneamente ÓTICA e SONORA ― no sentido de que o sonoro também é uma imagem. Ou seja, se nós gostarmos de cinema nós vamos conhecer o mestre do sonoro no cinema que se chama Nino Rota, que trabalhou com o Visconti, com o Fellini, mas também com Maurice Bejart. Nino ― marquem o nome dele ― Nino Rota, que é o mestre de uma imagem. Qual? Da imagem sonora.

Então, o Bergson está nos falando que antes da aparição da vida o que existia era uma matéria iluminada ― que era o ótico e o sonoro, sem nenhuma lei de governo sobre essa imagem. Se não havia lei ― quando alguma coisa existe e a existência dessa coisa não está governada por lei esta coisa é anárquica ou caótica. Então, essas imagens originárias ― anteriores ao nascimento da vida ― seriam imagens caóticas; seriam o caos.

― Como funcionariam essas imagens? Segundo Bergson, elas estariam em VELOCIDADE INFINITA. Quando Bergson fala em velocidade infinita, ele está se aproximando de um filósofo mais ou menos da época dele chamado Kierkegaard. Então, essas imagens estão em velocidade infinita, mas não têm nenhuma lei regulamentando-as. E aquilo que está em velocidade infinita (se ficar difícil, vocês coloquem), o que está em velocidade infinita está simultaneamente em todos os lugares ao mesmo tempo (certo?). Então, esse universo bergsoniano é dessas imagens infinitas e Bergson dirá nitidamente: nesse universo de imagens anteriores à vida… anteriores à aparição da vida… onde a vida ainda não apareceu… as imagens são caóticas e labirínticas, em velocidade infinita e sem centro; não há centro no interior delas ― elas são acentradas. E agora eu vou tentar um enunciado que não foi dito por Bergson, mas que eu vou colocar, aí vocês tentam alguma coisa em cima dele: essas imagens estão em movimento, porque elas estão em movimento infinito, movimento que eu vou chamar de MOVIMENTO ABERRANTE.

― O que quer dizer movimento aberrante? Movimento aberrante quer dizer o movimento onde não há centro. Desde que não haja um centro, o movimento é aberrante. Então, os movimentos dessas imagens são movimentos aberrantes, movimentos anormais (Certo? Todo mundo foi bem?). Isso vai-se chamar PRIMEIRO SISTEMA DE IMAGENS. (Vamos marcar esse nome!)

Alª: Você fala que esses movimentos são sem centro, mas o que seria o movimento com centro?

Cl: Vamos ver o movimento com centro? Aparece… Agora nós passamos da existência dessas imagens, que eu chamei de matéria iluminada, antes da aparição da vida, e agora nós vamos pensar essas mesmas imagens quando a vida já apareceu. Na hora em que a vida aparece, a vida traz com ela, o ser vivo traz com ele, uma prática chamada percepção. A percepção é que o vivo centra tudo na sua percepção. Então, para o vivo, toda e qualquer imagem é centrada na sua percepção ― ele inclui o centro.

(Não ficou bem isso não? Hein, Vera? Se não ficou, fala).

Veja bem, olhe pra mim, você está centrando a minha existência na sua percepção. Você me centra. Todo o universo é centrado na sua percepção. O vivo introduz o centro, o centramento, que é, simultaneamente, a normalidade e o desaparecimento do movimento aberrante.

(Acho que ficou difícil, não é? Não? Ficou, Vera?…)

Alº: Como se fosse um breque nesse movimento infinito, não é?…

Cl: Alexandre, a vida traz esse centro… Ela introduz uma centralização, porque o ser vivo, qualquer ser vivo: pode ser uma molécula, se a molécula for viva, a molécula virótica, por exemplo, qualquer ser vivo centrifica demais tudo que ele…

Alª: Formalizar?

Cl: Olha, a palavra formalizar é fraca, Cacau. É melhor centrar, mesmo. O vivo observa as imagens segundo ele. Ele é um centro de observação.

Alª: Quer dizer que anteriormente, então, o que aconteceria é que as imagens são caóticas porque não têm….

Cl: … não têm centro de observação. Você quer voltar ao caos? Mata toda a vida que existe. Aí você volta ao caos. Mas no momento em que você introduziu a vida, a vida vai trazer um SEGUNDO SISTEMA DE IMAGENS. Esse segundo sistema de imagens é a emergência do centro.

Alª: Ou seja, seria uma tendência a querer organizar?

Cl: A vida organiza, é centro. Ela centrifica! Todo ser vivo ele vê. Vê é uma palavra falsa, ele percebe. Pode perceber acusticamente, sonoramente, seja lá como for, ele percebe essas imagens segundo ele.

Alª: Segundo seus atributos, também. Quer dizer, a maneira como eu vou centralizar vai ser diferente da tua, vai ser diferente da formiga…

Cl: Vai. As espécies… a formiga… se entrar uma formiga aqui ela vai ver esse universo segundo ela.

Alª: Formiguicamente, não?

Cl: Formiguicamente, claro. Por isso, nós e a formiga podemos conviver, sem nenhum problema ― porque nós não vemos o mesmo mundo. Isso se chama MUNDO PRÓPRIO. Cada ser tem o seu mundo próprio. Cada espécie tem o seu mundo próprio. Mas se eu for à casa dos Abreu e encontrar a Cacau e a Márcia ― cada uma delas tem o seu mundo próprio. (Entenderam?).

Ou seja, o mundo próprio é constituído não só pela espécie, mas também pelo indivíduo.

Agora, uma vez acabada a vida, o que acontece? O caos retorna!

Um pintor austríaco, chamado Paul Klee, se coloca como um artista que ao invés de centrar a sua visão do mundo em cima da sua percepção ele quer apreender o mundo segundo o que ele chama de PONTO GRIS. (Marquem esse nome).

Ponto gris é um nome meio português meio espanhol meio francês… Como o Paul Klee é austríaco, seria diferente. Ponto gris. É como se ele apreendesse o caos. Ou seja, pra ele o artista não apreende (vou usar a Cacau) uma matéria formalizada. Porque a percepção só apreende matéria formalizada, só apreende imagens formalizadas. O Paul Klee apreenderia o que ele está chamando de ponto gris. O ponto gris é uma matéria caótica.

(Foi bem assim? O ponto gris?…)

Alª: Mas esse ponto gris, então, não vai ser um ponto de centramento?

Cl: Não. Não é centro. A partir desse ponto gris, o Paul Klee vai erguer um mundo. (Vejam se vocês entenderam…) Ele ergue um mundo! Porque, para o Paul Klee, a partir do seu ponto gris, o sujeito artista ― cada sujeito artista ― ergue o mundo que quiser. O ponto gris é o caos. É o primeiro sistema de imagens. É uma complicatio, onde tudo está complicado e de onde ele retira um mundo.

Alº: Poderia usar assim um paralelo para entender um pouco esse ponto de vista, o Aleph do Borges?

Cl: Pode… O Aleph do Borges me parece prejudicado, eu não sei se eu posso dizer se isso é real, é que o Aleph de Borges são mil imagens diferentes, mas cada uma tem uma forma. Será que é isso? Eu acho que é!

Alª: É. Eu acho que é. É um ponto de multi-centros…

Cl: Multi-centros, mas cada um já tem uma forma. Mas esse ponto gris não tem forma. Ele tem esse ponto gris e desse ponto gris ele vai produzir — habituais estabelecidas de uma espécie. Sempre que ele penetra nesse ponto gris ele retira desse ponto gris um mundo novo. (Entenderam?).

Alª: Ele ainda está criando alguma coisa!

Cl: Ainda está, não; ele está criando!

Alª: Quer dizer, ele está só erguendo, mas o caos absoluto, o caos sem a vida seria impossível de ser captado, não é?

Cl: Mas é nesse caos sem a vida que ele está penetrando.

Alª: Mas ele está soerguendo alguma coisa.

Cl: Tá, ali ele está soerguendo alguma coisa… Ele está construindo, vamos dizer, um conto, uma novela ou um romance. Se fosse o seu caso… Mas eu estou dizendo que, no seu caso, na hora em que você for entrar para produzir uma novela ou um conto, como você faz, o que você tem que fazer é penetrar num ponto gris semelhante a esse ponto gris do Paul Klee, porque é de lá que você vai erguer o mundo estético, como em arquitetura, que se diz que se ergue alguma coisa. Alguma coisa se ergue ali, uma composição se ergue.

Alª: Extrair… Esse soerguer…

Cl: Olha… Não, não é extrair, porque se ele extrair ele extrai caos. Ele tem que entrar ali e gerar alguma coisa. Ele gera alguma coisa pra ele. (Não sei se já está bem aqui… O que você acha? Fala Márcia…)

Alª: Veio-me uma imagem dos fractais…

Cl: Fractais?… Olha, os fractais no caso ainda são frágeis, porque os fractais são… Fractais quer dizer frações, isso que são os fractais, são frações, mas essas frações já são formalizadas. Ainda que sejam frações e não sejam unidades. Não são fractais; são muito mais do que fractais. Ele está entrando mesmo no aformal, no que não tem forma nenhuma; e dali ele está erguendo alguma coisa. Então, para ele, o sujeito artista só pode executar a sua obra na hora em que ele penetra nesse ponto gris e desse ponto gris ele…

O que é um ponto gris? O ponto gris é a mistura do preto e do branco: o ponto gris é cinzento. É ali o preto e o branco, ou a ausência de preto e branco ― e dali ele tira todas as cores. E como esse ponto gris é simultaneamente ótico e sonoro, ele constrói dali um mundo musical e um mundo pictórico. É por isso que a obra do Paul Klee é uma mistura do sonoro e do pictórico.

(Eu não sei se isso já está dado bem aqui. Esse vai ser o modelo da nossa aula. Nós vamos modelar essa aula de hoje, por isso que a partir disso eu vou penetrar, secamente, na filosofia. Não tem outro jeito, eu vou penetrar na filosofia. Vamos lá… se eu já posso ir. Acho que sim, não é? Hein, Márcia?… Tá?).

Vamos agora fazer uma experiência fictícia: ficção, pura ficção. Vamos dizer que Platão (todo mundo sabe quem é, não é?) nasceu no século V a.C, na Grécia; que era muito bonito; que as origens dele eram poéticas; que era homossexual… mas homossexual à grega ― fazia poemas para o seu amado; até que uma viagem o transforma num filósofo. Vamos dizer que o Platão tenha mergulhado nesse ponto gris. Então, ele mergulha nesse ponto gris e de lá o que ele quer trazer?

Aluno: O caos…

Cláudio: Não, ele não quer trazer o caos; trazer o caos pra quê? Ele quer trazer um mundo. E ele traz um mundo! Ele vai trazer do caos o que, em filosofia, se chama ― o SER. Ele traz o ser. De onde ele traz o ser? Do caos. (Entenderam?). O ser. Vamos colocar o ser como sinônimo de “aquilo que existe”. O ser como sinônimo daquilo que existe.

Então, Platão vai retirar o ser do caos. E ao retirar o ser do caos, ele o divide em dois: em SENSÍVEL e INTELIGÍVEL. (Aí, eu vou começar a aula. Vocês perguntem, porque a nossa aula começa agora. Agora nós vamos enfrentar…)

Alº: Sensível e inteligível?

Cl: É… E ele arrancou isso de onde? Do caos.

― Platão é o filósofo do ser? Ele é um filósofo do ser, porque ele arrancou o ser do caos. Agora, ele dividiu o ser em quantas partes? Em duas. Então, a partir disso, a filosofia vai ser sempre filosofia do ser e sempre subsidiária ao sensível e ao inteligível, (que eu vou passar a explicar a vocês o que é).

Alº: Claudio, olha só, o ser é sinônimo daquilo que existe…

Cl: É, vamos colocar assim.

Alº: Mas ele retirou aquilo que existe do caos. Eu posso então considerar que aquilo já existe no caos?

Cl: Os seres inteligíveis? Não! Não! Se existissem no caos o ser seria caos! Platão vai lá no caos… ele é um sujeito artista, ele modela ― no caos ― o ser. Só que ele vai dizer que não foi ele quem fez isso. Quem fez isso para ele chama-se DEMIURGO. Demiurgo em grego quer dizer ARTESÃO DIVINO.

Alº: Porque aquilo começa a existir a partir do momento em que…

Cl: A partir do momento em que o artesão divino ― que é o demiurgo ― o produz.

Al: Mas até o demiurgo já é uma produção do Platão, não?

Cl: O demiurgo é uma produção platônica. Mas acontece que para Platão o demiurgo é aquele que produz, no caos, o ser.

Alª: Mas ele ainda está inventando o mundo, não é isso?

Cl: Quem está inventando o mundo?

Alª: O Platão.

Cl: Ele está inventando o mundo que ele diz não ter sido ele que inventou; quem inventou foi o demiurgo. (Não é isso?). O que o demiurgo arrancou do caos? O ser. E o ser se divide em sensível e inteligível. Então, a história da filosofia vai ser marcada por isso. A história da filosofia vai ser sempre a filosofia do ser. E o ser, vai ser dividido em sensível e inteligível.

Se o ser vai ser dividido em sensível e inteligível, é preciso que, nesse universo, apareçam os seres vivos, que entram em contato com esse ser inteligível e sensível. Então, os seres vivos ― que vão entrar em contato com o inteligível e com o sensível ― vão ser dotados de estruturas para apreender o sensível e o inteligível. Essas estruturas que apreendem o sensível e o inteligível (isso, vocês não vão encontrar em Platão; sou eu que estou marcando) chamam-se FACULDADES.

― Para que servem as faculdades?

Als: Para apreender o sensível e o inteligível.

Cl: Para apreender o sensível e o inteligível. (Entenderam? Então, nós temos aqui, prestem atenção… Vamos fazer assim:)

O ser para Platão é sensível e inteligível. Quando se está falando do ser está-se fazendo uma prática chamada ontológica. Falar do ser é fazer ONTOLOGIA. Agora, falar daquele que apreende o ser é EPISTEMOLOGIA.

― Quem é que apreende o ser? Quem apreende o ser é o sujeito vivo. Então, o sujeito vivo é dotado de faculdades para apreender o ser. Mas acontece que o único vivo que é capaz de apreender as duas metades do ser é o homem. Porque os outros seres vivos, que não o homem, só apreendem uma metade do ser ― que é o sensível.

(Eu acho que está tudo muito bem! Tudo muito bem!)

Então, os outros ― que não são o homem ― apreendem a metade do ser que é o sensível; enquanto que o homem é dotado de uma faculdade que os outros vivos não têm. Essa faculdade de que o homem é dotado chama-se RAZÃO. A razão é a faculdade especifica para apreender uma metade do ser. Qual a metade?

Alº: Inteligível…

Cl: Inteligível!

(Entenderam?).

Vejam o que Platão está dizendo: que o homem é um ser privilegiado porque o ser se apresenta com duas metades. Essa é a ontologia platônica e esse ser que apresenta essas duas metades ― o homem ― tem as faculdades exatas para apreender tanto o sensível quanto o inteligível. Essas faculdades…

― O que é a faculdade? É a coisa mais simples entender o que é faculdade? Faculdades são: imaginação, sensibilidade (por enquanto, por enquanto é simples, depois vai complicar). Sensibilidade é uma faculdade? Imaginação é uma faculdade? Memória é uma faculdade? Razão é uma faculdade? Tudo isso são faculdades. Então, a diferença do homem para os outros seres vivos é uma só: que o homem é dotado de uma faculdade, que os outros seres vivos não possuem, que se chama… (Als: Razão).

Por isso, a definição clássica de homem é ANIMAL RACIONAL. Qualquer homem é animal racional, porque é dotado de razão. Então, Platão está dizendo que o homem apreenderia as duas metades do ser.

Agora, o homem é um ser composto de alma e corpo. E o que tem as faculdades é a alma. A alma é que tem as faculdades. Então, vai aparecer aqui uma coisa muito bonita, que é o mito que Platão faz, dizendo que a alma é um carro ― é uma biga, (não é?) Aquela biga antiga…

(Todo mundo entendeu o que é biga?).

Então, nessa biga existem DOIS CAVALOS: um BRANCO e um PRETO. O branco representa, vamos colocar assim ― a área eterna, vai ficar um pouco duro pra vocês… Vamos dizer: o branco representa a VIRTUDE e o preto a SENSUALIDADE. Então, o cavalo preto são as faculdades sensuais e o cavalo branco são as faculdades da virtude. E o COCHEIRO é a RAZÃO.

(Entenderam?)

Essa alma costuma fazer uma procissão nos céus, acompanhando os deuses: Lá vai ela, acompanhando os deuses!… As almas, as múltiplas almas. Quando essas múltiplas almas chegam aos confins dos céus aparecem as ESSÊNCIAS. As essências são os inteligíveis. A parte do ser chamada inteligível são as… (Als:) Essências.

Então, antes de as essências aparecerem nos confins do céu, só havia o sensível. (Ou não entenderam?).

Alº: Não compreendi muito bem, quando você contou essa coisa da biga,eu me perdi pelo caminho.

Cl: A alma é cavalo preto, cavalo branco e cocheiro. Então, elas vão junto com os deuses viajando no céu. A biga tem uma asa, um par de asas, vai batendo as asas… Aí, chega aos confins dos céus, a alma vai contemplar as essências que estão lá. Então, até então só existia o quê? O sensível. Porque essas essências é que são o inteligível.

(Entendeu, Cacau? Ou ficou difícil?).

Alª: Mais ou menos…

Cl: Não pode ser mais ou menos, não. Tem que ser entendimento total. Se não deu para entender, vamos voltar à explicação.

Quem, no Platão, apreende o cavalo branco, o cavalo preto e o cocheiro são as três partes da alma. Então, a alma é composta de três partes: a sensual, a virtuosa e a racional. A racional é o cocheiro. Então, quando a alma chega lá no alto, ela para, junto com os deuses, para contemplar as essências ― que são os inteligíveis. Certas almas, no entanto, têm os cavalos pretos indóceis, ou seja, a sensualidade muito forte, muito violenta. E como o cocheiro fica tomando conta do cavalo negro, não contempla as essências. Então, Platão vai dividir as almas em “almas que viram muito” e “almas que viram pouco”. Quais as almas que viram pouco? As que são perturbadas pelos cavalos pretos.

(Não sei se foi bem…).

Depois que perdem as asas, essas almas entram nos corpos. Quando elas entram nos corpos, as almas que viram muito viram filósofos; e as almas que viram pouco, sofistas e demagogos.

(Está certo?).

Mas Platão pôde construir tudo isso, porque ele arrancou o SER do ponto gris… [Atenção, porque não há ponto gris em Platão, viu?]; porque ele arrancou do ponto gris o SER ― que ele divide em sensível e inteligível. Então, o sensível e o inteligível, para ele, é aquilo que é apreendido pela alma. O homem superior é aquele que apreende o inteligível. Aquele que fica apenas do lado do sensível, o máximo que ele pode fazer é poesia, música, pintura, arte… E a arte, para ele, é menor. E o artista é, inclusive, aquele que perturba a cidade, e, por isso, deve ser expulso dela.

(Entenderam?)

Então, Platão acabou de construir a filosofia dele. Eu posso chamar a filosofia de Platão de a filosofia do ser? E de a filosofia do ser esquartejado? Porque dividido em duas metades, a metade sensível e a metade inteligível!

(Acho que foi muito bem, não é?).

Em seguida, Platão vai dizer que a metade sensível (aqui é de uma importância incrível!) é composta de dois componentes; ou melhor: ele divide o sensível em duas metades. Então, quantos esquartejamentos ele faz? Dois: o sensível e o inteligível; e agora ele esquarteja o sensível em outras duas metades. Uma das metades do sensível, ele diz que é a metade LIMITADA; e outra, é ILIMITADA. Numa linguagem mais moderna, a limitada chama-se CÓPIA; e a ilimitada chama-se SIMULACRO.

Então, essa metade chamada simulacro ― essa metade ilimitada que é o ilimite no infinito ― não pode ser constituída como saber.

(Vocês entenderam isso, ou ficou difícil?)

Então, como o saber se constitui? Somente no limite. Só há saber no limitado. E o ilimitado, o infinito, não pode ser constituído como saber. Por isso, para Platão, a metade ilimitada tem que ser recalcada para o fundo dos oceanos. Recalque o ilimitado, recalque o infinito… Que é a mesma coisa: expulse o sofista da cidade ― porque o sofista é exatamente o ilimitado. E ele diz que o sofista é o Proteu de Cem Cabeças: não há como defini-lo, porque você define uma cabeça, e ele aparece com outra. (Não sei se entenderam bem). Então, ele escapa, ele foge. E por isso, para o platonismo, é necessário expulsar o sofista e ficar apenas com o ser, com o sensível enquanto limitado, enquanto mensurável. E o sensível é mensurável e limitado porque ele se submete às FORMAS CAUSAIS DO INTELIGÍVEL.

(Não há mais o que dizer aqui… é para vocês perguntarem… porque eu vou abandonar o Platão. Vou parar um pouquinho e ouvir as perguntas.).

Alº: Você pode repetir o final?

É que o sensível se abriu em dois ― em cópia e simulacro. A cópia é o limitado e o simulacro é o ilimitado. Essa cópia, esse limitado é limitado porque é submetido às formas do inteligível. São as formas do inteligível que tornam uma parte do sensível limitada. Mas existe outra parte do sensível que não se subjuga ao inteligível. Essa outra parte que não se subjuga chama-se simulacro. Não se pode constituir saber em cima dela. Então, é preciso expulsá-la, jogá-la para debaixo dos oceanos. Ele a chama de Proteu de Cem Cabeças. Ou seja, com a filosofia de Platão, fica estabelecido para o Ocidente que o saber só é saber do limitado. Por isso que quando nós queremos saber alguma coisa, a primeira prática que nós fazemos é definir. DEFINIR, quer dizer: dar limites.

(Vocês entenderam? Isso tudo é Platão!)

(Eu gostaria que vocês perguntassem…)

Alª: Na constituição do saber, Cláudio, entraria essa parte do limitado, o limitado no sensível, que estaria submetido às formas causais do inteligível. Agora, onde mais que o inteligível vai entrar na constituição do saber?

Cl: Só aí.

Alª: Só aí… Ou seja, ele vai fornecer essas formas causais?

Cl: Ele fornece as formas causais ao sensível, o sensível se submete a ele e aí o sensível se torna limitado. Mas só há saber se a sua alma entrar em contato direto com o inteligível. Porque saber no sensível não existe, você só tem saber se entrar em contato direto com o inteligível. Mas a única parte do mundo sensível que pode ser constituída como órgão do saber é o sensível submetido ao inteligível. A parte do sensível que não se submete ao inteligível, e que se chama simulacro, escapa: ela é ilimitada, ela é infinita, ela não se submete a uma definição. É fantástico!

Numa obra do Platão, quando ele vai definir o sofista ele faz sete ou oito definições. E são insuficientes, porque você não consegue definir o ilimitado, então, como você não consegue definir o ilimitado, não há saber possível do ilimitado, por isso o ilimitado deve ser expulso. E isto vai se tornar um modelo do Ocidente. Quais são os modelos do Ocidente? Filosofia do SER: primeiro modelo; segundo modelo: só há saber do LIMITADO.

(Agora vocês coloquem perguntas para a gente sair disso daí. Platão está encerrado… pelo menos hoje, não é?).

Al: —– só é possível criar poesia, música, pintura… Eu não entendi muito bem.

Cl: Porque eu disse que a poesia, etc. ― a arte ― estaria (depois eu vou explicar mais…) do lado do lado do ilimitado. Isso tudo está do lado do ilimitado. Você pode encontrar uma poesia do lado dos limites. A questão platônica é que tudo que estiver do lado do ilimitado, do lado do simulacro, tem que ser expulso, tem que sair da cidade, é elemento perturbador, elemento enlouquecedor. Por exemplo, a Carolyn Carlson ele expulsaria. Não serviria para ele, não serviria, não serviria de maneira nenhuma. Porque todo saber se constituiria por esse limitado.

O que eu queria que vocês fizessem (e essa é a organização brilhante, a organização potente!) é dar conta disso: que com Platão nasce a filosofia e a filosofia tem dois modelos ― filosofia do ser e filosofia dos limites. Se vocês derem conta disso, estou satisfeitíssimo: filosofia do ser e filosofia dos limites. (Está bem, Márcia?). O ser, para Platão tem quantas partes? Sensível e inteligível, mas poderia ter uma só. O que importa é que ele inaugura a filosofia do ser.

Sinônimo de ser: aquilo que existe. E qual é a outra parte? O saber só se constitui naquilo que estiver limitado. E quem é que dá limite às coisas? O inteligível, porque o inteligível, o ser do inteligível é o limite. O ser do sensível, não; o sensível é ilimitado nele; a matéria nela mesma é ilimitada. Então, é preciso submeter e subjugar a matéria às formas do inteligível. Mas alguma parte da matéria escapa a essa subjugação, continua ilimitada ― e essa parte tem que ser expulsa! Chama-se simulacro, o Proteu de Cem Cabeças, o sofista ― que deve ser enterrado debaixo dos oceanos.

Al: Seria o mundo possível?

Cl: Esse mundo do ilimitado? Você pode chamar de mundo possível. Platão subjuga o ilimitado, o expulsa. Não o quer.

(Eu vou sair, já vou mudar. Tá? Acho que está tudo bem, não é?

É muito bonito isso aqui… Bonito e poderosíssimo!

Platão vai ter um grande herdeiro: chama-se Aristóteles. Com Aristóteles não tem conversa, não tem “papo furado” ― é só filosofia do ser, formalizado.

(Eu vou descansar dois minutos, enquanto vocês tomam um café)

[Claudio faz uma introdução à filosofia estóica:]

[…] Isso não é pra rir, isso é sério, é seríssimo! Os estóicos não só anteciparam o Jim Morrison, como anteciparam, talvez não, seguiram o Aldous Huxley, que escreveu um livro famosíssimo ― vários! Qual deles? As portas da percepção. Tem tudo a ver com a nomenclatura do Jim Morrison. Porque, na verdade, o The Doors nada mais é do que a quebra da percepção banal. Logo, é a penetração no Ponto gris. (Entenderam?). É isso que o Jim Morrison faz, e de lá ele arranca The end.

Então, agora nós estamos diante de uma filosofia que vai emergir no século III a.C., chamada estóica ― ou estoicismo. No estoicismo há um pensador mais destacado, chama-se Crisipo. É uma delícia! Ele é uma delícia, uma delícia ― o Crisipo!

Os estóicos vão começar por fazer uma filosofia do ser. Estão ou não imitando Platão? Estão.

Então, eles começam a fazer uma filosofia do ser. Mas, quando começam a fazer essa filosofia do ser ― e todo mundo está satisfeito porque está tudo em paz: lá vem a mesma filosofia do ser… ― subitamente eles produzem a filosofia do EXTRA-SER. Então, os estóicos introduzem duas novas metades: o ser e o extra-ser.

No ser, é incrível, tem o inteligível e o sensível. Mas além da filosofia do ser eles vão produzir a filosofia do extra-ser. Qual é o sinônimo do ser? Aquilo que existe. Então, eles ao produzirem a filosofia do extra-ser, eles vão produzir a filosofia do que não- existe.

Então, nós vamos agora entrar ― realmente ― nas portas da percepção, porque, ao lado da filosofia do ser, estaria a filosofia do não-ser. A filosofia do que existe e a filosofia do que não existe. Numa outra linguagem, especificamente, magnificamente estoica… (é isso que eu quero que vocês marquem, porque ela é magnificamente estoica) a filosofia do ser eles chamam a FILOSOFIA DOS CORPOS e a filosofia do extra-ser eles chamam de FILOSOFIA DO INCORPORAL. Então, nós vamos começar a conhecer… o Incorporal.

Alº: Incorporal não tem nada a ver com a alma, não é?…

Cl: Não! Nada! A alma… Não, a pergunta é boa Hailton, [para esclarecer questões do tipo (- Por que então é a alma? Então, é a filosofia da alma?)] Não, porque os estoicos dirão: a alma é CORPO! Olha: a alma é corpo. Porque se eles não dissessem que a alma era corpo, a alma teria que ir para onde? Para o extra-ser. (Entendeu aqui, Márcia, Cacau?).

Então, eles estão produzindo a filosofia do extra-ser e esta filosofia do extra-ser não é… corpo. Vamos ver então, assim, numa avant-première, o que seria o extra-ser. O extra-ser seria o TEMPO PURO.

Então, vocês dizem: quer dizer que o Aristóteles e o Platão não pensaram o tempo? Pensaram… Mas identificando o tempo ao… ser. E os estoicos vão dizer que o tempo não é… ser. O tempo é extra-ser. Não só o tempo como o VAZIO. Então, nós vamos começar a conhecer dois incorporais dos estoicos, um se chama tempo, o outro se chama vazio.

E agora começam a surgir pontos que tiram o fôlego: eu já estou sem ar! Começam a tirar o fôlego da gente… (agora vai ser dificílimo pra vocês e pra mim!)

Porque os estóicos vão introduzir no extra-ser (logo naquilo que não existe!) uma criatura altamente surpreendente chamada AFETO. Incrível, o afeto não é ser, o afeto é não-ser.

Vocês sabiam que, no século XX, um psicanalista brilhante, chamado André Green, dedicou a obra dele ao afeto e, de alguma maneira, ele compreendeu que afeto é um extra-ser. Ele compreendeu isso. E daí todo o confronto que há entre o André Green e o Lacan. Está exatamente aí o que é a psicanálise do André Green e o que é a psicanálise do afeto. (Depois eu volto a isso).

Então, eu acabei de constituir o povo do extra-ser. O povo do extra-ser chama-se afeto. E esses afetos que habitam o extra-ser são múltiplos.

(Atenção para isso, que vocês não sabem as grandes questões da filosofia…)

Aqui está surgindo uma grande questão da filosofia: o extra-ser é povoado por múltiplos afetos. Então, no extra-ser existe uma multiplicidade de… afetos. Mas no ser também existe multiplicidade de… INDIVÍDUOS. Então, você teria no ser uma multiplicidade de indivíduos. Por quê? Porque, depois de muita dificuldade a filosofia vai dizer que a única coisa que existe é o indivíduo. Então, a única coisa que pode povoar o universo do ser é o indivíduo. Então, nós vamos ter dois povoamentos: o povoamento no ser que é povoado pelos indivíduos, que vai ser chamado de ORDEM NUMÉRICA. O povoamento do ser é o povoamento pelos indivíduos; e o povoamento do extra-ser é o povoamento pelos… afetos.

Então, quantas multiplicidades nós temos? Duas: a multiplicidade do ser e a multiplicidade do extra-ser. A multiplicidade do ser é a multiplicidade dos indivíduos, a multiplicidade do extra-ser é a multiplicidade dos afetos. Vamos dizer que os estoicos agora vão dizer: se nós quisermos fazer ciência, nós vamos fazer ciência com a multiplicidade dos indivíduos; se nós quisermos fazer filosofia, nós vamos fazer filosofia com a multiplicidade dos afetos. Mas, a partir daqui, nós nos libertamos de uma ficção platônica, porque o Platão achava que esse universo se dividia em uno e múltiplo, mas não há uno nem múltiplo: o que há são duas multiplicidades ― a multiplicidade dos indivíduos, que se chama multiplicidade numérica e a multiplicidade dos afetos.

Eu estou falando da multiplicidade dos indivíduos como multiplicidade numérica, porque a matemática tem a função de dar conta da multiplicidade numérica e a matemática nada pode fazer com os afetos. Por quê? É isso que nós vamos estudar a partir dessa nova pausa, porque… sai da frente! Não é?

Perguntas – as perguntas estão todas abertas… (Márcia?)

Alª: Música é matemática?

Cl: Música?

Alª: É.

Cl: Olha, eu já tentei mostrar, com muita dificuldade pra vocês ― e se tivesse um dos meus assessores musicais aqui, já ficaria todo irritado ― é que nós vamos tentar encontrar uma música do lado do ser, que se chamará de música formal; e vamos encontrar uma música do lado do extra-ser, que será uma música aformal ou ― numa outra linguagem ― uma música do indivíduo e uma música das singularidades. (Não sei se está claro isso que eu disse…). Tentarmos encontrar isso, vai ser realmente difícil… Uma prática de música que não seria música do ser ― e isso aqui nós teríamos certas tentativas, realizadas no século XX, que é onde nós vamos trabalhar: de um lado o Pierre Boulez, o Messiaen (que vocês não conhecem… e vão conhecer…) mas, eu acredito, sobretudo, o Stockhausen com a música eletrônica. O que nós podemos tirar da música eletrônica? O que nós podemos fazer com a música eletrônica, pra retirar a música eletrônica do campo do ser e lançá-la no campo do extra-ser? (Isso vai ser duro! Mas nós temos que fazer esse trabalho…) Então, eu estou dizendo, tentando te responder, Márcia, que toda e qualquer arte poderá ser arte das singularidades.

(Não sei se foi bem… Bateu mal. O que vocês acharam? Bateu mal? Olha… Vamos aqui, antes de seguir:)

Eu sou um platônico: sou um filósofo do ser? Ou não? E no ser, eu encontro duas metades? Quais são as duas metades que eu encontro no ser? Sensível e inteligível. Agora eu sou um filósofo estóico: eu tenho duas metades? Quais são? Ser… (Alº:) e Extra-ser. Cl: É essa a filosofia que nós vamos seguir.

Ou seja, nós vamos entrar na filosofia do ser ― que é a filosofia dos corpos (Vocês aqui vão entender pouco!), regulada por todos os princípios clássicos da filosofia: princípio de não-contradição, princípio de identidade, princípio de causa eficiente, princípio de terceiro excluído, etc.

E nós vamos entrar na filosofia do extra-ser, onde nenhum princípio do ser pode regular. Ou seja, no extra-ser, nós vamos entrar no universo pleno dos paradoxos. Posso até dizer pra vocês que quem convive com a filosofia do ser é a sensibilidade e o intelecto; e que quem convive com a filosofia do extra-ser é o pensamento. Eu, então, estou distinguindo pensamento de intelecto. Mas estou dizendo uma coisa mais grave: se vai haver arte do extra-ser, arte das singularidades ― pouco importa se uma arte sonora ou ótica, pouco importa! ― vai haver uma arte da singularidade, vai haver uma ciência da singularidade, vai haver uma filosofia da singularidade. Logo, arte, ciência e filosofia implicam o pensamento. Começar a excluir essa tolice, que a filosofia analítica inundou o século XX, de que arte não é prática de pensamento: não há arte sem pensamento!

(Então, pronto, perguntem, para eu descansar um pouquinho… Porque eu falo com muita velocidade: cansa!…).

Alº: Você pode dar exemplo de afeto?

Cl: Dou. Eu vou te servir mais Hailton. A filosofia do ser… (Olha, quando bater o problema vocês coloquem. Ninguém deixe… ah! bateu um problema, fico com vergonha de perguntar… Não tem dessas coisas não. Quem tem vergonha, morre! Não tem isso.)

A filosofia do ser, gerada em Platão, vai ter seu herdeiro fundamental que é o Aristóteles. E quando o Aristóteles aparece, um dos temas centrais da obra dele é a fundamentação da linguagem.

― O que Aristóteles vai fundamentar? A linguagem articulada à filosofia do ser. Vamos chamar essa linguagem articulada à filosofia do ser (vamos marcar!) de a linguagem do significante e significado. (Certo?). Mas vai haver uma linguagem do lado do extra-ser e essa linguagem do extra-ser vai ser fundamentada pelo sentido. Então, sentido é sinônimo de significado?

Alº: Não.

Cl: Por quê? Significado do lado do ser, sentido do lado… (Ih! Está ficando difícil… o pessoal… calou todo mundo aí).

Lancei duas filosofias da linguagem: uma filosofia da linguagem que tem como modelo o significante e o significado, que é do lado do ser; uma filosofia que tem como modelo o sentido, que é do lado do extra-ser. (Facilmente entendido!). A psicanálise adotou a linguagem do ser, que é a linguagem do significante e significado.

Al: Haveria uma terapia do extra-ser?

Cl: Evidente! Evidente! Evidente! Evidente!

Eu agora vou até lançar mais. Apertar mais, mas com cuidado. Se você está do lado do ser, você está do lado de uma filosofia do poder. Se você está do lado do extra-ser, você está do lado de uma filosofia da potência. Fantástico! Um filósofo chamado Espinosa, no XVII, entende isso e divide as palavras latinas em: potestas e potentia. Potestas do ser e potentia do extra-ser. Então, sim, uma terapia do poder e uma terapia da potência. Essa terapia da potência que gerou a discutida e paradoxal esquizoanálise do Guattari. Logo, a esquizoanálise é um confronto direto com a psicanálise, porque a psicanálise é uma terapia do poder.

(Risos…)

(Ainda é muito cedo, mas alguma coisa pode ser marcada aqui, sobretudo pra Márcia, (que ela viu), a dança da Carolyn Carlson.)

O que marca a dança da Carolyn Carlson é a música minimalista. A música minimalista é baseada na repetição, uma repetição narcótica, (porque a repetição narcotiza, (não é?)… pam… pam… pam… pam pam Daqui a pouco vocês está assim [Claudio faz um gesto de quem está tonto], em vinte minutos da Carolyn Carlson dançando eu já estava assim [tonto]: estava que não podia mais… me segura!…) Aquilo vai jogando você numa narcotização. Eu poderia dizer que a repetição é, literalmente, uma categoria do extra-ser. A repetição não é bem vista na filosofia do ser. (Isso tudo a gente vai examinar).

Então, eu estou dizendo que o Platão é um filósofo da repetição? Não. Ele não é um filósofo da repetição, ele é um filósofo da generalidade. Agora, a repetição emerge ― com uma violência tremenda! ― cá na filosofia do extra-ser. Então, Philip Glass, Velvet Underground, tudo isso estaria cá do lado do extra-ser, e o século XX, trazendo isso com uma magnificência incrível, (não é?) tentando sem que… eu não vou dizer que um músico sabe essas coisas que estou dizendo, mas ele começa a produzir uma obra de arte inteiramente articulada com o extra-ser.

(Posso descansar só um minuto? Podem passar perguntas, durante dez minutos para eu não expor nada, para eu recuperar as forças… Mas perguntem mesmo, não fiquem olhando pra mim, não, porque eu tenho uma vergonha danada!).

Alª: Queria que você explicasse melhor a linguagem do significante…

Cl: Quer isso? Eu explico. Vou parar e vou tocar um significante e significado em confronto com o… sentido.

Sentido em grego chama-se lekton. A filosofia do lekton contra a filosofia do semaion. A filosofia do semaion contra a filosofia do lekton… os apaixonados pelo grego. O sentido de um lado, significante e significado de outro.

(Eu vou entrar nisso. Tá? Mas vou descansar cinco minutos…).

Alª: O Cláudio, o simulacro rejeitado por Platão, dá pra entrar nisso?

Cl: O simulacro, que é rejeitado por Platão, essa questão dela é coerente? Inteiramente, não é? Nós temos que examinar como Platão compreende o simulacro e como o estoico compreende o simulacro. Não é a mesma coisa. Vai ter diferença. É muito interessante isso, que essa palavra simulacro foi apreendida no século XX pela sociologia. Os sociólogos apreenderam essa palavra simulacro e só falaram asneiras. O Deleuze foi e a abandonou. Não trabalha mais com o simulacro.

Al: Tá, mas então, eu mudo a pergunta. O ilimitado…

Cl.: Mas tá bom, não faz mal.

Cl: Nós vamos ver o ilimitado do lado do Platão e o ilimitado do lado dos estoicos.

Al: Aí muda?…

Cl: Muda. Muito bonita a pergunta!

A única coisa que a gente já sabe é que esse ilimitado do lado do Platão, (vê se fica bem), o ilimitado do lado do Platão pertence aos corpos? O ilimitado platônico são os corpos? É…é…é! São corpos. É, está embaixo, corpo é limitado e ilimitado. O ilimitado… Quem leu, por exemplo, a Melanie Klein? Seio Bom e Seio Mau. Você sabe que ela está falando sobre esse ilimitado platônico? Rugem, no interior de nossos corpos, forças ilimitadas e loucas. É isso que está sendo dito. O Platão vai expulsar esse ilimitado e vai ficar somente com o limitado. Agora, quando nós passarmos para o extra-ser, esse limitado platônico vai reaparecer, mas como uma criatura completamente diferente chamada, segundo a brilhante exposição que o Chico fez na segunda-feira passada, SUPERFÍCIE METAFÍSICA.

Superfície metafísica seria o nome do ilimitado estóico, à diferença do ilimitado platônico, que eu vou chamar de seio mau. (riso) Seio bom e seio mau. Olha, o ilimitado platônico é mais do que isso, são gases, esses gases que explodem nos nossos corpos; que a gente fica com vergonha deles; que a gente não tem domínio sobre eles: são essas as forças ocultas do corpo.

(Eu vou descansar aqui aqueles tais dois minutos e vou dar entrar em serviço direto à Cacau).

(intervalo)

[…] Sendo um filósofo do ser… (vamos ver se vocês recompõem o que eu já havia dito)… ele trabalha com três elementos. O sensível faz parte da filosofia do ser? O inteligível faz parte da filosofia do ser? Mas tem outro componente que faz parte da filosofia do ser ― AS FACULDADES. Então, a filosofia do ser… Vamos dizer o que é que tem na filosofia do ser:

(Hein, Chico? O Chico é uma espécie de especialista nisso.)

Na filosofia do ser você tem ― o sensível, o inteligível e as faculdades. Então, na filosofia do ser existe a razão? Sim. Por quê? A razão é uma faculdade. O que é a razão em Platão? É o… cocheiro (Está certo?). Então, no Aristóteles a razão é uma faculdade e evidentemente é a faculdade principal. E qual é a função da razão na filosofia do ser aristotélica ou em qualquer filosofia do ser nesse nível que está aí? É fazer REPRESENTAÇÕES. (Vamos marcar isso). O que a faculdade da razão representa? O que ela representa? Representa o ser. E o que é o ser?

(fim de fita)

Cl: Em Aristóteles só existe um ser! Qual é o ser para ele?

Alª: O sensível.

Cl: Então as faculdades são para apreender o quê?

Alª: Para apreender o sensível.

Alª: Então, para o Aristóteles o ser é o sensível e as faculdades?

Cl: O sensível e as faculdades.

Mas acontece que o que Aristóteles chama de sensível é toda matéria formalizada (Difícil aqui!). Ele está dizendo que no sensível não existe nenhuma matéria que não tenha… forma. Toda matéria tem… forma. É matéria; logo, tem forma. Não há outro jeito: toda matéria tem forma!

(Está indo bem aqui?)

E a Faculdade tem a função de reproduzir dentro dela esse sensível formalizado. Então, o instrumento que nós temos para apreender esse sensível formalizado é a PERCEPÇÃO. Então, com a minha percepção, eu apreendo aquela aluna chamada Pérola? Ou não?

― O que é a Pérola? Eu sei que ela é uma mulher e que ela é a mãe de Alexandre; mas não é isso que eu estou perguntando.

― O que é a Pérola? Ela é um sensível formalizado, que a minha percepção… apreende. (Cacau, está bem aqui?) Quem é que apreende o sensível formalizado? Alª: A percepção. Então, a percepção representa dentro dela o sensível formalizado. Mas olhem só: eu olho para a Pérola. Eu estou fazendo uma representação formalizada dela? Sim. Agora, eu viro para cá. Eu parei de perceber a Pérola? Logo, a representação que eu fazia dela desapareceu? Alª: desapareceu. Mas aí você vai usar uma outra faculdade…

Cl: Vão aparecer outras faculdades: a imaginação e a memória.

Alª²: Você acha que virando de costas você para de perceber?

Cl: Claro, preste atenção: eu percebi a Pérola pela percepção; vim para o lado de cá ― e já não a percebo mais! Mas, agora, vão aparecer duas outras faculdades em mim: a memória e a imaginação ― que vão manter a Pérola percebida dentro de mim.

(Entenderam?)

Cl: Então, na hora que eu me viro para o outro lado, eu deixo de perceber a Pérola, mas as faculdades da imaginação e da memória conservam a Pérola dentro de mim, essa Pérola, dentro de mim, chama-se Fantasma Sensível. Então, quando eu chegar a casa e me deitar, e a Pérola, a Cacau e a Márcia vierem à minha cabeça, estarão vindo três fantasmas sensíveis à minha cabeça.

Então, o que mantém a realidade dentro de nós, são a faculdade da imaginação e a faculdade da memória ― que geram os fantasmas sensíveis.

(Entendido? Todo mundo entendeu?)

Cl: Agora, eu vou perceber que cada um dos fantasmas sensíveis são diferentes uns dos outros. Por exemplo: O fantasma sensível de Pérola é diferente do fantasma sensível de Zé Luíz; o que regula os fantasmas sensíveis é a diferença entre eles. (Certo?). De repente, entra uma nova faculdade em funcionamento ― a faculdade chamada INTELECTUAL. Ela entra, e vai pegar como matéria de trabalho os fantasmas sensíveis. E vai extrair dos fantasmas sensíveis, por um processo chamado ABSTRAÇÃO, o fantasma inteligível. O FANTASMA INTELIGÍVEL, na nossa linguagem, chama-se CONCEITO. O fantasma inteligível é retirar dos fantasmas sensíveis aquilo que nesses fantasmas sensíveis é semelhante.

Tirar dos fantasmas sensíveis a semelhança. O que é semelhante em Pérola, Márcia e Cacau ― é a RACIONALIDADE. Esses três fantasmas sensíveis têm racionalidade. Então, o meu intelecto tem a função de abstrair dos fantasmas sensíveis a SEMELHANÇA. E ao extrair a semelhança dos fantasmas sensíveis, o intelecto produz o fantasma inteligível, que vai se chamar (marquem!) GENERALIDADE ou CONCEITO. (Entenderam?). (Quem trabalha melhor nisso? HUME: Hume esgota isso!)

― O que é um conceito, Hailton? Um fantasma…

Alº: Um fantasma inteligível.

O conceito é um fantasma inteligível. Sinônimo de conceito: generalidade ― todos os fantasmas inteligíveis são genéricos, porque são os elementos que são semelhantes nos fantasmas sensíveis.

(Conseguiram?)

Alª: Não.

Cl: Não? Isso daqui é um problema gravíssimo em filosofia: porque o fantasma inteligível não é um indivíduo; é uma generalidade: é um GÊNERO ou uma ESPÉCIE.

(Eu vou fazer o seguinte, Cacau. Eu não vou parar pra explicar gênero e espécie, não, porque nós vamos perder a aula toda. Deixa aqui, todo mundo faz um esforço, numa próxima aula eu explico.)

Os fantasmas inteligíveis são gênero e espécie. E os fantasmas sensíveis são… indivíduos. (Tá?). Então, o fantasma inteligível é um conceito. Ele representa o que é semelhante num conjunto de indivíduos. O que é semelhante num conjunto de indivíduos chama-se espécie.

(Tá difícil? Tá tão lindo!…)

A espécie é a unidade inteligível. Então, o conceito é sempre uma… espécie. O conceito representa as semelhanças dos fantasmas sensíveis. Então, o conceito passa a ser a primeira unidade racional.

― Qual é a primeira unidade racional?

Als: O conceito.

Cl: O conceito, que tem a função de representar a semelhança entre os fantasmas sensíveis.

Em seguida, eu pego um conceito; vamos ver o nome de um conceito? Hailton é um conceito? Cacau é um conceito? Cacau é um fantasma sensível; Hailton é um fantasma sensível; Pérola é um fantasma sensível; Mas, O HOMEM ― é um conceito.

― O que é o homem? São as semelhanças existentes nos fantasmas sensíveis. (Ficou muito difícil?)

(Cacau e Márcia ― ficou duro, não é? Não se preocupem não, porque mais tarde a gente manda isso mais forte.)

Então, o fantasma inteligível chama-se o… conceito: o conceito é a primeira unidade da razão; o conceito tem a função de representar os fantasmas sensíveis. Mas, em seguida, as faculdades ― a faculdade conceitual do fantasma inteligível ― vai ser substituída por uma outra faculdade chamada FACULDADE JUDICATIVA.

A faculdade judicativa é uma faculdade que JULGA. Ela vai JULGAR.

(Aqui é extraordinário!)

― O que faz essa faculdade judicativa? Ela vai pegar conceitos e juntar esses conceitos através do verbo ser na terceira pessoa do singular, e vai dizer: O homem é bonito. O homem é bom. Ou então vai articular ao verbo ser na terceira pessoa do singular o negativo não, e dizer: O homem não é bonito. O homem não é bom.

Então, o juízo ― que é produzido pela faculdade judicativa ― é o primeiro momento na história do homem em que surge o VERDADEIRO e o FALSO. Porque um juízo tem que ser necessariamente verdadeiro ou falso. Quando eu digo: O homem é bonito e o homem não é bonito ― um dos dois é verdadeiro e o outro é falso.

― Então, quando é que surgiu o verdadeiro e o falso? Quando nasceu o juízo, com a faculdade judicativa. Se o juízo gera o verdadeiro e o falso, com o juízo nasce a CIÊNCIA. Porque a ciência é sustentada, não só pelo verdadeiro ― a ciência é sustentada pelo verdadeiro e falso.

(Estão entendendo?)

Então, o juízo é a segunda prática representativa. Qual é a primeira prática representativa? O conceito. O conceito é a primeira representação; o juízo é a segunda representação.

A terceira prática representativa, ou terceira representação, chama-se RACIOCÍNIO.

Todo homem é mortalum juízo.

Sócrates é homemoutro juízo.

Logo, Sócrates é mortaloutro juízo.

Quando estão num raciocínio, os juízos chamam-se PREMISSAS e CONCLUSÕES.

Alª: Isso é lógica?

Cl: É Lógica. O raciocínio é o nascimento da Lógica.

― Quais são os três elementos da razão?

Conceito, juízo e raciocínio ― esses são os três elementos da razão.

Mas acontece que, ― e aqui é notável! ―, se nós temos essa capacidade racional de representar o mundo por conceitos, por juízos e por raciocínio, nós também temos que ter o poder de expressar o conceito, expressar o juízo e expressar o raciocínio ― e nós expressamos o conceito, o juízo e o raciocínio pela LINGUAGEM. Então, a linguagem não tem a função de representar. A linguagem tem a função de SIGNIFICAR o conceito, o juízo e o raciocínio. Logo, para Aristóteles, a linguagem nunca fala do mundo: a linguagem fala do conceito, do juízo e do raciocínio; a linguagem é do campo da SIGNIFICAÇÃO.

Aí, Aristóteles vai dizer uma coisa incrível: o significado é o conceito; e o significante são as palavras, divididas em significante oral e significante escrito.

― Quantos significantes? Dois: o oral e o escrito.

O oral é superior ao escrito, porque o oral está mais perto da alma, mais perto da razão ― mais perto do conceito, do juízo e do raciocínio. Por isso, para Aristóteles, o oral é o significante I e o escrito, o significante II: S¹ e S².

Alº: Lacan é aristotélico?

Cl: O que você acha? Hein?

Alª: Altamente aristotélico!

(Foi bem aqui?)

― Qual é o significante 2? A escrita. Porque a escrita significa a oralidade. E o oral significa a razão; e a razão representa o ser. Olha que coisa bonita! A escrita significa o oral; o oral significa a razão; e a razão representa o ser. A razão não é significativa ― é. Então, a razão não é significativa, é representativa. A linguagem não é representativa, é significativa.

(Entenderam bem?)

Então, nós temos que destacar e distinguir entre significação e representação. É isso que nós vamos ter que fazer.

― Quem representa? A razão.

― Quem significa? A linguagem.

(Está bem aqui?)

(Vou descansar outra vez. Perguntem para eu ver se foi bem. Agora eu vou sair e vou para o sentido…)

Alª: O inteligível em Platão era transcendente. Aqui ele deixa de ser?

Cl: Deixa. Porque… (Olhem a pergunta que ela fez: o inteligível em Platão era transcendente.) E, inclusive, essa transcendência platônica, eu não vou trabalhar hoje, ouviu? Porque a transcendência platônica não é o que se chama uma transcendência absoluta. A transcendência absoluta é a transcendência oriental. Eu vou explicar depois. A transcendência de Platão é uma transcendência na imanência. É um pouco diferente. Mas sim. O inteligível em Platão é transcendente, apreendido pela… contemplação! Não é a contemplação da razão que apreende o inteligível platônico?

Alª: Ah! Tá, tá.

Então, o inteligível platônico é apreendido pela contemplação. Agora, e o inteligível aristotélico, também é apreendido pela contemplação? Não. É extraído do sensível pela abstração. Então, no Platão― contemplação; no Aristóteles, abstração. (Entenderam?) Os modelos estão claríssimos aqui: Platão trabalha com a contemplação, Aristóteles trabalha com a abstração.

Então, eu vou parar um pouquinho com Aristóteles, vou descansar outra vez dois minutos para ver se vocês perguntam para eu fechar alguma coisa e vou passar para os estoicos. ― Aristóteles fez uma filosofia do ser? Als: Fez.

― As faculdades do Aristóteles só apreendem o ser? Só apreendem o ser. Representam e significam o ser: só trabalham com o ser. Perguntem, ― porque eu agora vou passar para os estoicos, pra fazer um pouco de filosofia do sentido. E essa é que vai ser… olha!… É aí, inclusive, que nós podemos chamar… (Tá muito barra pesada aí, duplinha?). Nós vamos fazer o seguinte: nós vamos chamar todo esse campo linguístico do Aristóteles de SEMIOLOGIA. E todo o campo linguístico dos estoicos, quando eles aparecerem, de SEMIÓTICA. Vamos fazer essa distinção: entre a SEMIOLOGIA e a SEMIÓTICA. (Porque essa semiologia aristotélica, aqui eu sei que a maioria não sabe disso…)

Alª: Saussure

Cl: Gera Saussure! Gera Saussure e as famosas dicotomias saussurianas. Enquanto que a Semiótica…

Alª: É o Peirce.

Cl: Vai gerar o Peirce com as suas tricotomias. É exatamente isso. Vocês vêm que ela sabe, não é? Mas vocês ainda não sabem bem isso, então vai ficar um pouco difícil.

(Pequena pausa, para eu descansar, tomar um café e um copo d’água…)

Vamos colocar assim: Inicialmente, uma mistura de Platão e Aristóteles; e depois uma carga pesada, que a gente sai dos dois, não é? Mas há uma mistura; a gente pode chamar de mistura. Os estoicos vêm depois do Aristóteles.

― Qual é a filosofia dos estoicos? E qual é mesmo a de Platão? Filosofia do ser, sensível e inteligível. A de Aristóteles, sensível, faculdades, pela abstração as formalizações, certo? Agora, estoicos, filosofia do ser e do extra-ser. Na filosofia do ser, eles têm que produzir as faculdades. (Agora que é o segredo, hein?)

― Existem faculdades nos estoicos? A mesma coisa que no Aristóteles: existem as faculdades para dar conta do sensível e para dar conta do inteligível, que faz parte do ser. As faculdades estoicas, então, apreendem o sensível, e por um processo que eu não vou perder tempo em explicar, porque agora não tem a menor importância, os estoicos vão chegar ao inteligível, mas não pelo processo de abstração. O processo deles vai ser outro. Mas eles também chegam ao inteligível.

― Então, os estoicos fazem uma filosofia do ser? Fazem.

― Existem as faculdades apropriadas para fazer a filosofia do ser? Existem. (Certo?) Apreendem tanto o sensível quanto o inteligível. O processo é um pouco diferente do aristotélico ― isso pouco me importa!

Mas os estoicos, além de fazerem a filosofia do ser, fazem a filosofia do ser sem ter uma necessidade semelhante à do Aristóteles para fazerem uma teoria da linguagem. (Entenderam?) A teoria da linguagem do Aristóteles não é uma teoria constituída para servir ao sistema representativo das faculdades aristotélicas ― conforme eu expliquei? ― porque as faculdades são representativas e a linguagem é significativa? Então, Aristóteles constrói toda uma teoria da linguagem em função da filosofia do ser. Os estoicos, não. Os estoicos no momento que eles penetrarem na filosofia do extra-ser, é na filosofia do extra-ser que eles vão sentir a necessidade de construir a filosofia da linguagem.

Nós vamos ter a filosofia da linguagem do Aristóteles originária no ser; e a filosofia da linguagem dos estoicos originária no extra-ser. (Certo?). Agora, o extra-ser, não adianta você entrar com as faculdades que apreendem o ser ― no caso, imaginação, memória, intelecto, etc. ― pra apreender o extra-ser, porque as faculdades que apreendem o ser não apreendem o extra-ser.

Alª: É aí que vai entrar o uso transcendental?

Cl: É aí que vai entrar o uso transcendente. (Tá?) Eu não vou falar nisso hoje.

O que vai acontecer agora é que nós temos que apreender o extra-ser. Para apreender o extra-ser (Aqui vai aparecer muito provisório, para se transformar depois!), vai ser construída uma faculdade para a apreensão do extra-ser. Essa faculdade que apreende o extra-ser chama-se PENSAMENTO.

Então, o pensamento só apreende o extra-ser. O extra-ser não é como o ser ― porque o ser ou é fantasma sensível ou… fantasma inteligível. Tanto o fantasma sensível quanto o fantasma inteligível são duas imagens. Agora, quando nós entramos no extra-ser, não há imagem: nós estamos diante do VAZIO. Nasce uma NOVA IMAGEM DO PENSAMENTO. Uma imagem do pensamento em que a matéria na qual se trabalha não tem imagem ― é o vazio. O que Deleuze vai chamar na obra dele de TERCEIRA SÍNTESE DO TEMPO. (Tá bem aqui? Tá danado, não é?). Então, o pensamento vai entrar agora em contato com o extra-ser, e, no extra-ser, a matéria com a qual o pensamento vai lidar chama-se SENTIDO.

Aqui, a primeira coisa que nós temos que fazer é separar o sentido do significado. O significado está do lado do ser; e o sentido está do lado do extra-ser. O sentido é um INCORPORAL; o significado é CORPO. Tá do lado do ser! Tudo o que está do lado do ser é corpo. È por isso que o Saussure pode dizer 3000 anos depois que o significado é um conceito mental. Mas acontece que o sentido não é um conceito mental.

Agora, eu vou passar para uma outra fase e eu vou encerrar, porque senão vocês não vão dormir esta noite…

Tudo o que estiver do lado da filosofia do ser chama-se representação.

Questão: ― O Aristóteles faz uma filosofia da representação? Melhor dito: o Aristóteles só faz uma filosofia da representação? Sim.

― Os estóicos fazem uma filosofia da representação? Fazem. Mas eles fazem uma que não é da representação e que nós vamos chamar provisoriamente de filosofia da EXPRESSÃO. Então, nos estoicos vai ter uma filosofia fora da representação, que é essa filosofia da expressão, que tem como matéria o Vazio do extra-ser. Esse vazio do extra-ser é o sentido.

Há um acontecimento estranho durante a obra de um estoico do século XIX-XX chamado Bergson, que encontrou um homem com o cérebro vazado por um pedaço de ferro. E, ainda que vazado por esse pedaço de ferro, esse homem pensava. Logo, esse homem pensava sentidos-vazios e não imagens cerebrais. Não sei se ficou claro isso que eu disse. O que eu estou dizendo é que, com a emergência da filosofia do extra-ser, nós vamos começar a encontrar um novo capítulo do pensamento ― que é o TEMPO PURO e o VAZIO. É exatamente isso, criaturas, que é dramático e trágico: o pensamento lida com o vazio. Então, não é muito bom pensar. É bom ficar lá do lado do ser, tomando coco-cola – compra lá uma dúzia de coca-colas – —- Agora, a filosofia do extra-ser é a penetração no sentido, penetração no tempo puro: se você não penetrar no tempo puro, você não faz nem conto nem novela. A essência do conto e a essência da novela é o tempo puro.

O que então eu estou dizendo pra vocês é que a arte vai ser penetrada por esse extra-ser. A matéria linguística do extra-ser chama-se sentido e incorporal. Vou dar um exemplo de sentido e de incorporal e vou terminar a aula, porque eu não agüento mais. Tá?

Lula e Dudu vão viajar para a Europa pela Varig. Então, eles vão para o avião. Vejam uma coisa: avião pertence à filosofia do ser? Sim. Por quê? Porque é um… corpo. E Dudu e Lula pertencem à filosofia do ser? Sim. Por quê? Porque são corpos. Mas no momento em que o Dudu e o Lula se sentam no avião, eles se transformam em passageiros. Passageiro não é um corpo ― é um incorporal; um extra-ser. É o sentido que eles recebem. (Vocês conseguiram entender?). É o sentido que eles recebem.

Então, estão essas duas grandes figuras ―um jurídico-platônico e o outro viscontiano ―sentados no avião como dois passageiros, penetrados de extra-ser; penetrados de sentido. De repente, entram no avião quatro árabes malucos e dizem: estejam sequestrados. E nesse instante, quando eles dizem isso, Dudu e Lula se transformam em reféns. Ou seja: isso se chama TRANSFORMAÇÃO INCORPORAL. Mudou o sentido, ainda que os corpos sejam os mesmos.

Alº: Sentido tem a ver com função?

Cl: Não. Sentido tem a ver com a constituição de um novo mundo. Porque quando esse avião levantar vôo e o Dudu e o Lula, que eram passageiros, se transformarem em reféns, e se esse avião for ficar 100 anos no céu, os seqüestradores vão produzir uma Paidea, logo, uma pedagogia dos seqüestrados. Vão ensinar pra todo aquele povo do avião a se comportar como refém. Não tem muita diferença para o nosso mundo, pois que nós vivemos numa sociedade de controle. A nossa sociedade nos controla o tempo todo, porque ela nos produziu como reféns incorporais.

Alº: No primeiro instante, eles não são mais corpos, eles…

Cl: Não, eles continuam sendo corpos o tempo inteiro. Mas, com um sentido diferente.

Então, veja bem: o sentido deles é passageiro. Aí, o Lula quer urinar. Ele é passageiro. Ele chama a aeromoça, dá uma olhada nela e diz: Onde é o banheiro, menina? Ela diz onde é, e lá vai ele fazer o xixi dele, podendo até fazer uma carícia mais ousada nela. Depois ele volta e senta.

Agora ele é refém. Ele chama a aeromoça? Não, porque ela é tão refém quanto ele. Ou seja: o sentido do mundo mudou, o comportamento mudou, a atitude mudou ― novos medos, novos amores, novos terrores, novas televisões.

(Entenderam?)

O sentido é aquilo que vai organizar o seu mundo. Ou seja, vai organizar o modo como o corpo vai atravessar a sua vida.

Alº: Você tinha feito uma consideração antes mesmo deles se tornarem reféns. No momento em que eles entravam no avião e sentavam faziam parte do avião, não?

Cl: Passageiros. Eles já tinham um sentido incorporal. Presta a atenção, Ricardo: quando a aeromoça te oferece uísque, é porque você é passageiro. Porque se você estivesse lá na gare, ela não te ofereceria uísque não, de jeito nenhum. Ela só oferece porque você é passageiro. Pois ali é uma formalização pedagógica, porque o sentido vai dar formalizações pedagógicas. Por exemplo, no fim do século XVIII, começou-se a produzir o sentido de uma nova família ― a chamada família nuclear. A antiga família desaparece. Começa a surgir a família nuclear ― que é pai, mãe e filho. É nessa família nuclear que é possível o nascimento de Édipo. Porque é somente na família nuclear que a criança vai ser alvejada como objeto de poder. Ou vocês não sabem que os pais dizem: “Todo o meu sofrimento é você, porque eu trabalho todo o tempo para você!” O que vai produzindo uma criança culpada ― edipiana, propriamente dita. Não é a psicanálise que produz isso. A psicanálise não tem esse poder. O que produz isso são os poderes do campo social. A psicanálise vai apenas servir. Vai dizer: É edipiano, deixa comigo! Deixa comigo, que agora eu vou trabalhar em cima dele.

O que eu estou dizendo pra vocês é que Édipo é um príncipe que começa a visitar o século XX, a partir da produção da família nuclear. Antes, não tinha lugar para ele.

Alº O enunciado do Foucault é o sentido?

Cl: É o sentido. Você vê que quando o Foucault trabalha na categoria de sentido a grande questão dele é separar enunciado de frase e proposição. Para se entender o enunciado de Foucault, esta aula que eu dei é insuficiente. Porque o enunciado de Foucault está muito ligado às questões de um autor chamado Roussel, que é por onde você vai compreender, (ouviu?). São categorias chamadas repetitivas. Mas o problema inicial para você entender o enunciado do Foucault é separar enunciado, proposição e frase. Frase gramatical, proposição lógica e o enunciado nesse campo do sentido. Na verdade, os grandes historiadores de Grécia ― nós temos três: Jean-Pierre Vernant, Vidal-Naquet, Marcel Detiènne. Eles começaram a fazer um trabalho em cima da Grécia, porque eles liberaram a noção de enunciado. Ou seja, você pode produzir enunciados em uma determinada época, mas em outra época você não pode produzir.

(Não sei se vocês entenderam…)

Mais ou menos o seguinte: no século XVII você não poderia —– (fim de fita) Não houve ainda constituições incorporais para que esse enunciado fosse produzido. Isso eu poderei dar uma aula pra vocês, eu pediria a Lula que estude e dê essa aula pra vocês na próxima vez, para garantir isso que eu estou dizendo. Certos enunciados só podem ser produzidos, quando determinadas transformações incorporais se dão ― senão não podem ser produzidos; não podem ser ditos; ninguém dirá! Quem disser é um idiota. Um cara no século XVIII dizer “O louco é um doente mental… Ninguém vai dar a menor importância a isso… porque no século XVIII não existe nem louco! Porque no século XVIII o louco não pertence ao campo social: ele perturba o campo social. Perturba o campo social ― o campo social gera polícia para excluí-lo.

Então, no século XVIII, todos os perturbadores do campo social são excluídos. É excluído o louco, é excluído o homossexual, é excluído o perverso, é excluído o ladrão, é excluído o feio… Porque feio lá não era brincadeira não ― era feio mesmo: batiam aquelas doenças brabas. E no princípio do século XIX, no meio do século XIX, vai haver um acontecimento inaudito, que é a liberação de todos esses excluídos do campo social, que serão excluídos da masmorra. Menos um. Quem? O louco. Esse fica. Por quê? Porque ele não entra na produção! Ele não entrou na produção capitalista. “Fica aí cara!” No momento em que ele fica, é só no momento em que ele fica que ele se torna objeto do saber. Porque, para produzir alguma coisa como objeto do saber, tem-se que separar aquela coisa, que, não se produz quando estiver misturada. Então é isso: novos sentidos, novos enunciados!

Está bem, Ricardo? Se você está trabalhando na música de Schöemberg, na música atonal, é porque num determinado momento, nessa época, o Schöemberg fez um confronto ― talvez ele não tenha isso nem muito claro nele. Ele não fez um confronto simplesmente com a questão cromática ― ele fez um confronto com a questão do hábito. Porque nós temos determinados hábitos que nós pensamos serem a nossa natureza. Não são! Você pode quebrar o hábito e fundar novos mundos. (Entenderam?) Nós confundimos muito isso! Aliás, nós matamos e morremos por causa dos nossos hábitos. O hábito não tem nada a ver com a natureza. Nós somos construídos para defender com unhas e dentes a virgindade das meninas, porque um hábito se constitui em nós. Um outro mundo desfaz esses hábitos e as meninas tranquilamente não precisam conservar a virgindade, que é uma prática inclusive anti-higiênica.

(Então está bom, tá?)

(Podem perguntar, vocês perguntem o que vocês quiserem, a aula acabou.)

Al: Como é que fica a produção de um grande pensador, capaz de sentir essas mudanças de sentido, aí…

Cl: Não!!! Em primeiro lugar você tem que saber o que é um grande pensador. Em segundo lugar, você tem que saber o que é o pensamento. Porque o modelo do pensamento na filosofia do ser é que o pensamento tem como natureza a procura da verdade. Quando você passa por tudo isso que eu estou colocando, o pensamento não tem natureza nenhuma. Ou melhor, vocês podem conhecer a natureza do pensamento na obra do Rimbaud: o pensamento é preguiçoso e mentiroso. Para ele trabalhar, só na porrada. Forças, muito violentas, pegam o pensamento e botam-no para funcionar. Então, você começa a sofrer traumas muito grandes quando você começa a conhecer isso daqui. Não sei se vocês sabem que a grande dramaticidade do Artaud foi essa. Ele dizia “Eu não consigo pensar. Não consigo pensar. Não consigo pensar.”

E não consegue mesmo! Porque a função do pensamento não é o que a filosofia do ser dizia, procurar naturalmente a verdade. O pensamento tem uma impotência de natureza. É preciso que uma força que venha de fora ― na aula que vem eu falo sobre isso ― faça funcionar.

Vocês querem ver uma coisa? Arranja um namorado ou uma namorada e sente ciúme dele(a). No dia seguinte você está pensando. O namorado faz um gesto e ela diz assim: ele fez esse gesto porque fulaninha estava não sei o quê, não sei o quê. Você começa a examinar todos os signos. Os signos do ciúme. Geram pensamento! O ciúme é epistemológico! Ele quer conhecer tudo!

Vocês pode ver o Swan, (não é?). Que segundo o Alexandre, sou eu: Jeremy Irons. Não sei se vocês viram esse filme: Os caminhos de Swan. Swan e Odette de Crecy.

Al: Claudio, produzir novos mundos é produzir novos sentidos?

Cl: Sim, produzir novos mundos é produzir novos sentidos. Aqui você pode ligar isso a Proust, porque Proust sempre diz que existiriam três signos que nos levariam a pensar: os signos sensíveis, os signos amorosos e os signos mundanos. Mas nenhum desses signos nos permite produzir novos mundos. É um quarto signo, que ele chama de signo da arte. É esse signo da arte que gera uma subjetividade espiritualizada, que vai gerar os mundos possíveis.

Olha, nós vamos começar a ler Proust… todas as leituras que nós vamos fazer… é tudo muito bonito, muito dominado… Então, ninguém precisa ficar triste com o que não entendeu hoje, porque isso daqui é como um filme do Alain Resnais. Se vocês forem ver Providence e vocês entenderem tudo que vocês virem em Providence, significa que vocês não entenderam nada. No filme é preciso que não se entenda alguma coisa, para se entender tudo.

Aprender isso: é bom que não se entenda alguma coisa, para se entender aquilo. Imagine se de repente eu virasse um príncipe encantado e fosse namorar a Márcia e entendesse tudo de Márcia. Que coisa chata! Você não teria mistério, não teria diferença…

Então, é isso. Pensar não é tornar tudo claro. Tornar tudo claro é uma questão do poder, que os franceses chamam de pouvoir, os latinos chamam de potestas. A questão do pensamento não é nada disso. A questão do pensamento é a potência.

Alª: Isso é o ilimitado, (não é?).

Cl: Caminhar com o ilimitado. Caminhar dentro do ilimitado. Dentro do infinito. É esse “dentro do infinito” que gerou essa menina que está aqui: o cálculo infinitesimal. Se não fosse a questão do ilimitado, ela não estaria sentada aqui. Bonita como ela é, ela estaria lá fazendo outras coisas… Ela resolveu fazer matemática, exatamente a grande matemática que ela é, porque o ilimitado no nosso século começou a ser acompanhado.

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